terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Madrugada suja, de Miguel Sousa Tavares

 Por Pedro Fernandes


Pela leva de títulos editados no Brasil e pela recepção grandiosa de sua obra – há títulos incluídos no rol dos mais vendidos – o escritor português Miguel de Sousa Tavares é o tipo de figura que dispensa apresentações mais bem elaboradas. Antes de Madrugada suja, que é seu último trabalho editado por aqui, a Companhia das Letras já colocou em mãos dos brasileiros pelo menos outros cinco títulos: Equador, o mais conhecido de todos, motivo de seriado para TV e seriado também exibido por aqui, Rio das flores, No teu deserto, além dos infantis Ismael e Chopin e O segredo do rio.

Madrugada suja está longe de ser um texto capaz de incutir alguma revolução estética no interior do campo da linguagem e desconfio que o interesse de Miguel Sousa tenha aí seu lugar; tenho mesmo a sensação que o que prevalece na obra do escritor português é sua capacidade de inventar histórias, constituindo-se, portanto, na escassa figura de um sujeito fabulador, livre do desejo de fazer da língua artifício para a fabricação de uma obra igualmente artificiosa. Há pecado nisso, é verdade. Nesta arte de narrar, nem tudo são fabulações. Mas, nada que o condene. Miguel Sousa filia-se a uma corrente de importantes novelistas portugueses, a citar Camilo Castelo Branco ou Almeida Garrett, igualmente acusados de escritores fáceis ou com a cara enfiada demais no comércio da escrita, mas os dois têm sobrevivido ao tempo e logo às acusações pela capacidade que os une, a de serem fabuladores. Talvez seja fácil acusá-los de tudo, mas não como narradores pobres na capacidade de elaboração da trama verbal. Os que tiverem lido uma obra de cada um dos nomes antes enumerado compreenderão o que estou a dizer.

E, do ponto de vista da trama, Madrugada suja é uma novela muito bem construída; embora o fechamento de determinadas situações elaboradas pelo escritor soem um tanto previsíveis, não se pode dizer que seu enredo apresenta falhas no sentido de andamento do tempo da ação, fechada esta numa rapidez insegura ou mesmo ficando a desejar explicações da parte do leitor. Os passos da narrativa são, diria, friamente calculados e cada situação se dá no tempo devido de maturação, não tolhendo o leitor com prolongamentos desnecessários e nem fazendo com que o previsível destrua a sua curiosidade pelo desfecho. A facilitação da narrativa é, portanto, um tanto aparente, já que o novelista se ensaia numa construção multíplice, querendo alcançar, por exemplo, a desenvoltura criativa de um José Cardoso Pires, mesmo estando os dois nomes situados em pontas diferentes da linha criativa.

Com forte tom cinematográfico, Madrugada suja abre com uma cena que classificaríamos como a principal ou mote para o desenvolvimento de toda a trama; espécie de pulmão, onde todas as outras partes da narrativa estarão sempre a ela retornando para tomar fôlego, respirar e garantir assim a existência da própria novela: quatro estudantes menores de idade, no alto de uma tradicional festa comum às cidades universitárias em Portugal – como no Porto, Coimbra, ou Évora, onde estes jovens vivem – a Festa da Queima de Fitas, se envolvem numa pesada brincadeira regada a álcool e sexo a ponto de cometerem, pelo excesso, um abuso aos limites do corpo, e levarem à única menina integrante do grupo a uma situação trágica.

Quase desconhecidos entre si – apenas um do grupo é conhecido de vistas do outro – esse acontecimento, mesmo à distância, será o responsável para, no futuro que é o presente, tempo em que está situada a narrativa, recolocar estas pessoas em contato, numa clara elaboração de que o passado não dorme e, seja fruto do destino ou não, ele pode retornar para refazer determinados rumos de nossas vidas; aliás, todos nessa novela estarão sujeitos a esse ir e vir do tempo, mesmo aqueles a quem o leitor julga está um tanto distante dos fatos ocorridos na madrugada de Évora.

Os envolvidos neste episódio-chave do livro são Zé Maria, João Diogo, Filipe e Eva. Dado o ocorrido, o narrador privilegia acompanhar a vida do último dos homens, constituindo-o, destarte, no protagonista da trama. Filipe é rapaz humilde, que é levado pelo acaso para a cena da tragédia, e é, certamente, o que tem o melhor plano de vista para se olhar para os acontecimentos. Não apenas pela sua condição, quase sempre a de espectador, como pela sua formação: filho de um vilarejo em vias de se findar, Medronhais da Serra; filho suposto de um pai com forte ascendência marxista, que depois da morte da mulher vai para uma área de assentamento rural inaugurada no Alentejo depois do fim da Revolução de 1974; órfão, criado pelos avós, os últimos habitantes do vilarejo onde nasceu e viveu até ir para Évora.

