A leitura como bem social e como amplitude de olhar

 Por Rafael Kafka



Em dezembro, comecei a escrever um ensaio que será publicado em breve sobre o poeta beat Allen Ginsberg. Para tanto, tive de ler um pouco sobre a geração beatnik norte-americana e ler os poemas de Ginsberg que há tempos eu tentava e não conseguia ler. Quando li On The Road em 2008, achei esse livro de escrita fácil, porém intensa, um livro interessante para fazer uma pessoa gostar de leitura pelo conteúdo repleto de viagens geográficas e existenciais e um vocabulário bastante acessível. Não é de surpreender então a dificuldade que tive ao pegar Uivo e outros poemas de Ginsberg e me deparar com um nível de escrita bem profundo, difícil e complexo. Tanto que tive de reiniciar o livro umas três vezes nos últimos anos para poder finalmente concluí-lo para a elaboração do citado ensaio.

Após concluir a leitura dos poemas, passei a ler sobre a vida de Ginsberg e dos outros grandes poetas beats. O comportamento deles é bem interessante e me lembra, mesmo sem o engajamento político e programático, o nosso Modernismo: a preocupação em tornar a literatura algo popular, feita pelo povo e para o povo. Impossível não comparar Ginsberg a Mário de Andrade e imaginar em minha cabeça uma conversa tresloucada dos dois em sua imensa gana de conhecer as raízes culturais de seus respectivos povos, os verdadeiros Brasil e Estados Unidos da América.

Mas fazer tal ensaio me fez lembrar quando comecei a gostar de literatura e de rock, pegando livros lidos, discos ouvidos e emprestando aos amigos para depois comentarmos trechos e músicas de modo empolgado e discutir sobre as impressões sentidas. Fazia parte da minha vontade juvenil de fazer o bem; dar aos outros aquilo que eu sentia de mágico na vida e a leitura e a música eram a coisa mais mágica da minha aos 16 anos de idade.

Até hoje quando revisito certos lugares próximos a minha escola, lembro sobre conversas tidas com amigos como Thiago Rodrigues nas quais falávamos de livros lidos e de como aquelas leituras estavam nos afetando. Lembro bem de ele dizer certa vez que me odiava, mas que passou a gostar de conversar comigo por conta do modo como eu o incentivei a ler. Hoje, infelizmente, não mantemos mais contatos pelo pouco gosto dele por redes sociais...

O ensaio sobre Ginsberg fez-me querer ler mais e mais e passar adiante esse gosto. Passei a fazer longas caminhadas como as descritas por Kerouac em seus diários, menos para cuidar de minha saúde coronária do que para ter uma calma beatitude com desejo de infinito que me deixasse em êxtase o dia todo. Posso dizer que o fim do último ano e o começo deste tem sido uma época cheia de leituras, pensamentos e escrita frenética. Um desejo de deixar minha marca nesta existência. De nunca ficar parado e de trazer pessoas comigo neste eterno movimento de vir-a-ser leitor sedento.         

A leitura para mim não é mais uma questão de erudição e status. Ela é salvação, um desejo de nunca parar. Um livro leva a outro, um autor cita outros e nunca paramos. Queremos conhecer lugares e ler mais, sempre mais. Deixamos de ficar na inércia e assim nos tornamos sempre mais e mais humanos. O nosso Modernismo e a literatura beat me ensinaram a lição mais importante tida por mim em todos os meus anos de formação como professor de Língua Portuguesa: não adianta falarmos de leitura se não sentimos esta empolgação que nos invade e nos faz querer todos os limites que o tempo nos impõe. Sem leitura, achamos que temos as respostas e com essa ilusão deixamos de seguir em frente. Paramos no tempo e na vida. E o tédio nos domina fazendo da existência pura fuga do tédio.

Dia desses, estava em sala de aula conversando sobre leitura com meus alunos do 8º ano. Falei-lhes sobre a existência de apenas uma biblioteca pública em Belém – a da Fundação Tancredo Neves (excluindo as existentes em órgãos como universidades e hospitais como a Santa Casa de Misericórdia) – e uma jovem aluna, a qual considero uma exímia leitora, disse-me:

– Ué, eu pensava que não existia nenhuma!

