Amor eterno amor, de Paulo Cox



É preciso dizer que o título, apesar de sugerir um daqueles romances baratos, está longe desse lugar comum. Com um enredo extremamente simples, outra coisa também é preciso dizer, Paulo Cox consegue o improvável, transformar essa simplicidade em algo de amplo sentido. Nos anos cinquenta, Andreas, um jovem estudante de música, conhece Claire, filha de um diplomático. Os dois então vivem uma intensa paixão, mas por um daqueles imprevistos da vida, acabam se separando. Cada um, distante, faz suas vidas: casam, têm filhos. Cinquenta anos depois pela ação do mesmo imprevisto que os separou, casualmente, os dois se reencontram.

Já viúvo e com a morte em estado iminente, Andreas buscará todas as formas para resgatar o passado e viver essa história de amor falhada. No caso dele as coisas são um tanto simples: não há nada que o impeça de por em prática um desejo desse tipo, mas não é esta a situação de Claire, casada há 45 anos. Ainda que este seja um casamento apagado, ou melhor, nunca pareça ter assumido uma posição dianteira na vida dela e nem na vida dele, que se mostra muito mais acostumado à situação que os dois construíram para si que vivendo intensamente um amor, a situação não é fácil.

A surpresa é que, mesmo estando diante de duas pessoas maduras, aparentemente experientes, o comportamento dos dois em relação à nova situação instaurada, se constrói daqueles mesmos mecanismos que sustém, por exemplo, os amores e as traições adolescentes. Claire, não pensará duas vezes em experimentar da necessidade de sentir-se outra vez desejada, outra vez amada, e levará adiante esse encontro amoroso, primeiro, pela curiosidade da parte dele, em saber se tudo se passaria como quando jovem, embora nela haja maturidade suficiente para acreditar que não; segundo, por uma necessidade de fugir da rotina e fazer valer a pena o que pode ser o último instante de real valor da sua vida. Toda maturidade de Claire não servirá de nada: ela será tomada por aquele mesmo ímpeto que do tempo adolescente, desfazendo a própria crença dela, de que um amor na maturidade seria movido por outros interesses e teria a moderação racional de duas pessoas de idade.

Já quando o marido de Claire fica sabendo da traição, assumida imediatamente ao dia seguinte em que dorme com Andreas, a tendência dele é não acreditar na conversa dela e julgá-la como necessitada de um acompanhamento psiquiátrico. Até que ele, de fato, compreenda do envolvimento extraconjugal da mulher, também todas as fases críticas de um inexperiente com a traição serão vivenciadas por ele: basta que se diga, por exemplo, das cenas patéticas em que ele se mete vigiando os passos dela como se o que fizesse fosse algo proibido. 

Parte da trama é costurada entre as cenas do tempo em que os dois viveram as primeiras cenas de amor e o desenvolvimento das cenas do reencontro, sem que isso seja um jogo gratuito entre o presente e o passado. No restante, Fox privilegia a simplicidade de uma ponta a outra: a fotografia, a música... Nada aí é usado exageradamente; nada é usado com o intuito de subverter ou de promover uma estética nova no interior do cinema. O interesse do cineasta é tão somente contar uma história, recuperando um lugar já um tanto esquecido, pelos grandes estúdios de cinema.

Amor eterno amor se não prova que as histórias de amor por mais no passado que estejam podem vir à tona de refundar sentidos na vida das pessoas ao menos diz que entre a juventude e a maturidade não há esse abismo quase intransponível sondado por parte de nós e experimentado na compreensão de Claire. É que talvez, no fundo, não mudemos tanto assim, apenas vamos tendo outras percepções ou percepções mais acabadas sobre as mesmas coisas.

Mais: é verdade que todo amor verdadeiro é eterno? Mas é eterno eterno, ou eterno enquanto dure como formulou o poeta Vinicius de Moraes? Ou será o eterno enquanto dure um eterno eterno? Paulo Cox, investiga essas possibilidades e a conclusão a que chega em muito se aproxima da condição pensada por Vinicius: ao menos em vida - que de eternidade pouco ou nada entendemos - há possibilidades do amor sempre ser reverberação constante, até que a morte se interponha com o fim absoluto. 


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Inferno provisório, de Luiz Ruffato

L’amour, de Michael Haneke

A religiosidade clandestina de Hermann Hesse

O Bovarismo como pedra de toque na obra de Lima Barreto

Rupi Kaur: poeta reconcilia o passado das mulheres indianas e transforma sua dor em tema universal

Como alguém se transforma num escritor? Dez notas sobre o primeiro livro

Entre a interdição e a plenitude: treze livros para o Orgulho Gay

Clara dos Anjos: a chaga dos anos 20

O progresso do amor, de Alice Munro

Apontamentos sobre alguns textos curtos de Tolstói