sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A viagem, de Andy Wachowski, Lana Wachowski, Tom Tykwer

Por Pedro Fernandes




Já foi dito por muitos romancistas que seus livros não teriam vez se fugisse das páginas para as telas. José Saramago foi um dos que ainda em vida relutou, depois do fiasco alemão para A jangada de pedra, em deixar que alguém metesse a mão em algum outro livro seu e o adaptasse para o cinema. Até que o diretor brasileiro Fernando Meirelles o convenceu do contrário e, em definitivo, conseguiu arrancar lágrimas do Prêmio Nobel de Literatura, quando viu, pela primeira vez, o produto de Ensaio sobre a cegueira transmutado em Blindness. Depois disso, já se adapta, ainda para fins deste 2013, O homem duplicado e o diretor português Miguel Gonçalves Mendes já sinalizou querer filmar O evangelho segundo Jesus Cristo. No caso de Saramago, era sim receio. Apesar de não ser nenhum diretor de cinema, mas acho seus livros plenamente imagéticos; até essa forma de organização de diálogo no romance e a relação entre as vozes de narrador e personagem já têm um pique cinematográfico. O caso complexo é fazer valer o plano da alegoria para as telas, mas se isso não ocorre, como não ocorreu em Blindness, para quê existe o romance, não é mesmo? Além do mais, por mais fiel que seja, são, disso pouca gente tem dúvidas, obras distintas.

Mas, alguns diretores querem mesmo dá cara à tapa. Afinal, para que mesmo servem, senão para lidar com experimentos de linguagem? Já outros filmaram coisas mais difíceis, como o romance do Don DeLillo que comentamos há pouco por aqui, o Cosmópolis. Ou adaptar Ulisses, de James Joyce – não tanto pelo enredo, mas pelo trâmite psicológico do romance... Enfim, mas foram filmados. Os dois exemplos mostrados são extremistas porque um deu supercerto, já o outro... Agora, com a chegada de A viagem, versão para Cloud Atlas, filme homônimo do livro do britânico David Mitchell, o debate em torno do que possível ser filmado ou não volta ao centro das conversas. Isso porque, mesmo depois da empreitada dos irmãos Wachowski, há ainda quem diga que o livro de Mitchell é impossível de ser levado às telas. Talvez pela experiência com a trilogia Matrix que revolucionou o jeito contemporâneo de fazer filmes, novamente, os Wachowski acharam poder desafiar a sétima arte e, sim, para eles, Cloud Atlas é filmável. Para eles e para Tom Tykwer, diretor de títulos bem conceituados como Corra, Lola, corra.

Cá desconheço o livro do escritor britânico, mas pelo que li sobre, a complexidade do enredo no filme é superior ao que está no papel; isto porque, ao invés de as seis histórias aí apresentadas serem narradas em simultâneo elas são narradas em separado como se contos independentes. Também as histórias em Cloud Atlas livro são narradas de forma cronológica e descendente, isto é, do futuro para o passado, totalizando, no final, ao invés de uma linearidade, algo como um círculo, enquanto em Cloud Atlas filme as histórias se passam em simultâneo e o efeito de circularidade é preservado. Observando, no filme, estamos diante do fim de uma civilização e o princípio de outra, sendo que a do futuro, volta ao passado de si própria para evitar o seu fim. Pelos recursos da imagem e a estratégia adotada pelos cineastas é óbvio que a leitura do filme é mais simples e dada ao alcance até dos mais incultos. As tramas são bem encaixadas e o telespectador logo consegue fazer as ligações de quem é quem nas seis situações desenvolvidas, trabalho mental que na leitura deve ser buscado fazer pelo leitor. E talvez não deva exigir tanto do leitor pela independência das histórias; efeito complexo, sim, é o conseguido por romancistas como Lobo Antunes que interpõe às vezes num mesmo parágrafo três situações distintas e ai de você se não consegue acompanhá-lo.

A viagem não chega nem a causar confusão nos telespectadores e talvez, por isso, que eu afirme com tanta convicção de que o livro do Mitchell não exija lá essas coisas quem o lê. Ganha melhor desenvolvimento na trama cinematográfica a história ambientada nos anos 1970, nos Estados Unidos, na época dos grandes projetos nucleares – e é este o tema central dessa narrativa – e a ambientada no século XXII – em que os humanos repetem o mesmo gesto cíclico da escravidão de uma minoria sobre uma maioria, efeito muito próximo do praticado no período escravocrata de braços sobre negros, outro ponto de uma terceira história aí narrada. As outras três histórias são: a da luta pela sobrevivência num ambiente de hostilidade de início de civilização, a história presente, narrada e vivida pelo próprio narrador que está dando forma à trama completa e a história ambientada nos anos de 1900, em que estão em cena um amor gay entre dois rapazes numa época em que as relações entre os do mesmo sexo eram qualificadas como crime.

Antes de todo esse papo de reencarnação que andei lendo em alguns materiais na web creio que A viagem seja um filme que nada tenha disso, não no sentido que as pessoas têm atribuído. Existe um elo que une os momentos tratados e as pessoas neles envolvidas, mas que não se firma por um ato espiritual ou carnal. É um elo histórico. As pessoas de cada período da história da humanidade estão interligadas pelos mesmas razões: notem que o que mais buscam todos é a liberdade – isso é o elemento comum que ao longo da existência temos encarnados em nós. Também o filme é o entendimento de que a história da humanidade tem um pouco de circularidade, embora seja isto uma ilusão. Cada história, apesar de ligada uma a outra tem sua própria razão de ser e os fatos apesar de próximos são diferentes e únicos. Fato é que o homem está numa redoma onde parece repetir incessantemente, até mesmo numa geração fora do planeta os mesmos erros de sempre, o de querer imprimir sobre outro a visão unicista da realidade – quem diz isso, senão o Avatar, de James Cameron? Vejo, o filme como uma distopia. Os que lutam por reverter o quadro de opressão em que vivem atravessam as gerações através dos seus gestos, sobretudo dos gestos da arte, a única que parece invicta nesse lance todo (note, a música, a literatura, a escultura etc. são uma constante em várias etapas das histórias narradas). Ainda que pareçam tais gestos uma inutilidade terão servido para acrescentar um pequeno rabisco na história das possibilidades, aquela que, no fim, une as duas pontas o limite e princípio da civilização.