A poesia completa, de Lúcio Cardoso

Por Pedro Fernandes



Antes da entrada deste texto – ou estando à entrada dele – permita alguns esclarecimentos para que no andamento da leitura integral do que se segue não surjam dúvidas escabrosas. O primeiro deles diz respeito ao título: não é a força da obra poética integral de Lúcio o tema, mas uma pequena e mínima parte que tive contato a partir da antologia Poesia Completa organizada muito recentemente por Ésio Macedo Ribeiro enquanto eu preparava a 7ª edição do caderno-revista 7faces. Entende-se, logo, que o título está em diálogo com o título dessa coletânea. Depois, o que aqui digo são impressões que reúnem num mesmo lugar o que me serviu para a escrita de outro texto, o editorial para a referida revista publicada em agosto deste ano, texto que traçava algumas linhas com bastante grau de reservas sobre o fazer poético tomando como escopo a pequena e mínima parte da obra de Lúcio sobre a qual me referi acima. Somam-se a elas outras, as que eu não fiz proveito no editorial dado a extensão necessária para um texto do gênero. Quero com isso dizer que este texto deve ser tomado como um conjunto situado entre a provisoriedade e a impressão, que pode tanto e logo passar ao limbo da atenção.

É preciso dizer que não foi surpresa quando encontrei com a antologia de Lúcio Cardoso; quer dizer, não demonstrei surpresa em saber que a obra do escritor de Crônica da casa assassinada havia se espraiado pelo gênero poético. Grande parte dos escritores, mesmo aqueles que se dedicaram mais à prosa, têm feito isso e além do mais, antes, quando redigi algumas notas sobre Lúcio para este blog dei com essa face menos conhecida de sua obra. Mas surpresa a veio ao saber que essa incursão pela seara do verso tinha sido de maneira tão avantajada e com alguns pontos que, na minha impressão de leitor, consideraria logo o escritor alojado num lugar alto da cena literária brasileira. Estou me referindo a quando tive contato com o catatau de mais de mil páginas de poesia cuidadosamente organizada por Ésio Macedo Ribeiro.

Não apenas a quantidade, mas a qualidade de alguns dos poemas coloca Lúcio nessa outra posição. E se no plano da prosa sua obra de relevo seja apenas a Crônica (julgamento que pode sofrer mudanças uma vez que só tive contato com esta e umas duas outras novelas do escritor), o simples fato de ter no currículo bibliográfico “alguns pontos altos de poesia” é suficiente para dizer que Cardoso foi sim um homem de letras, mas foi, sobretudo, um poeta. A conclusão não será precipitada: já sua prosa demonstra sérias contaminações pelos laivos da poesia, uma vez o escritor ter sido um pioneiro na tentativa de elaboração de um romance de fluxo de consciência, lugar alcançado mais tarde com a prosa de Clarice Lispector e não há, a meu ver, lugar de expressão poética mais significativa que aí; claro, levando-se em consideração o caráter subjetivo que se denota do texto lírico.

Mesmo não estando diretamente ligado aos grupinhos literários de seu tempo, principalmente os dos "modernistas ortodoxos", Lúcio soube fazer de algumas das ideias então disseminadas e levadas à expressão no fazer literário de alguns nomes, um lugar de labor estético. Esteve refém da sensibilidade inerente a todo artista que valha o título e soube transformar isso em forma literária: “Dentro de mim, sombra – mas fria e calma. Fora, sombra onde cumpro os gestos que todos sabem. O que aprendemos, é como nos ocultar de um modo banal, como toda gente mais ou menos se oculta. O que ocultamos, é o que mais importa, é o que somos. Os loucos, são os que não ocultam mais nada – e em vez dos gestos aprendidos, traduzem no mundo exterior os signos do mundo secreto que os conduz.”

Como esse lugar de inquietação demonstrado numa de suas entradas para um dos seus diários, a obra poética de Lúcio é síntese de uma geração inquieta. Sua poesia revela a melancolia de um mundo íntimo, isolado e em decadência. Está no limite do transcendente, do metafísico, do imaginário. José Paulo Paes, por ocasião de uma edição de poemas inéditos de Lúcio editada em 1982 situa o poeta entre dois expoentes da literatura moderna portuguesa, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Como o primeiro poeta, ele se viu seduzido pela ideia do fingimento, esconder-se para revelar-se; como o segundo, Cardoso tratou sobre dois temas caros a sua poesia, o amor interdito e a loucura.

