segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A Pilar, que não o deixou morrer

Por Rafael Kafka

José e Pilar. Foto (detalhe) de Sebastião Salgado.

Na última sexta-feira do mês de agosto de 2013, mais precisamente no dia 30, houve em Belém um evento de considerável importância para a literatura mundial:o lançamento de dois livros inéditos de José Saramago, traduzidos para o idioma português e publicados pela Editora da Universidade Federal do Pará (EDUFPA), com total aval Pilar del Rio, companheira do escritor presidenta da fundação que leva seu nome.  Os livros em questão são Da Estátua à Pedra e Democracia e Universidade (livros sobre os quais é possível saber mais aqui, no texto de Pedro Fernandes). O evento ocorreu no Centro de Eventos Benedito Nunes, um belo auditório que fica na rua principal da cidade universitária do imenso campus da universidade na capital paraense.

A tarde era chuvosa e a tempestade caída alguns minutos antes fizera até mesmo a energia faltar em todo o local, o que me deixou preocupado. Imaginei logo os riscos para a palestra a ser ministrada por ocasião dos lançamentos dos livros; contudo, a organização pareceu se precaver e os geradores do auditório funcionaram muito bem.

O evento estava programado para as seis e meia. Antes dele, houve a exibição do documentário de Miguel Gonçalves Mendes que narra a vida conjunta de José e Pilar (também pode ler mais a respeito aqui); esse é um documentário que ainda não tive a chance de ver integralmente. As cenas vistas por mim nesse evento revelaram ainda mais a sublime poesia que emanava da singeleza de Saramago e sua vida pessoal. A mesma singeleza estava no discurso de Pilar. Mas, estamos pulando partes, eu creio.

Como eu disse, antes do evento houve a exibição do documentário sobre o amor de Saramago. Ao lado, uma imensa fila de fãs se reunia com seus cartões de crédito, débito ou dinheiro contado para adquirir os dois livros. Mesmo sem a lotação completa por conta do clima frio e dos contratempos, além de tudo a universidade está em período de recesso, o público que compareceu ao centro de eventos foi muito bom. Víamos pessoas das mais variadas faixas etárias: jovens, adultos, pessoas mais idosas; mestres, graduados, doutores, estudantes de Letras, Filosofia etc. Cada ser presente ali mostrava, ao menos para mim, o tamanho imenso do alcance da poesia da obra de José: uma obra humana, demasiadamente humana, como pude inferir das leituras feitas por mim e do discurso feito por Pilar. Mas eu sinto de novo que estou a pular partes.

Pilar mostrou-se incansável desde que entrou em meu raio de visão. Lá fora ocorria o burburinho da compra dos livros e da exibição do documentário, enquanto ela, dentro de uma sala reservada, falava com alguns jornalistas. Não sei sobre o que conversaram, porém por alguns momentos eu desejei ter o status necessário para sentar com uma lenda e falar com ela de igual para igual. Um dia quem sabe?

O evento começou com um atraso de dez minutos. Ao menos eu pus isso em minha agenda. Tudo foi muito protocolar, com discursos sérios falando sobre a honra de ter duas obras inéditas de Saramago editadas por uma editora do norte do país. Afinal, todos sabemos do quase total monopólio tido pela Companhia das Letras no concernente as obras do Nobel de 1998. O discurso de Simone Neno, diretora da EDUFPA, tratou justamente de expor como todos ali estavam honrados por conta desse projeto audacioso de mostrar um Saramago mais ensaísta. Houve um belo relato das conversas tidas com Pilar, ainda em Portugal, sobre o projeto de lançamento das duas obras.

Após Simone se expressar, Horácio Schneider, vice-reitor da UFPA (reitor em exercício devido a uma viagem do reitor Maneschi) expôs a sua leitura crítica da obra de José Saramago, citando como preferências pessoais os títulos Intermitências da Morte (há um texto do James Wood reproduzido aqui) e Ensaio Sobre a Lucidez (há uma resenha aqui). Em seu discurso, vemos já a reiteração da presença fortemente humana das personagens saramaguianas, além da imensa gama de temas abordados em seus romances. Um discurso belo, mas ainda longe do que todos, ao menos eu julgava assim, consideravam à altura de José.

A obra de Saramago é viva demais, intensa demais. Uma obra que fala de coisas comuns a todos, porém com um olhar arguto, profundo, irônico e sempre crítico. Uma obra que fala das coisas como elas foram captadas e filtradas pelo olhar do escritor: um olhar vivo, questionador, amante da vida e dos seres humanos comuns, heroicos por serem existentes. Por tudo isso, por esses efeitos simples que geram o complexo, poucas pessoas são capazes de falar sobre Saramago de um modo que me convença. O motivo é que escritores como ele não são ferramentas academicistas, por maior que seja frequência com a qual seus romances hoje são abordados em artigos, TCCs, etc. Para falar de Saramago deve-se ser desassossegado: deve-se ler para ver a leitura como um jogo de viver, para se ver o objeto lido discutindo conosco e com nossa percepção de mundo. Naquele momento, então, apenas Pilar poderia falar de José como lhe era merecido, pois ela viu o desassossego em pessoa enquanto livros como A viagem do elefante eram produzidos. E ela, com uma leveza doce e amável, teve a capacidade de falar com vida da obra de seu grande amor.

