Raptado pelas musas


Por Javier Gomá Lanzón

Nicolas Poussin. El Parnaso. Apolo oferece o néctar a um poeta coroado de laurel por Calíope.


Há um feito notório e universal que pede uma boa explicação: por que determinadas pessoas dedicam as melhores horas do dia, os melhores dias do ano e os melhores anos de sua vida, para produzir algo que nunca lhes foi pedido, sem que o êxito social, os requerimentos da consciência, o desejo da fama ou o enriquecimento econômico se constituam numa motivação pessoal. O feito só pode ser designado pela palavra vocação. E necessita explicação porque é mencionado, invocado ou apelado a cada passo por quem o experimenta no interior de sua personalidade – poetas, pintores, compositores, criadores, artistas, pensadores –, mas raras vezes tem sido objeto de meditação filosófica.

1 A vocação se compõe de dois momentos: visio e missio (visão e missão). O que percebe nossos sentidos não tem sentido. Nossa experiência do mundo é caótica, fragmentária, e não alcança uma unidade significativa. O mundo se parece um puzzle de mil peças que só um pequeno número delas – cem, duzentas – estão já colocadas em seu lugar. Às vezes, em vista dessas poucas peças, um crê adivinhar fugazmente, insinuando, um conjunto, mas essa promessa fica logo desmentida por uma esmagadora experiência do absurdo e do absurdo da vida. Pois bem, há determinadas pessoas que se têm a visão do puzzle inteiro – a imagem da paisagem, o retrato, o edifício – são capazes de completar com sua imaginação os vazios sem colocar as peças. A essa visão se referia Rafael de Urbino quando dizia que, antes de pintar um quadro, se formava em sua mente “uma certa ideia do todo”.

Quem tem essa “ideia do todo” sente dentro de si a pressão de produzir um objeto que a incorpore e lhe dê suporte para assim evitar que se perca, como as demais coisas humanas, arrastada pela corrente do tempo. Este produzir se diz em grego antigo poiesis: produzir um objeto – um quadro, uma escultura, uma sinfonia, um poema, um sistema filosófico – que não persegue função utilitária alguma exceto a de prestar consistência, coerência, firmeza, e perduração da visio e assim colocá-la como caráter permanente à disposição de si mesmo e dos demais. Está aqui o segundo momento da vocação: a missio. A ansiedade por criar o objeto pode chegar a ser extremamente absorvente, tirânica e arrebatadora. Neste sentido, a vocação constitui-se uma anomalia vital e um empobrecimento objetivo: supõe a ativação de todas as faculdades, capacidades e potências humanas na direção de uma – uma só – de muitas possibilidades que oferece a exuberância vital; em troca, uma imensa concentração de energias.

2 Os gregos, esse povo dotado como nenhum outro para dar plasticidade aos conceitos mais abstratos, representaram o duplo momento da vocação como um rapto das Musas. Na Antiguidade se registram casos de sequestros perpetrados por elas que podem chegar a ser possessivas e de uma maneira quase violenta. Suas presas se sentem, como se lê no verso das Geórgicas, de Virgilio, feridas de um amor sem limites. “Ele que é raptado pelas Musas (mousóleptos) é um poeta genuíno, em contraposição ao poeta artífice”, escreve Walter Otto em seu célebre estudo Las Musas. El origen divino del canto y del mito (As musas. A origem divina do canto e do mito, tradução livre, título inédito no Brasil).

O raptado vivencia seu sequestro como uma chamada para servir a obra que se gesta lentamente em seu interior, como se estivesse prenhe de uma ideia ou de um nó embrionário dela durante longos anos e devia consagrar a inteira organização de sua existência à missão de preparar e assegurar o feliz alumbramento. A fim de que o objeto se forme orgânica e sistematicamente em sua estrita objetividade, o raptado renuncia a uma biografia interessante e estar num mundo sempre de passagem, como os pastores, sem desfazer nunca as malas, à defensiva de qualquer novidade que distraia a atenção de sua carga onerosa, mas amada, sem surpreender-se com nada e também sem deixar-se surpreender. Para quem teve essa visão raptadora, tudo permanece no ar enquanto esta se materializa. Quando lhe ocorre, sente ou experiencia, tudo é revestido de um valor único que somente serve para clarificar a existência como uma visão iluminadora. No peito dos mousóleptos se agita uma autêntica emoção poética, mas a sua se parece mais a uma paixão fria porque se orienta geralmente pelo lado abstrato  do mundo sem chegar a concretizar-se em nada nem em nada. Eles não têm outro remédio senão resignar-se a uma relação somente mediada com as coisas boas e belas do mundo: se diria que as vê através de um cristal, como o presidiário em horário da visita regulamentar, quem o beija, beija como se através de um lenço, e todas as pessoas, inclusive as mais queridas, se limitam a pousar teatralmente como seria um modelo ante o pintor que o retrata. O universo inteiro em função da obra, a qual por sua vez contém a totalidade do universo entrevisto. Daí que, para quem conhece a força da autêntica vocação, resulte tão incompreensível que alguns escritores, como Borges, presumam os livros que tenham lido acima do que escreveram. Não: o mundo estimará em mais ou em menos a obra produzida, mas, para o autor, a vida está lá na sua obra, ao menos se ele verdadeiramente souber dar corpo nela a sua visão.