A relação de Paes me faz lembrar, antes de fazer detalhar melhor essa aproximação entre os do modernismo português, aquele sentimento que definia uma das bases do movimento em Portugal e que de certa maneira versa sobre o espírito do tempo. Do grupo de Presença, que teve em linha nomes do porte de António Botto, defende-se a ideia de que o homem de letras deve ser o espírito de sua obra; não faz sentido que uma obra já nasça morta ou que nasça de um cruzamento artificial do autor com sua língua. “Em arte, é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mas verdadeira e mais íntima duma personalidade artística. A primeira obra viva é pois ter uma personalidade e obedecer-lhe.”

O que terá feito Lúcio Cardoso com sua poesia se não isso? Para o prefácio ao caderno-revista 7faces eu dizia que “não é poeta aquele que não tem seus pares; e os pares hão de ser, inevitavelmente, aqueles que mais lhe oprime pela angústia de não alcançá-los. Aqueles que singularmente produziram uma revolução só comparada à força destrutiva de uma grande fúria natural. Que os pares são deuses e estão para ser destronados tão logo o aspirante poeta consiga perceber em sua estrutura uma pequena infiltração pela qual possam se por e reiniciar em silêncio, no rumorejar lento da tessitura do verso, aquela grande fúria de outros tempos.” Essa imaginação gestual de construção de uma identidade poética nasce do contato com a poesia de Lúcio; pares, certamente os teve, e certamente buscou alcançá-los não pela via do blefe e da mímesis cópia, mas pela via da mímesis criação, o sentido, então, mais puro desenhado ainda por Aristóteles nos conceitos clássicos de sua Poética.  



No caso de Lúcio Cardoso é possível admitir pela extensa vivência com palavra o caráter do poeta contemporâneo, ainda que ele esteja em igualdade com muitos nomes de seu tempo dito modernista, mas a meu ver ele é melhor que muitos de seu tempo por não permitir que o poema seja profanado como um espaço para o experimentalismo gratuito a ponto de por em risco as potencialidades do gênero. A meu ver Lúcio buscou revestir o poema da natureza mais humilde da palavra sem que para isso tenha transformado o poema num muro de lamentações gratuitas – o gesto do fingimento pessoano não o permite uma profanação do gênero, que o gesto do fingimento é uma possibilidade de dizer as coisas comuns envelopadas pelo véu do imaginado, como se o poeta quisesse dizer sem querer dizer. Também não fez do poema aquele objeto obsedado do escurecimento que nem o próprio poeta mais tarde tem consciência em dizer o que disse, jogando o texto para uma estratosfera onde só os mais afortunados ou dotados da plenitude da loucura possam dizer do poema. Conseguiu está equilibrado entre a razão de ser do poema e o refinamento nobre necessário, sem dicção aluarada.

A capacidade de aproximação entre os dois primeiros e principais nomes do modernismo português pode ser traduzida também por esse gesto de depuração linguística, mas pode ser vista ainda pelo cuidado que teve o poeta em conciliar os sinais do mundo exterior com o seu interior, notabilizando-se como o que foi capaz de absorver o burburinho à sua volta e transformar isso num tecido de imagens e de visões que, no fim, é uma dicção muito própria.

Agora, o trabalho de Ésio nesse território merece reconhecimento não apenas porque coloca uma parte significativa da obra de Lúcio ao alcance dos leitores, mas porque oferece aos mais astutos, os que têm ainda algum interesse no trabalho investigativo da obra de um escritor, novas possibilidades de pesquisa, algumas insinuadas pelo próprio organizador da antologia nos textos de suporte ou mesmo nas notas de rodapé que vão, minuciosamente, desenhando um contexto para a obra. Ou ainda permite leituras como esta que agora concluo: situadas entre uma visão até generalizante sobre o comportamento poético de uma época e a leitura esparsa de alguns poemas. Estou dizendo que o trabalho acurado de Ésio não se finda ao lugar acadêmico, mas tem sua contribuição ao leitor comum (certo que cada vez mais raro) de poesia. Trata-se de um trabalho ainda que coloca o poeta no seu lugar devido, carecendo somente do reconhecimento necessário, afinal, como terá escrito o próprio Lúcio “Não se ama os poetas. O que se ama é a obra deixada para especulação literária.”

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