Outras peças sobre a morte de Pablo Neruda



Em fevereiro deste ano publicamos aqui uma matéria dando contas de uma investigação conduzida sob determinação do juiz Mario Carroza para saber a real causa da morte de Pablo Neruda há quarenta anos (a ser feitos ainda no próximo dia 23 de setembro). Suspeita-se que o escritor não tenha morrido vítima de um câncer de próstata, mas sim, vitimado por um atentado do governo militar de Augusto Pinochet.

A primeira parte do laudo feita confirmou a primeira e até então versão oficial do caso. Mas, uma segunda perícia está sendo realizada a título de justificar ou não a constatação. Enquanto outras novidades mais concretas não aparecem, multiplicam-se os burburinhos em torno desse desfecho revelando-se, antes de tudo, num caso aparentemente complexo, cheio de peças soltas e necessárias de melhores esclarecimentos.

Uma personagem aparentemente sem a menor importância no caso ganha agora importância – ou menos constitui alguma peça – na investigação. Trata-se de Alicia Urrutia, a sobrinha de Matilde (histórica esposa do poeta), que no alto dos seus 88 anos rompeu o silêncio que havia prometido a pedido do juiz Carroza. Há alguns anos, Inés María Cardone relatou a história de amor (e armadilha) envolvendo o velho Neruda e a jovem. Alicia, que ao fim dos anos 60 com sua filha Rosario e sem nenhum marido à vista foi acolhida por sua tia e o marido famoso na casa de Isla Negra. Segundo relata Cardone em Los amores de Neruda, Matilde considerava Alicia como uma empregada e, para pior, a maltratava. Dizem que o velho se envolveu com ela, primeiro por compaixão e depois por amor. Até que Matilde um dia pegou os dois na sua própria cama.

O biógrafo do poeta Hernán Loyola já havia contado a mesma história e contribuído para o debate ao dizer que a jovem fora, sim, a musa do poeta para a composição de A espada incendiada (1970) e A rosa separada (1972). Mas Alicia, com códigos e um novo marido em sua casa em Arica, nunca falou sobre o caso; até agora. Primeiro teve o gesto diante da equipe de investigação e pouco depois contou para o juiz. Sempre esteve acompanhada pela vilha. Um perito que estava presente contou que nem a polícia fez questão em perguntar a senhora se ela e o poeta eram amantes. Limitaram-se apenas a pedir-lhe: “Por favor, relate seus encontros.” Alicia não foi explícita, mas também não se fez de sonsa e nem se esquivou do caso. “Não recordo a data exata, mas uma vez em que regressei ao Chile, dias depois, me encontrei com ele na cidade de Val Paraíso no Hotel Miramar, numa oportunidade em que o acompanhei ao hospital da dita cidade, onde estava fazendo um tratamento para sua doença”.

A declaração oficializa a natureza da relação entre o poeta e sua sobrinha política, a não ser que tenham se encontrado num hotel às escondidas do mundo para conversar e jogar cartas. Manuel Araya, chofer pessoal de Neruda, do qual partiram as suspeitas para esta investigação, quis desvincular Alicia do centro da cena, mas sem querer a colocou de volta na intriga: “creio que devemos deixar tranquila a senhora Alicia para não ocasionar-lhe problemas com seu atual marido em Arica”, disse.

Matilde e Pablo Neruda. Sobrinho do escritor desmente a versão santificada de Matilde.
Outro elemento a saltar, muito antes dessa história, é sobre a real figura de Matilde. A mulher que ganhou o inconsciente coletivo latino-americano como o grande amor do escritor não teria sido nada de militante fervorosa contra o regime de Pinochet. Rodolfo Reyes, sobrinho de Neruda, não guarda a menor recordação sobre sua tia na política: “Matilde era de um caráter muito complicado, sempre quis retirar o tio da família e de muitos outros.”

Neruda que foi um amante empedernido, teve, segundo Reys, uma argentina – Delia del Carril, apelidada de la hormiguita. “Tinha bagagem cultural muito superior a de Matilde: era afável, boa tia, permissiva com os sobrinhos porque nós éramos crianças, mas lamentavelmente ela era 20 anos mais velha que Neruda e a diferença de idade foi crescendo”. Conta que quando se envolveu com ele, Neruda chegou a levá-la para ajudar a Matilde com as tarefas domésticas, “mas parece que pecou em fazer isso”.

A antipatia familiar está também associada a outros motivos. A ex-mulher, que tinha todas as casas em seu nome, herdou 75% dos direitos de Neruda e para Reys ela traiu os desejos do escritor com a criação – ordenada em seu testamento – da Fundação Internacional que leva seu nome. “A vontade de Neruda era o Projeto Cantalao. Queria que fosse uma universidade para os filhos dos trabalhadores, os artistas e escritores do Chile”, diz.

Brigas à parte, o fato é que a ossada do escritor periga não voltar mais para Isla Negra só para não dividir espaço com Matilde que também foi enterrada por lá. “Matilde Urrutia está enterrada em Ilha Negra, na casa que era de Pablo Neruda – e hoje é propriedade da fundação – mas só a família de Pablo pode decidir onde deve levá-lo” – disse sem necessidade de esclarecer, mas com a ameaça de separar os corpos do casal. O que mais desperta nojo em Reyes é a fundação cobrar para que vejam o túmulo de Neruda, invenção da família Urrutia.

Resta saber em que lugar chegará essa trama chilena, mas com pitadas fortes de drama mexicano. Quanto ao depoimento de Alicia, os que apostam na morte por assassinato dizem que a fala dela não muda nada, apenas reforça que a enfermidade de Neruda não estava mesmo tão avançada, já que ainda não o impedia de dar corda aos baixos instintos. 

a partir de informações do Jornal El Clarín

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