Inéditos de Virginia Woolf editados na Inglaterra



Tem pouco tempo que os suplementos literários ao redor do mundo deram conhecimento a todos da descoberta do que seriam os últimos textos inéditos de Virginia Woolf. E logo tomado por uma certa sede pelo inédito e por trazer a lume novidades das mais pitorescas em torno da escrita de grandes nomes da literatura (até já refletimos sobre essa invasão editorial e esse desejo pelo ineditismo por aqui) eis que os tais inéditos são agora publicados numa edição fac-símile pela Biblioteca Britânica e organizada por Claudia Olk. 

Em alguns casos, a chegada do inédito, cumpre, de fato, num instante de aperfeiçoamento do olhar sobre a obra de determinado escritor; noutros nem tanto. Com conhecimento de pouca causa, é possível crer, dado o teor do material ora publicado, que este trabalho da Olk esteja entre os do segundo rol, afinal, o que se diz de novo sobre a autora de Mrs. Dalloway é apenas que ela teve divertimentos com a escrita. Nada mais. Mas, divertimentos com palavras qual escritor não os teve? Resta saber é se ele, o escritor, quis ter esses divertimentos à mostra e à especulação desse olhar sedento pela devassa da vida íntima sua e dos processos particulares de relação com a escrita.  

O fato é que The Charleston Bulletin Supplements estão aí, agora, ao alcance de todos. E é ele um típico exemplo de intimidade da escrita, porque foi um periódico familiar criado, primeiro, pelo adolescente Quentin Bell e o irmão mais velho de Virginia Woolf, Julian, entre 1923 e 1927; depois, Julian abandonou a ideia e a irmã assume o posto. Na época, Woolf desfrutava de seu período mais prolífico como romancista – basta que se diga que dois dos seus principais romances foram publicados nesse intervalo de tempo, o Mrs Dalloway, em 1925, e O farol, em 1927.

The Charleston Bulletin era um boletim íntimo produzido anualmente para circulação entre os familiares e os amigos – boa parte deles aparece como personagem nessas páginas e ressaltados naquele ponto que tinham de mais fraco, com certo toque de divertimento e comédia. David Bradshaw, quem assina o prefácio da edição ora publicada vê uma relação muito próxima entre o papel que esses tais suplementos e a obra da escritora; eles representaram uma libertação da própria Woolf daquele lugar que ela elaborou para si e que obteve o reconhecimento da crítica.  

Os desenhos engraçados são de Quentin, mas as palavras foram ditadas principalmente por Woolf para ele, embora várias vezes ela própria tenha escrito os textos para as imagens. É Claudia Olk que redige uma extensa introdução explicativa, quem revela ser os suplementos a  última das produções inéditas da romancista inglesa. E em zelo pelo achado, e dada as condições do material, editora e organizadora primaram pelo fac-símile, reproduzindo a maioria das páginas com as imagens no mesmo tom e optando pela transcrição de todos os textos, vista a má caligrafia, os erros de gramática, pontuação e ortografia do jovem Quentin, bem como as excentricidades do mesmo gênero praticadas pela tia. As transcrições preservam tudo isso, entretanto.

Os organizadores ainda tomaram cuidado de estudar passo a passo o material e não pouparam anotações a fim de dar à produção toda seriedade acadêmica possível e buscar ressaltar o grau de importância do achado. Apesar de proposital, nesse processo, logo se vê, peca-se pelo excesso de interpretação, muito provavelmente, atribuindo-se forçadamente um valor que o próprio documento não é possuidor. Olk, não vê a atitude com esses olhos: a dissonância entre as legendas e a transcrição dos textos não é tão visível assim e o tom de uma para a outra é bastante leve e agradável de modo que o estilo acadêmico não supera a voz do arquivo.

Além da própria Virginia e os seus familiares, Leonard, e vizinhos e amigos de Bloomsbury, muito deles visitas regulares no período natalino, as personagens desenhadas nos Bulletin são também moradores de Charleston – Vanessa e Clive Bell, seus filhos, Duncan Grant – funcionários da fazenda, animais de estimação, todos refletindo uma atmosfera muito íntima e descontraída.

Os suplementos são temáticos e projetados para provocar os dramas pessoais dos retratados como no primeiro em que é caricaturada a vida de Virginia e da irmã Vanessa. Em grande parte das produções é a figura de Vanessa Bell quem rouba a cena, esclarece Olk. Um dos números é quase que integralmente dedicado aos episódios ridículos da vida de Clive e boa parte das piadas são tão íntimas que, dificilmente podem ser captadas com o mesmo teor de sentidos que tinha entre os dois. Os Bell integraram o grupo de Bloomsbury, sendo Clive e Desmond McCarthy os principais críticos de confiança de Woolf.

Tem suas limitações, evidente, mas uma publicação do gênero serve aos aficcionados pela vida de Virginia, que nessas ocasiões não há mesmo limites, todos querem se sentir acolhidos, integrados nesses circuitos íntimos de seus escritores favoritos. 

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No nosso Tumblr publicamos três imagens que dão contas de como eram os Bulletin

Denise Bottmann traduziu para a Folha de São Paulo alguns trechos dos textos aqui.

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