Renoir, de Gilles Bourdos

Por Pedro Fernandes

Michel Bouquet em cena de Renoir. Não é apenas a caracterização que ressuscita o pintor nesse filme, mas o próprio filme é uma pintura de Renoir.
Quantos anos são necessários para se formar um grande artista? Aí está uma pergunta cuja resposta é quase impossível de achá-la. A história da humanidade está repleta de nomes que tiveram vida breve e foram gênios, assim como outros que tiveram de esperar muito tempo para alcançar esse lugar, ou ainda uma outra quantidade que jovem ou velho nunca alcançou esse devido espaço entre os imortais. Faz parte desse universo um extenso jogo de possibilidades que não está em nossas mãos conseguir esclarecê-lo assim de um parágrafo para outro. O que é fato é que a grande maioria dos artistas em geral teve de aguardar chegar a morte para de imediato ou tempos depois alcançar o reconhecimento – essa palavra cujo sentido foi sempre raro de tê-lo em vida. No mais, pode-se dizer que a formação de um artista é por toda uma vida.

Podemos aplicar essas últimas considerações última ao mestre Renoir, embora quanto ao reconhecimento, muitos de seus trabalhos tiveram, ainda em vida, o reconhecimento devido. Filho da classe média parisiense, o primeiro estágio da sua arte foi ainda depois dos 13 anos, quando largou seus estudos para trabalhar numa fábrica de porcelana. Aí, o que pintava era elementos decorativos para peças como pratos, copos... Ficou na fábrica até aos 17 anos e depois foi trabalhar pintando temas religiosos que lhe garantiam melhor renda que os do trabalho anterior. Nesse período ele juntou alguns trocados para realizar seu grande sonho: mudar-se para Paris para estudar artes na Escola de Belas Artes. É quando conhece e faz amizades com importantes nomes como Alfred Sisley, Monet, Bazille...

Ficou pouco tempo, entretanto. Um ano depois de está na Escola, decide ir pintar ao ar livre em Fontainebleau; já aí pintou um quadro, A esmeralda, para o Salão de 1864, quando obteve o reconhecimento pelo seu trabalho. O que parece é que o próprio pintor não gostou desse reconhecimento; o gênio forte falou mais alto e ele acreditando na mediocridade de sua obra, resolveu destruir seu próprio trabalho... Por essa época começa sua intensa amizade com suas próprias modelos: primeiro Lise Trèhot.

Atravessando uma crise financeira – aliás, coisa comum para o artista – mesmo morando com Lise na casa de seus pais, Renoir alistou-se na cavalaria para lutar na guerra franco-prussiana. Não chegou até o fim dos confrontos: uma doença nas articulações o impediu de permanecer no batalhão de frente. O retorno da guerra foi também o retorno da sua vida como pintor e os trabalhos foram sendo vendidos, o que lhe permitiu alugar um prédio maior para fazê-lo de ateliê. Estava na sua fase impressionista e foi buscar inspirações na Argélia e Itália. Depois de várias viagens por esses dois países, o pintor deu início ao período que ficou conhecido como indecente, um, apesar das fortes limitações, dos mais profícuos de sua carreira.

Michel Bouquet e Vicent Rottiers em cena de Renoir. Rottiers não é apenas a personificação do filho de Renoir e parte outra nos conflitos familiares com o pai, é também a centelha para a gênese da tradição cinematográfica francesa.

É neste ponto que Gilles Bourdos se concentra em Renoir. Já era pai de Jean Renoir, que se tornaria um grande cineasta francês e de Claude, carinhosamente apelidado de Coco. Todos são personagens no filme. Coco foi filho de Aline, uma das modelos do artista que só aparece já perto do fim do filme. É que depois do nascimento, Aline é mandada embora de casa já que a mulher de Renoir tinha conhecimento do envolvimento do marido com a modelo. A partida de Aline, ao que parece, figura mais materna que a própria mãe, deixa um vazio não apenas em Renoir, mas em toda família. Quando o filho mais velho retorna da primeira guerra, depois de sofrer um acidente na linha de frente, é notória a sua decepção ao perceber a ausência de Aline que no passado foi também namorada dele; também é notório que a partida de Aline tem relação direta com o comportamento arredio do irmão mais novo.

Ao fundo Christa Theret que interpreta em Renoir a última modelo para o pintor francês, Andrée. O filme destaca sua importância, primeiro, na "ressurreição" do pintor, depois, numa das incentivadoras a que Jean desenvolva algum talento, como o pai, que seja diferente do de soldado.

Sem Aline, Renoir usa como modelo, Gabrielle, contratada para cuidar do órfão Coco. Isso até a chegada de Andrée, uma jovem aspirante a atriz, que vai ao ateliê do artista como a mando da sua mulher; já pela época, Renoir havia perdido a esposa e cada vez mais se agrava seu problema com a artrite. Com dificuldade para segurar os pincéis usa-os amarrado às mãos. Andrée será o avant já não mais esperado pelo artista. Isso está detalhadamente retratado por Bourdos que aposta ainda no envolvimento amoroso da nova modelo com o filho de Renoir.

A riqueza do filme não está apenas no caso de mostrar os últimos anos de vida do artista, mas em detalhar, com uma riqueza fina e tão singular, como se o cinema pudesse incorporar para si a própria técnica da sua pintura, as relações complexas e a integralidade dos percursos da vida de Renoir. É o reconhecimento pela obra do artista e os últimos anos de sua vida, mas é também o do nascimento da tradição cinematográfica francesa ao colocar em cena Jean e Andrée em planos para a feitura de um filme e fazer disso um negócio.  A relação artes plásticas e artes cênicas nunca alcançou um casamento tão perfeito como nesse filme.

Agora, retornando ao aspecto biográfico da narrativa, outra observação. Nada disso que descrevemos no início deste texto é apresentado diretamente no filme, para se ter uma ideia.  São apreensões que vão sendo desenhadas ao longo da trama. O cineasta não abusa do tempo biográfico com uma sequência longa, com narrativa em off ou mesmo flashbacks. Ele sabe da incompatibilidade do tempo biográfico para uma narrativa de uma hora e meia e sabe o quanto determinados procedimentos já são ultrapassados no gênero.

Destaque para a interpretação singular de Michel Bouquet que não apenas encarna a personagem, mas se torna o próprio Renoir com uma desenvoltura e uma capacidade igualmente singular em transitar pelos diversos modos de ser e estar do artista. Renoir é um filme sensível que capta o limite certo, ou melhor, o tom adequado para uma boa narrativa biográfica. E isso é suficiente para fazê-lo numa das produções mais ricas na carreira de Gilles Bourdos.

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