A passagem de Allen Ginsberg pela Índia


Gary Snyder, Peter Orlovsky e Allen Ginsberg, ao visitar Lama Govinda. Ao fundo os picos do Himalaia. Primavera de 1962. Foto: Arquivo Allen Ginsberg

Allen Ginsberg passou oito meses num hospital psiquiátrico porque teve uma visão de William Blake que durou uma semana. Quando ingressou ali levava debaixo do braço um exemplar de Bhagavad Gita, o livro mais importante do hinduísmo. Treze anos mais tarde, William Blake, definitivamente convertido em seu guru, embora já não em forma de alucinação, mas de cartaz, o acompanharia numa viagem de um ano pela Índia que seria compartilhada com sua parceria sentimental de durante três décadas, Peter Orlovski, e, parte dele, com o matrimônio formado pelos poetas Gary Snyder e Joanne Kyger, que então residiam no Japão. Estamos falando de 1961 e 1962, uma época em que a contracultura estava buscando referentes intelectuais e espaços mentais e geográficos para assentar-se. Ginsberg, que pouco antes havia deixado atônitos os melhores cérebros de sua geração com seu poema O uivo, e depois de provar o denso ar de covil que era o Tanger daquele momento, com Willian Burroughs e Paul Bowles como sumo sacerdotes, decidiu seguir o conselho de um de seus sonhos, onde se lhe aparecia a Índia como a “terra prometida”. Foi uma maneira de oficializar o oriental como um dos ingredientes principais da nova poesia, da nova política e da nova filosofia de vida.

Dessa viagem inicial temos três testemunhos: Indian Journals (Diários Indianos, título inédito no Brasil), do próprio Allen Ginsberg, um livro que escreveu Gary Snyder para contar esta experiência para sua filha (Passage through India, publicado em 1983) e umas 50 páginas dos diários de Joanne Kyger (Strange big moon, 2000). Em todos eles são reproduzidas fotos em preto e branco, sem foco, semiveladas e maltratadas pela passagem do tempo, mas repletas de uma força expressiva: Ginsberg num terraço de Benarés, alimentando aos macacos, Orlovski deitado numa habitação com uma grande barba e cabelo longo, estes dois e Kyger no pátio de uma mesquita de Nova Deli e ao pé de uma montanha em Dharamsala, Kyger cozinhando ao ar livre em Bodh Gaya, mendigos, leprosos, brâmanes, vendedores de cigarro... Fotos que, interpretadas à luz dos textos que ilustram, não foram realizadas para deixar testemunho de uma viagem, mas para o contrário: corroborar a impossibilidade de qualquer testemunho, confirmar a radical falsidade do conhecimento, remarcar a importância do vazio (o que resta entre o dito e não-dito, entre o fotografado e não-fotografado) na transmissão de uma experiência. Fotos parecidas, sim, para textos muito diferentes: Gary Snyder, sério estudioso e praticante do budismo num monastério japonês, está atento a deixar uma relação coerente, documentada, linear, com poucas referências pessoais e cotidianas, privilegiando as paradas espirituais (templos, cavernas, professores, universidades, encontros poéticos); Joanne Kyger, a mais jovem de todos, esquemática, nervosa e sem medo a contar suas lutas com Snyder, sua opinião negativa sobre o excesso de ego de Ginsberg e acerca de suas metas por alcançar, sem a ajuda de nenhum professor, como o estado do despertar interior, ou suas críticas a Orlovski por estragar constantemente os planos de viagem numa leva de mal-estares provocados pelo consumo excessivo de morfina, tudo isto torna-se em muita matéria de crítica e alegria na oportunidade de visita a Índia; Allen Ginsberg, torrencial, bem situado, intenso, o único que se entrega a essa viagem disposto a deixar a alma nela, a romper-se em mil pedaços, a enfrentar-se com seus próprios demônios não com as armas da teologia, da antropologia ou da literatura senão com o corpo descoberto.