Saí da escola naquele dia pensando nessa fala da menina. Vi como a leitura é um bem em nossa sociedade que ainda não é democrático. Apesar do crescimento cada vez maior do nosso mercado editorial, a escola e outros setores ligados à difusão da leitura fazem pouco no tocante ao incentivo às práticas de leitura. O cinema ainda é o maior incentivador ao ato de ler, mas está quase sempre voltado para obras rasas e focado em puro entretenimento, sem conteúdo crítico. Nada contra isso e até acho louvável jovens começarem lendo coisas as quais considero rasas. Todos devem começar de algum lugar. Mas o que se segue ao incentivo a tais tipos de leitura? Nada, exceto as leituras obrigatórias para se passar no vestibular, em algum concurso público ou para não ser reprovado nas disciplinas do curso técnico, da graduação ou da pós-graduação. A leitura é instrumental demais, utilitária demais. Não há em nossa sociedade o incentivo a esse momento extremamente humanizador no qual uma pessoa abre um livro e lê o seu conteúdo buscando sentir a arte presente ali, procurando sentir uma sensibilidade maior em si mesma, um despertar para detalhes até então ignorados por ela. Não há em nossa sociedade o incentivo ao momento puramente humano de conversa muda com um autor que pode não estar mais entre nós, porém se preocupou em escrever no papel os seus pontos de vista sobre a vida.

O que torna obras como Crepúsculo e Harry Potter rasas não é seu conteúdo em si. E sim o fato de que não se discutirá um ato de leitura constante e sedento o qual sempre procurará se alimentar de novas e talvez mais ricas fontes de sentimento e conhecimento. Após a fase juvenil de leitura, os jovens deverão se voltar para o utilitarismo pedagógico de um ciclo fechado de leituras e para uma vida de trabalho a qual não permitirá muito tempo para o prazer de uma leitura gratuita em sua aparência, mas que possui o dom de fazer o ser humano se inquietar e sair de seu lugar de conforto.

A minha aluna mostrou em sua frase como a leitura está longe do cotidiano dos novos leitores e isso é algo que me preocupa demais. Comecei a fazer parte deste blog a convite do senhor Pedro Fernandes e junto com um amigo criamos um jornalzinho cultural que vai sobrevivendo a duras penas. As duas missões para mim são sagradas, não como Rimbaud expressou certa vez em uma carta na qual ele dizia que o poeta é capaz de ver coisas que os outros não veem e devem expressá-las e levá-las aos outros homens. A poesia é tão sagrada para mim que como um deus panteísta eu acredito que ela está em tudo e em todos. Qualquer um pode fazê-la. A minha missão, como a de Ginsberg, a de Mário de Andrade e a de meus companheiros é levar leitura e fazer todos falarem de leitura, fazer com que cada um sinta a mão coçar para escrever e aos poucos começar a fazer sua obra, mesmo que tropeçando em coisas que a pessoa julga como falhas de estilo.

A minha missão é tornar a leitura um bem público e um bem amado por todos. Pois a ojeriza que vejo certas pessoas demonstrarem por esse ato é a causa de muitos males como preconceitos, desrespeito e falta de amor ao próximo em seu modo de ver o mundo o qual nem sempre será similar ao nosso. A falta de leitura e de amor à leitura é para mim a maior ameaça para o nosso mundo ocidental repleto de falsas ideias e de valores confusos demais para serem aceitos sem questionamento nenhum.

Dois fatos alentadores ocorridos nos últimos tempos retratam como leitura para mim é algo importante e como gosto de ver as pessoas adorando as horas gastas em devorar um livro.

Até ano passado, tive uma aluna de nome Cássia, bastante inteligente e dedicada aos estudos. Lembrava-me, ao olhar para ela, demais de mim quando menor, pois não era disciplinada em um sentido rígido nos afazeres. Ela prestava atenção às aulas e fazia tudo no menor tempo possível, evitando passar longas horas estudando as matérias. Passou então a aproveitar o tempo livre para ouvir rock 'n' roll, o que creio se deu por influência minha que sempre cito em minhas aulas, mesmo diante do perigo da censura existente, como o rock ampliou a minha mente rumo a coisas mais interessantes e ao hábito de leitura.

Cássia sempre demonstrava certo desejo em começar a ler, porém faltava-lhe o incentivo maior. Falei-lhe então acerca do CENTUR, a nossa única biblioteca pública propriamente dita em Belém do Pará. Outro dia, fiquei muito feliz quando ela veio pelo chat do Facebook e me disse:

– Tenho uma ótima notícia para dar ao senhor!

– Qual?

– Falei com meu tio e ele aceitou me levar ao CENTUR para fazer aquele cadastro para emprestar livros.

–Poxa, que bom. Fico muito feliz.

– Eu também. Quero muito começar a gostar de ler, pois vejo como o senhor fala com empolgação de leitura. Quero melhorar minha escrita e ser mais inteligente.

– Tenho certeza que conseguirás. E nunca para de ouvir rock. Mas sempre fica alerta às loucuras existentes nesse meio. Sem leitura, o rock vira uma empolgação muito perturbadora... Olha, separei um livro para te dar de presente. Quando fores à escola (ela não mais estuda ali), eu o entrego a ti. 

– Oba! Tudo bem. Pode deixar que aviso quando eu for lá.

Confesso que nesse dia dormi extremamente feliz.

