o remorso de baltazar serapião, de valter hugo mãe

Por Pedro Fernandes

Este livro de valter hugo mãe é o segundo trabalho do escritor no gênero romance e pertence à safra dos trabalhos escritos em minúscula desde o nome do autor – condição que será abandonada mais tarde por admitir o escritor ser esta uma forma que estava se tornando clichê para sua literatura. Trata-se de um romance que nasce sob as bênçãos do Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago, que o considerou “tsunami literário”; por essa razão é que o remorso de batalzar serapião foi ganhador de uma das primeiras edições do Prêmio José Saramago. Na mesma ocasião em que declarou ser este um tsunami literário, declarou também Saramago, está tomado, enquanto o lia da impressão de que estava a assistir “um novo parto da língua portuguesa”. As duas expressões podem ter um tanto do exagero comum quando nos desfazemos em elogios a determinado trabalho que de imediato muito nos toca, mas terá suas razões para serem ditas da forma como foram ditas: o livro de Mãe é um rico romance e não serão poucos os momentos que na sua leitura serão tomados os leitores da mesma sensação que um dia guiou o sentimento de Saramago.

As razões são várias. E a principal delas está no estilo com que o escritor engendra sua narrativa. Situados que estamos no alvorecer do que viemos mais tarde chamar por civilização, o autor engendra um narrador em primeira pessoa que se apossa de uma forma sintática rústica, próxima da oralidade, que nos conduz realisticamente para o tempo evocado. É o suficiente para que o leitor esteja mergulhado num mundo que preserva a essência fabulatória do primeiro romance, o nosso reino, mas uma essência integralmente renovada porque não apenas o tempo evocado é outro como o ponto de vista de quem narra também já é outro. Se no primeiro texto é a vista de uma criança que nos pega pela mão e leva a esse tempo outro, agora, é um jovem, um adolescente, diríamos hoje, que vive a mesma entrega de constante redescoberta do mundo. É evidente que o baltazar terá perdido aquela condição do menino benjamim, mas a forma até certo ponto ingênua de compreender às situações à sua volta remetem um tanto para esse infante ainda escondido ou por que não para a infância da própria civilização humana.

É que o registro fabulatório da narrativa permanecerá somente na atmosfera de narrado, porque o narrado é a voz de um parto doloroso da sociedade. o remorso é atravessado de ponta a ponta pelo tom da barbárie. Principalmente com as mulheres, mulas de carga de toda sorte de despautério dos homens: "uma mulher é ser de pouca fala, como se quer, parideira e calada [...] ajeitada nos atributos, procriadora, cuidadosa com as crianças e calada para não estragar os filhos com os erros"; "as mulheres são frutos podres, como maçãs podres, raios hão de partir eternamente a eva por ter sido mal lavada nas intenções".

Num universo predominantemente  masculino o narrador não se preocupa em nenhum instante com que assiste – a mãe ser violada todas as noites pela posse bruta do pai, depois sofrer toda sorte de maus-tratos como ter partes do corpo deslocadas numa tentativa de ficar feiosa e não despertar a cobiça de outros homens, ou mais tarde, ver o mesmo pai, invadir o corpo da mesma mãe até o limite de arrancar fora um menino que ela esperava nascer sob a acusação de ser fruto de traição. baltazar até se pergunta sobre essa condição das fêmeas, principalmente quando da morte da mãe, mas não apenas não faz nada para que os despautérios familiares permaneça como ainda repete as atitudes machistas do pai. Ao se casar com ermesinda, a moça mais bonita de toda a vila, ele irá repetir as ações de deformação do corpo da mulher pelos ciúmes que nutre pela beleza dela e pelo envolvimento a que é forçada manter com o representante do condado, afonso. ermesinda cuida das atividades leiteiras, mas é obrigada a cumprir um misterioso expediente a portas fechadas com seu senhor, mesmo este sendo casado e ter suas rameiras.

Ainda nesse universo feminino – que parece ser uma espécie de voz silenciada que percorre o romance de ponta a ponta – convém lembrar além das personagens já citadas, a teresa diaba, uma espécie de mulher sem família e que vive da luxúria do corpo como uma puta a saciar os corpos não apenas dos machos em ascensão, caso do irmão de baltazar, como os outros já criados nas experiências de domação das fêmeas, como é caso o próprio baltazar, seu pai e os outros homens do vilarejo. Depois, a mulher queimada, personagem que aparece a altura do capítulo onze ao fugir da fogueira e se tornar espécie de fantasma ou bruxa que vive rondando o vilarejo e sempre à porta da casa dos sargas até sua partida em definitivo do lugar sobre a proteção indireta de baltazar e o irmão que vão ao reino para cumprirem uma missão do rei. E catarina, mulher de afonso, a única que tem certo status, por ser senhora, mas igualmente rebaixada pela sua condição de mulher, seja porque o marido que tem não tem olhos para si, seja porque é totalmente privada da liberdade de ir e vir.

Agora, cabe explicar a presença do termo “sarga”. Esta é a alcunha pela qual a família a que pertence baltazar é conhecida no vilarejo. O substitutivo de serapião, seu sobrenome verdadeiro, é produto de uma vaca de estimação da família. Criada desde muito tempo pelo pai, acusado pela vila inteira de manter um caso amoroso com o bicho, o povo do vilarejo também crê que os dois filhos, o baltazar e o aldegundes, não sejam de fato filhos de uma mulher, mas da vaca. O limite identitário da família a fundir homem e animal que é umas das grandes inquietações de baltazar, será revivido quando ele presencia um dia seu irmão de posse da sarga em plena ação de sua sexualidade.

De modo que, se no primeiro romance, Mãe inventaria uma arqueologia da religião e sua violência sobre o corpo, neste, é a própria sexualidade, experimentada na sua condição diversa, o grande elemento investigado pelo romancista. A condição das mulheres, largamente condenadas a violência de cerceamento do corpo é tão somente mais um ingrediente desta complexa teia desenhada em o remorso. Ou não lembraremos do espírito zombeteiro sobre a mulher quando ermesinda recém casada com baltazar tem o lençol manchado de sangue, como símbolo da sua virgindade rompida pela força bruta do homem, exposto dia após dia, às vistas de todos do vilarejo como troféu da macheza? Ou de como fica assustado baltazar quando certa feita, a mesma ermesinda tão gelada na cama é quase que tomada por explosão animal no sexo a ponto de mais tarde isso lhe custar a sua primeira deformação?

Além das pequenas laborações líricas pulsantes em baltazar pela sua ermesinda, que se fosse apenas isso talvez estivéssemos condenados a violência gratuita dos corpos fortes sobre os frágeis, há um veio lírico que nasce a certa altura da narrativa e segue a risca aquela concepção da arte como condição redentora da barbárie. O nascimento da pintura, espécie de dom manifestado no irmão de baltazar, logo depois da morte da sua mãe. A arte dará aos sargas uma nova possibilidade de salvação da condição animalesca a que estão condenados. Descoberto pelo rei, aldegundes recebe a incumbência de partir para o reino a fim de pintar o que fosse pedido.

Por fim, o tratamento com a linguagem, a capacidade de síntese – afinal é toda a saga de uma família o que é narrado – e a criatividade do autor em trazer para a contemporaneidade um recorte da Idade Média período histórico muito pouco explorado pela nova literatura, desde quando esta se quedou para os acontecimentos de um tempo “presente” ou de um “futuro utópico”, são condições únicas para se pensar que Valter Hugo Mãe é dotado das principais ferramentas formadoras de uma voz singular no universo literário português de seu tempo. 


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