Do telhado da casa de um brâmane onde a comitiva Ginsberg havia alugado o terceiro andar por seis meses, entre dezembro de 1961 e maio ​​de 1962, podia-se ver os últimos topos do Mandir e todo Rio Ganges. Aqui, Ginsberg alimenta um macaco. Foto: Arquivo Allen Ginsberg.
Estes diários de Allen Ginsberg são vários livros e nenhum. Vários livros: um livro de poemas (alguns dos quais, como “Medição sonolenta em casa” (tradução livre), se encontra os melhores de sua produção); um livro de sonhos (num se santifica a Basura, noutro revive um cachorro de brinquedo, em vários se assassina ou se estupra, em outro há naves espaciais e uma inquietante Agência Central de Controle Cósmico Estatal, em muitos aparecem famosos como Krushev, Gandhi, Cary Grant ou Churchill); um registro das enfermidades que vão afligindo ao autor ao longo do caminho (bronquite, febre, inflamação no braço, vermes, diarreia, ferida nos pés, conjuntivite, problemas renais, cólicas renais, vômitos, fleumas, tosse); um livro sobre drogas e seus efeitos (banguê, estramônio, ganja, ópio, morfina, pastilha de mescalina e psilocibina, bencedrina), tema sobre qual interroga a um jovem Dali Lama e muitas outras personagens religiosas com quem se cruza, e a quem se oferece a experimentar peyote e LSD; um livro de teoria poética (estupendo ao resumo que faz em varias entradas dos novos princípios poéticos baseados na livre associação, no fluxo mental, na “métrica de goma”, na poesia como sadhana ou prática espiritual, na justaposição aleatória,  na intuição na hora de dispor as palavras ou na ruptura da sintaxe); um livro de versões de charmosos poemas bauls, uma facção de membros semianalfabetos que vão pelas aldeias de Bengala cantando a divindade; um livro de cidades e personagens da Índia, de trens (sempre em compartimentos de terceira classe) e monumentos, de campos de arroz e praias, de hotéis de má sorte e de ruas escuras; e um livro, enfim, dos mil e um personagens (Whitman e Kali, Gertrude Stein e Shivananda, Rembrandt e Annadamai, Pound e Swami Satyananda, Cézanne e Kabir, Popeye e Ramana Maharshi etc.) que assaltam sua escritura como bandoleiros de uma caravana de comerciantes, a dizer, a roubar-lhe seus prejuízos e a informação acumulada ao largo de tantos anos e deixar-lhe em estado de pobreza essencial e imprescindível para converter-se no santo que quer ser.

Os diários índios de Allen Ginsberg são todos estes livros e também nenhum livro porque estes fragmentos tão heterogêneos e os livros, como acabamos de ver, no instante em que podiam agrupar-se, vão-se misturando uns aos outros à tapa, se empurram mutuamente o que se passa fora das páginas que, de fato, é tudo o que neles se contém, se desdizem aos gritos, se negam com todas suas forças até que o leitor que assiste espantando a essa luta de estilos e de assuntos, acaba vendo apenas o branco que há por detrás deles e identificando-se mais com este (o branco ou zero absoluto da iluminação) que com a pretensão ou sentido literal desses fragmentos.



Allen Ginsberg, que passeia pela Índia em dhoty e camisa de lenhador, se pergunta se vai contra o dharma matar mosquitos (os esmagas contra seus braços, contra as páginas de seus livros, contra a camisa branca de Peter), crê que é assunto de cada ser criar suas próprias divindades e se angustia porque não sabe que fazer com essa vida sua desprovida de toda ideia. Também se sente culpado por parar a meditar estas coisas em vez de prestar atenção aqui às ruas e às figuras cotidianas da Índia. Mas sim que lhes presta atenção: a Índia de Ginsberg é imediata, verdadeira, honesta, generosa, aberta, contagiosa. Uma Índia a que ele não resiste, como fazem tantos viajantes timoratos, sem respeito ou insensíveis, mas a que se entrega com paixão e sem idealizações.

Fuma tubos de ópio e de bhang com os brâmanes empoeirados e desnudos na rua, se deixa roubar bananas pelos macacos que entram sua casa de Benarés, dorme sobre plataformas de madeira à beira de um rio, se passa horas inteiras contemplando a cremação dos cadáveres, descreve cachorros, esquilos, búfalos, vacas, crianças, comerciantes, policiais... Uma Índia  que o autor não lhe reduz pela palavra, nem é prepotente em relação ao país, lhe oferece sua visão para que se explique a si mesma (outro defeito de tantos estrangeiros que tem pretendido, às vezes em visitas de um mês ou menos, saber mais que a Sabedoria). A Índia de alguém que havia passado oito meses num hospital psiquiátrico, muitos anos atrás, lendo o Bhagavad Gita, esse livro que lhe adverte sobre um seu principal inimigo, ele mesmo. Talvez Ginsberg não encontrara na Índia a terra prometida que havida visto num sonho tido no Tanger, mas o que é certo é que seu testemunho, estes diários, pode dar a muitos, as coordenadas para encontrá-la.

Ligações a esta post:
>>> Sobre o poema O uivo - versão para ler, ver  e ouvir. Aqui.
>>> A lista de leituras de Allen Ginsberg.

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