O outro fato alentador se liga um pouco a minha vida amorosa. Tive até hoje quatro namoradas e com pelo menos três tentei o incentivo à leitura. A penúltima foi a exceção, pois eu estava em uma fase de seca literária a qual até hoje digo ser a mais trágica fase de minha vida pessoal, profissional, acadêmica e intelectual... Para mim não é uma questão de status a leitura, mas de salvação, como disse. Leitura mexe com a sensibilidade e visão de mundo, quando feita em doses cavalares e incentivar um ser amado a ler é para mim o gesto mais puro de meu amor.

Há cerca de um mês e meio conheci a prima de meu saudoso melhor amigo Lenilson Farias e com ela passei a ter belas conversas que culminaram em clima de romance. O seu nome é Reginane e logo começamos a falar de livros e ela me expressou a vontade de ler mais obras literárias. Indiquei a ela a obra citada no primeiro parágrafo deste texto, On The Road de Jack Kerouac, e ela se apaixonou pelo estilo simples, frenético e intenso do buda da geração beat. Porém, por conta de uma viagem feita a outro Estado, ela esqueceu-se do livro em sua casa e para que ela não ficasse sem nada para ler, indiquei-lhe um PDF de um dos melhores livros de contos já lidos por mim: Octaedro de Julio Cortázar (livro que recomendo todo em si, mas em especial dois contos: “Liliana Chorando” e “Lugar Chamado Kindberg”). Em conversa por mensagens, eu a vi dizer o quanto estava apaixonada pela leitura do mestre do realismo mágico e isso me deixou profundamente tocado.

Nossas conversas são longas, cheias de impressões de mundo e fico muitas vezes tentado a pedir a ela que nos comuniquemos por cartas, para no futuro publicarmos um belo volume com nosso passado vivo. É uma pessoa que me encanta pela sensibilidade e por isso mesmo quis apresentá-la ao mundo de poetas que todos os dias me fazem chorar pela beleza da vida transmutada em forma de palavras.

Poderia citar mais exemplos, mas como gosto de fazer de minhas crônicas uma espécie de ampliação do meu diário pessoal, prefiro falar do recentemente vivido. Falar de leitura para mim, assim como era para Ginsberg em suas leituras públicas e em seus discos gravados e para nosso Mário de Andrade com seu sentimento religioso de amor à vida, é levar aos outros a possibilidade de ver o mundo com olhos mais profundos, estéticos e desejosos sempre de algo mais do que dinheiro e comida. Levar pessoas que amo a esse patamar é algo que considero uma boa ação que creio deixaria Kerouac bem feliz.

Começo a achar que quando começamos a ler pelo prazer do texto fugimos daquela ilusão burguesa de achar que só nós estamos prontos para ler este ou aquele texto. Que somente nós temos sensibilidade para escrever verdades profundas... Ledo engano! Todo ser humano é uma obra de arte e qualquer pessoa pode, se quiser, fazer arte. Basta ela desenvolver com esforço um talento e sem medo seguir nele. A leitura me ensinou isso. A leitura, como disse Nilo Carlos, meu professor no IFPA, é algo que não causa apenas prazer, mas também dor. Porém o prazer de subir uma montanha, ainda usando a metáfora dele, para ver a vista proporcionada pela escalada, é algo indescritível e que por si só justifica toda a missão e toda a dor transformando o corpo e a alma em puro prazer.

Por isso, apenas espero descansar quando a leitura se tornar um bem social usado e abusado por todos. Sem necessariamente estar ligado ao medo de levar bomba na prova, no concurso público ou no vestibular.

***

Rafael Kafka é colunista no Letras in.verso e re.verso. Aqui, ele transita entre a crônica (nova coluna do blog) e a resenha crítica. Seu nome é na verdade o pseudônimo de Paulo Rafael Bezerra Cardoso, que escolheu um belo dia se dar um apelido que ganharia uma dimensão significativa em sua vida muito grande, devido à influência do mito literário dono de obras como A Metamorfose. Rafael é escritor desde os 17 anos  (atualmente está na casa dos 24) e sempre escreveu poemas e contos, começando a explorar o universo das crônicas e resenhas em tom de crônicas desde 2011. O seu sonho é escrever um romance, porém ainda se sente cru demais para tanto. Trabalha em Belém, sua cidade natal, como professor de inglês e português, além de atuar como jornalista cultural e revisor de textos. É formado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará em Letras com habilitação em Língua Portuguesa e começará em setembro a habilitação em Língua Inglesa pela Universidade Federal do Pará. Chama a si mesmo de um espírito vagabundo que ama trabalhar, paradoxo que se explica pela imensa paixão por aquilo que faz, mas também pelo grande amor pelas horas livres nas quais escreve, lê, joga, visita os amigos ou troca ideias sobre essa coisa chamada vida.


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