William Burroughs fotógrafo

Burroughs em Tânger, no Marrocos

Há muitas coisas que vêm à mente quando se pensa em William Burroughs; as principais talvez sejam o vício em heroína ao longo da vida, o amor pelas armas de fogo e o ritmo de vida louca que terá sido um dos propulsores à formação de seu próprio estilo literário. Poucos sabem que seu romance Almoço nu é tão importante quanto Na estrada, de Jack Kerouac e Uivo, de Allen Ginsberg para toda uma geração na literatura de expressão inglesa e para o movimento Beat. E um público ainda mais reduzido desconhece que ele foi um exímio fotógrafo, com projeção tão ou mais importante que o amigo Ginsberg, quem também produziu um conjunto de fotografias que escreve boa parte da história do grupo da Beat Generation.

Na fotografia, Burroughs foi um experimentalista; levou para aí (ou terá trazido daí) o método cut-up – técnica de colagem que, na literatura, uma frase ou conjunto de textos é cortado em pequenas partes e depois reorganizados de modo a criar algo novo. Isto é, o escritor não se restringiu ao mero ato de fotografar, mas foi ao limite de fazer da fotografia objeto de arte, único em sua essência e plural nos sentidos. “Flowers” é um caso específico: uma série de imagens em que uma rosa se projeta a partir do cromo de uma garrafa de Coca-cola. Aqui, a imagem gerada funciona como um apelo ao não-ordem, linha de força de seu estilo. A não-ordem não como evocação ou apologia a desordem, mas via de ser o novo, o que difere do usual, o que é capaz de proporcionar novos contextos e significados. Como ele próprio definiu para seu amigo artista Brion Gysin, em 1961, “a colagem é uma arte assim como um arranjo de flores”.

Gysin ficou famoso por inventar com ajuda do escritor a cut-up, a mesma técnica que já terá servido na composição de Almoço nu e outras de suas produções literárias. O escritor fotografou durante toda a vida, mas é entre os anos 1950 e 1970, o seu período de melhor criatividade. Buscou, em grande parte, materializar na obra de arte o efeito da quebra de continuidade das categorias de espaço e tempo. Na verdade, se atentarmos, o tempo e perda se constituem em temas recorrentes dessa sua produção imagética.

Fora a inventividade, Burroughs buscou, sem sentimentalismos, tratar de sentimentos como o encontro com a paixão, principalmente quando a redescobre, depois do assassinato da esposa, em John Brady. Já nos anos setenta, ele estendeu o uso de fotografias como um meio de criar personagens e cenários ou sets como chamava essas produções, nos quais não mais o interessa a sobreposição de imagens, mas a sequência delas. Isso talvez inspirado pelo aspecto visual das filmagens de Almoço Nu. Entre esses sets há um que compõe o cenário para o desfecho (e também uma cena) de uma relação sexual. Ainda nos territórios de sentimentos esta sequência que começa com uma cama arrumada, depois bagunçada e, em finda, com o close numa mancha nos lençóis, mas que a cena sexual em si, parece ser o vazio da relação o que aí se preserva; inaugurado na imagem original, este sentido é uma constante até o fim, do set. Isto é, o intervalo entre a cama feita e o lençol manchado sugere que ninguém aí esteve presente; atenta ainda para a possibilidade de que se houve alguma relação nesse intervalo, tudo foi efemeridade.

Revelam-se aí a nuance sempre devotada aos da sua geração – a margem. Não apenas no conjunto de imagens produzidas por Burroughs, mas na forma como essas fotografias foram produzidas. Todo esse trabalho não foi desenvolvido em grandes estúdios, mas em farmácias, algo, atém então inédito e também marginal para um aventureiro com o registro fotográfico. Há nesse meio, ainda, a documentação da Beat Generation, assim com fez Ginsberg: exemplo, a fotografia de Jack Kerouac quando este esteve em Tânger, no Marrocos. Em tempo, foi aí que Burroughs deu seus primeiros passos no experimentalismo da cut-up.

Provada a inventividade de Burroughs, preparamos a seguir um catálogo com fotografias do beat-escritor.


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