Convém destacar o feito de que somente se alcança com êxito a produção do objeto se este adquire uma objetividade independente eu que o produz. A juventude predispõe a visio enquanto que somente na idade madura estão as condições de fundamentar a missio. A autopossessão, o narcisismo, o subjetivismo extremo e livre de compromissos característicos da adolescência às vezes suscitam uma atitude favorável a aparição das Musas mas, ao contrário do que sugere o estereótipo romântico, não ajudam em nada ao duro trabalho da obra. É muito frequente que a emoção inicialmente sentida só possa objetivar-se em obra e receber a forma que esta requer uma vez feita a transição para a maturidade. Com efeito, só pode produzir algo quem conhece as regras do ofício desejado, o que acontece na maioria dos casos durante essa idade adulta, quando se adquire as habilidades técnicas e a disciplina requeridas para que a obra adquira perfeição com desejável autonomia, e a arte de produzir música, pintura, edifícios ou textos não consente em humilhar a si próprio e deixar em seu interior espaço para o ato de comunicação imanente à natureza da arte. Contrariamente ao que ocorre pensar, a vocação, que é sim egocêntrica, não nenhum ápice egoísta. Egocêntricas sim, porque o raptado há de cultivar seu eu como ninho onde se incuba demoradamente a obra, roubando tempo e atenção constantemente; mas uma vez assim ensimesmado, não se satisfaz esterilmente no sentimento estético-oceânico de sua existência, mas treinado no cotidiano e na ascética alienação do eu, há de eclipsar-se em favor da obra.

3 O objeto elegido para dar forma a visão determina o tipo de vocação. Se o objeto é uma imagem, é um pintor; se um som, um compositor; se a pedra, um escultor. É literária aquela vocação que elege como objeto a produção de um texto. Da mesma maneira que um pintor percebe um magnetismo na associação de partículas coloridas ou o compositor descobre a necessidade interior de uma concreta sequência de notas musicais, assim o escritor é aquela pessoa que tem desenvolvido um sentido para apreender o campo de forças que geram duas ou mais palavras quando se colocam fechadas e abertas separadamente e juntas diante dele. O escritor em resumidas palavras, não é outra coisa que um junta-palavras e sua arte reside em juntá-las com acerto. Nessa ocasião, Malherbe, cansado da opulência verbal da Plêiade, se autorretratou modestamente como um arranguer de syllabes. Todo literato  ocupa o lugar do Adão que no primeiro dia se pôs a nomear as coisas. A esse dom cantou Juan Ramón Jiménez em seu poema de Eternidades:

¡Intelijencia, dame
el nombre exacto de las cosas!
…Que mi palabra sea
la cosa misma,
creada por mí nuevamente.

O mérito, o poder e a virtude do escritor descansam nas concretas palavras escolhidas e a ordem precisa em que elas são dispostas para que resultem eficazmente em seu desígnio poético. A literalidade encerra a essência do literário e por isso é o autêntico texto de literatura – o poema, o romance, o ensaio – não se deixa resumir, compendiar ou parafrasear.

Desde esta perspectiva, a filosofia é apenas uma espécie dentro do gênero literário. Uma filosofia sem visio e sem missio – sem vocação literária – pode ser a obra de um professor de filosofia, um mestre, um editor, um filólogo, um tradutor, um divulgador, tudo, mesmo em grau eminente, mas não propriamente a de um filósofo. A visão faz nascer neste uma emoção abstrata em direção ao contemplado que bem pode denominar-se eros. Poetizar é celebrar essa emoção com versos, relatos ou representações dramáticas; filosofar é definir essa mesma emoção erótica com conceitos e categorias. Em ambos os casos, “uma certa ideia do todo” desencadeia o processo esmagador. A tarefa do filósofo consiste na dura conversão de eros em conceito e este em palavra e logo em texto sistemático.

Entre os modernos, Max Scheler foi quem de modo mais convincente, em La esencia de la filosofía y la condición moral del conocer filosófico (A essência da filosofia e a condição moral do conhecer filosófico, tradução livre) defendeu sobre como a filosofia se detém sempre sobre uma prévia emoção erótica. Mas, como já disse, já os gregos, que tendiam sempre ao antropomorfismo, personificaram o despertar deste específico desejo amoroso no sequestro das Musas, as quais, escreve Platão em Fedro, “se fazem com uma alma terna e impecável despertando-a e alentando-a aos cantos e a todo tipo de poesia”. Não é casual que para ele, Sócrates em o Fedón compreende a filosofia justamente como a arte das Musas por excelência: megíste mousiké, a chama com orgulho.