Ainda tentaram colocá-la em um protocolo: um discurso seu traduzido para o português para ser lido. Todavia, o que vimos foi Pilar em diversos momentos parar a leitura e tecer algum comentário mais solto, mais seu, sobre a vida e a obra de José. Vale ressaltar a presença sempre constante de um imenso bom humor em sua postura, o que colabora para lhe dar uma aparência sempre jovial.

Em seu discurso, ela ressaltou o modo pobre como Saramago cresceu e a imensa gama de trabalhos os quais ele teve até poder finalmente se dedicar à literatura exclusivamente. Devido a condições de vida bem simples, Saramago desde jovem, sempre se escondeu em bibliotecas para absorver o conhecimento o qual a universidade não poderia lhe dar. Podemos avaliar o porquê de seus livros terem uma sabedoria concreta: eles falam das coisas de modo vivo, não teorizando, e por isso têm uma força pungente.

Há um destaque especial para Claraboia em suas palavras, mesmo este sendo um romance pouco conhecido do autor e que ficou guardado durante anos, além de um foco muito pertinente na atuação política de José Saramago, como nas lutas contra a ditadura de Salazar.

Por todos esses fatos, as obras de José valorizam o homem comum, anônimo, aquele que se debruça sobre si mesmo e vivencia os mais profundos conflitos. Para Saramago, como bem disse Pilar, o homem é o bem mais importante desta existência e é o ser humano quem terá a principal força na obra do grande autor português.

Creio que me senti tocado pelas palavras de Pilar, pois a imagem da obra saramaguiana a qual ela passou ao público é a mesma que eu possuo. Mas, o que mais me admirei foi de seu jeito simples, firme, simpático, doce; o jeito de uma pessoa reconhecedora de sua missão, de suas limitações e de seu brilho e graça.

Ao final de sua palestra ainda houve um número musical o qual, acredito, todos esperaram de forma ansiosa para que logo acabasse. Sabíamos que no final haveria uma sessão de autógrafos e queríamos muito um registro, por menor que fosse, da marca pessoal de Pilar del Río. Para isso, encaramos uma espera longa: mais de duas horas até chegar a sua frente e receber o autógrafo. Uma espera que era paralela a pensamentos bem absurdos: o que dizer a ela? Pedir um abraço? Uma foto? Trocar palavras sobre o clima e a literatura?

Era loucura... Eu teria pouco mais de um minuto, com sorte, para fazer tanta coisa. No final, quando cheguei perto dela, desperdicei metade desse tempo em um mutismo nervoso. Só depois criei coragem e perguntei se ela estava gostando de nossa cidade, pergunta a qual ela respondeu com um empolgado “sim”. Depois eu elogiei sua inteligência, citando uma resposta dela ao repórter do programa televisivo CQC, Oscar Filho, em uma entrevista dado na ocasião do lançamento de A viagem do elefante no Brasil. O comentário a fez sorrir.

Meus autógrafos foram dados e meu tempo acabou. Meus amigos que estavam comigo e eu fomos embora. Quase onze horas da noite. Cansados e satisfeitos. Afinal, estivéramos até instantes antes com uma das mulheres mais fabulosas de nosso tempo. Uma mulher cujo jeito repleto de uma singeleza bem humorada me passa a certeza de quem sabe que não sabe tudo, mas sempre amante do conhecimento e das palavras. Uma pessoa tão apaixonada por seu ser amado que não o deixa morrer, como todo leitor apaixonado pelo querido José que há três anos nos deixou.

Saí dali com uma certeza consoladora: não tive a chance de conhecer Simone de Beauvoir, outra grande feminista parte integrante de um célebre casal da literatura, dona de uma força e uma beleza ímpares. Contudo, tive a chance de apertar a mão de Pilar del Río, uma mulher extremamente humana, como seu antigo amor e suas personagens tão representativas desse ser mágico que vaga poeticamente pelo mundo: o ser humano.


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Rafael Kafka é colunista no Letras in.verso e re.verso. Aqui, ele transita entre a crônica (nova coluna do blog) e a resenha crítica. Seu nome é na verdade o pseudônimo de Paulo Rafael Bezerra Cardoso, que escolheu um belo dia se dar um apelido que ganharia uma dimensão significativa em sua vida muito grande, devido à influência do mito literário dono de obras como A Metamorfose. Rafael é escritor desde os 17 anos  (atualmente está na casa dos 24) e sempre escreveu poemas e contos, começando a explorar o universo das crônicas e resenhas em tom de crônicas desde 2011. O seu sonho é escrever um romance, porém ainda se sente cru demais para tanto. Trabalha em Belém, sua cidade natal, como professor de inglês e português, além de atuar como jornalista cultural e revisor de textos. É formado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará em Letras com habilitação em Língua Portuguesa e começará em setembro a habilitação em Língua Inglesa pela Universidade Federal do Pará. Chama a si mesmo de um espírito vagabundo que ama trabalhar, paradoxo que se explica pela imensa paixão por aquilo que faz, mas também pelo grande amor pelas horas livres nas quais escreve, lê, joga, visita os amigos ou troca ideias sobre essa coisa chamada vida.