Se Filipe não é um herói problemático, apesar de reunir todas as condições para sê-lo, as situações em que se vê envolvidos – sua própria condição – são suficientes para merecer a atenção da narrativa. Tanto que, o narrador em terceira pessoa deixará a voz para ele, quem narra parte dos acontecimentos; mas não se finda aí, noutra situação, tem lugar, por exemplo, a voz do avô de Filipe, a voz de Eva, a voz da avó de Filipe e de seu suposto pai constituindo-se, dessa maneira, numa estratégia narrativa de dar melhor veracidade aos fatos narrados.

Entre o passado sombrio em Évora e o presente da narração, Miguel Sousa percorre a partir das vidas pessoais da família de Filipe, sua constituição e seu esfacelamento, parte significativa da história portuguesa: o período do regime salazarista e seu fim, a guerra colonial em África para onde é mandado o suposto pai do protagonista, a estadia dos camponeses nas Unidades Coletivas de Produção, o nascimento da democracia e da boa vida dos portugueses construída entre a mentira do progresso e os jogos fajutos de corrupção financeira a demonstrar o seu desmoronamento logo adiante etc. Compõe-se assim uma neutralidade como posição do narrador, nem se colocando um defensor das coletividades socialistas e nem das individualidades capitalistas – uma não se sustenta como modelo porque é excessivamente democrática e disfarçada de democracia tem fortes laivos individuais, a outra é excessivamente individualista e o que prevalece são os interesses escusos, assumindo o coletivo mero fantoche na intricada rede de favores financeiros.

Quando se detém nos tempos em que o suposto pai de Filipe está na UCP, Miguel Sousa, por exemplo, dá vez a voz do caseiro (que está naquele lugar antes de se tornar uma área de reforma agrária e portanto é quem não se deixou tomar  pelo apelo socialista do movimento e tem pela sua situação um compósito de imagens que está entre o tempo de latifúndio e o tempo atual da reforma) como forma de observar determinados detalhes que nem o de uma situação histórica nem de outra seriam capazes de observar. Nesse caso, busca o escritor uma síntese entre o lugar do oprimido e o do opressor como se partir dela fosse possível oferecer uma imagem mais completa da situação histórica a que remete. No mesmo caso, para o tempo presente, quando Filipe, numa espécie de salvador pátria, intervém ora no seu passado a fim de esclarecer o que se deu na madrugada de Évora ora intervém na própria conjuntura política que está em formação em Portugal.

Na montagem do enredo, Miguel Sousa propõe duas partes que vindo uma após outra muito poderia vir uma sobre a outra, como se a primeira fosse um recorte mimético ou espelhar da segunda: “Aldeia” marcado os capítulos entre as zonas da madrugada e da noite e “Mundo” cujas divisórias seguem entre o tempo da noite e do amanhecer. Alude-se uma transformação da aldeia em mundo, seja pela decadência de Medronhais e da zona rural e o pungente tempo de crescimento econômico e da zona urbana de Portugal; e o desfazer das obscuras regiões da vida do protagonista e seu esclarecimento com um desfecho ao modo de um ...e todos foram felizes para sempre de contos de fadas.   

Como uma novela em que os acontecimentos se dão um após outro numa tentativa de iluminação de si próprios e do fato central (este último mais para os envolvidos no acontecido do que para o leitor que está sempre a par de tudo), é pertinente observar que o escritor não  se deixa perder apenas pelas ações, mas invoca quase que a todo tempo o pormenor, aquilo que se esconde do olhar corriqueiro, mas que é decisivo na consolidação de determinadas nuances da história. Nesse sentido, é promissora a aberta crítica ao poder desenfreado do capital que, em nome do bem estar social e do novo modelo que tem sido vendido à banca rota com o título de sustentabilidade, promove pelas vias mais sórdidas, o interesse de uma minoria interessada em cada vez mais aumentar seu poderio financeiro à custa da massa trabalhadora. É pertinente a demonstração do funcionamento da máquina corruptora que joga com a aparente ingenuidade e honestidade de Filipe, agora arquiteto e responsável pela emissão de pareceres para construção ou não de determinadas obras da construção civil.

Ao se meter em colocar nu o esqueleto dessa fuselagem, Miguel de Sousa obriga seu herói a descobrir sua própria história e o desfecho do acontecimento que abre a novela. A imagem de salvador da pátria é notada no próprio interior da narrativa pela Eva, numa de suas falas já próximo ao fim do enredo, “– Caramba, Filipe, não é fácil encontrar um D. Quixote como tu! Primeiro, travas um projecto urbanístico aqui, depois travas um destino de primeiro-ministro! Foste enviado pelo céu para espalhar a justiça entre os homens?”, numa fala que pode se confundir com um tom zombeteiro e irônico do próprio escritor.

Resta dizer, que Madruga suja constrói-se como uma narrativa de acasos. E se ao fim, o leitor tem uma história muito bem ajustada, a sua construção leva um tanto de paciência e necessidade de se deixar enovelar pelo tom vertiginoso com que Miguel Sousa Tavares cria situações e as cadencia para ter, no fim, essa história que é um encantamento acerca dos encontros e desencontros da vida humana.