4 A seção anteriormente autoriza a selecionar do cânone alguns exemplos de vocação literária sem distinguir entre literatura e filosofia e dando a literatos e filósofos um tratamento indistinto. A visão só tem em ambos os casos o caráter de uma revelação na qual predomina o elemento da luminosidade. Mas às vezes a luz provém de um fogo abrasador e outras de uma chama cálida, gozosa, vivificadora.

Entre as experiências abrasivas destaca-se a de Pascal. Falecido o filósofo, um criado achou no forro de seu sobrecasaco uma tira de pergaminho. Estava datada de 23 de novembro de 1654, “a partir das dez e meia da noite aproximadamente até cerca de meia hora depois da meia noite”. Durante essas duas horas, sobreveio a Pascal uma visão extática que o pergaminho manuscrito trata de verbalizar. O então chamado Memorial começa com a palavra “feu”, o fogo de um Deus bíblico e vivo contraposto ao Deus fossilizado da filosofia e da teologia. Noutro extremo se situaria James Joyce. Durante seu último ano do curso em Belvedere College, entre 1897 e 1898, contando 16 anos, o diretor do colégio lhe sugeriu a possibilidade de ingresso na Companhia da Jesus. Poucos dias depois, teve lugar a cena recriada em Retrato do artista quando jovem, a ruptura definitiva com a Igreja Católica e a afirmação de sua vocação artística precipitada por uma sorte de êxtase inverso: “Sua alma acabava de se levantar da tumba de sua adolescência, apartado de si, suas vestimentas mortuárias. Sim! Sim! Sim! Encarnaria altivamente na liberdade e o poder de sua alma um ser vivo, novo e alado e belo, impalpável, imperecível”. A visão assume em Joyce a figura de uma charmosa garota que ele contempla num porto olhando para o mar, com a saia enrolada e movendo as águas distraidamente com o pé, encarnação daquela “profana perfeição da humanidade” (Yeats). “Deus do céu! – exclamou a alma de Stephen num estalido de pagã alegria”. “Viver, errar, cair, triunfar, voltar e criar a vida com matéria de vida. Um anjo selvagem se lhe havia aparecido, o anjo selvagem de uma juventude mortal”.

Há epifanias que acontecem sentado, outras andando e outras em estado de observação. Entre as primeiras, a de Descartes na noite de 10 a 11 de novembro de 1619, à idade de 23 anos, durante um descanso da Guerra dos 30 anos, nas cercanias do Ulm junto ao Danúbio: “E observando que esta verdade: penso, logo existo, é tão firme e segura que as mais extravagantes suposições dos céticos não são capazes de movê-la, julguei que podia recebê-la, sem escrúpulo, como o primeiro princípio da filosofia que andava buscando”, se referirá anos mais tarde o próprio Descartes em seu Discurso do método. Entre seus papéis póstumos figura uma anotação com data transcendental e este comentário ao seu lado: “...enquanto estava completo de entusiasmo e descobria os fundamentos de uma ciência maravilhosa”.

A visão de Rousseau foi, ao contrário, de deambulações. Uma tarde de 1749 ia visitar seu amigo Diderot que estava preso e então caminhava lendo as bases para um concurso convocado pela Academia de Dijon. Prontamente lhe envolveu, como um relâmpago, o que ele em as Confissões batizou como “a iluminação de Vicennes”. Sua consciência atravessou um momento de lucidez prodigiosa, as ideias se acoplavam a uma velocidade muito superior à sua capacidade de assimilação, mas sua intuição central permanecia: o progresso dos povos exaltado por seu século não existe, porque o homem nasce bom e a civilização o corrompe: aqui se nasce o princípio de toda sua vasta produção posterior.

Por fim, a Proust lhe surpreendeu a visão unitária do ciclo Em busca do tempo perdido na biblioteca do hotel do príncipe de Guermantes enquanto esperava que terminasse um concerto.  Ali lhe ocorreu três ou quatro “ressurreições da memória” como duas lajes desajustadas: o tilintar de uma colher chocando-se contra o prato, a rigidez engomada de um guardanapo ou ruído estridente de um tubo – momentos do presente capazes de evocar recordações do passado ao que a imaginação se interpõe com analogias –, que produziram em Proust a sensação felicíssima de elevar-se a um plano supratemporal, o tempo perdido, e por essa via recuperá-lo e resgatá-lo da morte. Esse foi seu “dia mais belo” – confessa no último tomo de sua obra – aquele “em que nele se alumbravam de pronto não apenas as antigas pontuações de meu pensamento, mas até a finalidade de minha vida e acaso da arte”.


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