Três animações a partir de contos de Oscar Wilde



Muito antes de Oscar Wilde se tornar uma celebridade literária por sua obra mais conhecida, O retrato de Dorian Gray e contos como “Salomé” e “The importance of Being Earnest”, o escritor esteve envolvido noutras coisas "fora da realidade" de escritor. Viajou pelo Reino Unido e pelos Estados Unidos como representante de um movimento urbano estético populista  do século XIX que tinha entre outros interesses ser contrário ao puritanismo de Era Vitoriana e o caráter moralista e utilitário da indústria cultural. Em relação a estes interesses, o movimento de que fazia parte anunciava que o bom gosto e a busca pelo belo deveriam ser os únicos princípios pelos quais deviam se guiar a arte e a vida. Wilde expressa essas ideias em vários epigramas bem conhecidos, com certa ironia – “In all unimportant matters, style, not sincerity, is the essential. In all important matters, style, not sincerity, is the essential.”



Pelas mesmas razões com que foi homenageado mais tarde ou é homenageado hoje, Wilde foi ridicularizado. Sua figura pública de flamboyant e sua devoção ao esteticismo foram satirizadas como produto de um decadentismo egocêntrico. Os leitores mais avisados, entretanto, sabem que nem tudo o que a pessoa Wilde defendia recaiu de fato na sua literatura. Alguns de seus melhores trabalhos, atenta a crítica, são histórias de cunho moralizante, como o livro de 1888, The happy Prince and other tales (O príncipe feliz e outros contos), com contos de fadas para crianças. No texto que dá título ao livro, um príncipe é transformado numa estátua com um pedestal brilhante acima de sua cidade e os moradores olham para ela como um exemplo de perfeição humana. Mas o príncipe não dá ouvidos para admiração, leva o tempo chorando de compaixão pela pobreza e o sofrimento que ele vê abaixo dele. Produzido em 1974 pela empresa canadense Potterton Productions e vozes dos atores britânicos Christopher Plummer e Glynis Johns, o curta-metragem de animação é uma adaptação fiel ao conto de Wilde.



Antes, em 1971, o mesmo estúdio já havia produzido outro curta-metragem de animação baseado num texto do livro The happy Prince. A alegoria cristã “The Selfish Giant”, outra narrativa cuja figura principal é um gigante mal-humorado que quer manter as crianças fora de seu jardim. Este filme chegou a ser indicado ao Oscar de melhor curta de animação em 1972. O estúdio especializou-se em produções do gênero; foi aí que se produziu, por exemplo, o curta A pequena sereia a partir de um conto de Hans Christina Andersen. Mais tarde foi produzido um terceiro curta a partir dos contos de Oscar Wilde, The remarkable rocket. O mais interessante em tudo é que todos os curtos foram coproduzidos com apoio da Readers Digest, uma revista que representava o dedo duro no reforço dos princípios vitorianos dos quais Wilde sempre desdenhou.


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