Poética, de Ana Cristina Cesar

Por Pedro Fernandes



Fala-se sobre uma Geração Marginal; depois, fala-se igualmente de uma geração que assumiu, quando de sua constante manifestação na web (desde sempre, o que também é um gesto de vanguarda), a posição central na poesia contemporânea. O que esta geração produziu e o que essas produções passaram a significar atestam para o constante movimento que é a literatura. Que ela não é uma instituição fossilizada, morta, ou posta como santa no altar. Mas é luta constante, via de ser. Movimento que poderíamos conceituar como infinito.

Os daquela geração abriam a possibilidade para outras vias da literatura. Num processo que custou o esforço da negação de determinadas estéticas, a rebeldia da imposição de sua estética em muitos casos, mas a convicção, talvez até prepotente, de que neles estava a novidade. Fato é que não havia um movimento mais ou menos estruturado assim como foi, por exemplo, o modernismo. Sobravam certezas, mas rumos nenhum. Ou mesmo as certezas não passassem de certa rebeldia. E só. A caracterização de marginais prova uma tentativa da crítica – sempre em sintonia com o óbvio – em escamotear em definitivo aquilo que era produzido à margem dos grandes nomes. Nesse caso, como em muitos outros, a crítica perdeu. Venceu a literatura.

Mas, se parte deles venceu esse cerco é porque estavam bastante alinhados com os princípios modelares do espírito de um tempo adiante. A negação ou a prepotência, entretanto, não estavam acima da compreensão de que os já incensados deviam estar como cimento para este solo em que buscavam introduzir novas sementes. Não caíram no erro em que caem muitos dos poetas de beira de estrada: negar por negar, negar sem saber por que negam. À medida que puderam perceber no que se tornavam, embora distante um dos outros numa era em que a internet ainda estava no sonho dos inventores, passaram a trabalhar em torno de uma estética que viria não simplesmente romper com o padrão formal de seu tempo, mas oferecer outras diretrizes para o que se produziria a partir de então. É um movimento, pois, não de afastamento do projeto literário nacional, mas de alargamento de suas fronteiras.

O aparecimento da internet e a popularização da poesia neste meio fizeram bem aos marginais; fez com que atentássemos para aquilo que era produzido pelos desse grupo. Mas, não o levaram a correr o risco de se reduzirem a qualquer coisa como me parecem ter ido parar estéticas como a do poema concreto ou a do poema processo – que, claro, têm sua potência no contexto em que se dão, mas caem em falso quando são levados por outros meios, como os dos recursos sintéticos produzidos pela web.

Na internet, levado por outros nomes, a literatura aí produzida ganhou uma dimensão um tanto elevada. Basta dizer que estes não perdem em popularidade para aqueles nomes do cânone. Entre estes nomes da década de 1970, um não pode faltar, porque mesmo se distanciando um tanto do seu universo temático, foi um dos mais significativos nomes: falo de Ana Cristina Cesar. E os editores, motivados por esse espírito capital, não terão se descuidado da intuição de que esse trabalho merecia sair das obscuras listas de títulos raros ou esgotados. No caso da poesia marginal, a Companhia das Letras deu pulsão a duas antologias – há muito esgotadas as primeiras tiragens – o Toda poesia, de Paulo Leminski (comentamos aqui) e depois a Poética, de Ana C. Ambas dão conta do significado da obra desses dois autores para os rumos da literatura brasileira contemporânea. E vieram em boa hora.

Hoje, vou me referir a Poética. Uma edição muito bem construída, do ponto de vista estético, que reúne boa parte da sua obra há anos fora de catálogo mais inéditos: Cenas de abril, Luvas de pelica, A teus pés (o título talvez mais conhecido e também o mais quisto pelos leitores da autora), Inéditos e dispersos entre outros. De modo que aí é possível contemplar todo exercício poético de Ana C. porque estão num só espaço desde poemas escritos na efervescência adolescente, com uma dicção muito própria das primeiras experiências com a palavra, até poemas mais bem elaborados e com uma força de sentido muito mais ampliada que o lugar assumido pelos da poesia marginal.

Também é possível destacar os temas recorrentes dessa poética que se fez não pelos livros, mas pelo poema livre, o poema solto como notas para um zine, ou um folheto mimeografado: o corpo e a sexualidade, o amor em todas as suas formas, o mal-estar dos sujeitos urbanos, a própria linguagem poética, o cotidiano... Tudo expresso pelo despojamento da língua e do poema, com uma dicção muito aproximada do popular (com o sentido de comum): a confissão, a correspondência, o rascunho. Formas que compõem uma espécie de mixagem literária muito própria daquilo que produzido pela geração de seu tempo – tentando sempre fugir das amarras das estruturas comuns. A grande força de Poética está na possibilidade de visualizar, pela primeira vez, a força desse gesto quase que inaugural da poesia: a bricolagem como processo criativo, como forma para a composição poética.

Poética revela uma poeta que deu ao trabalho literário sua própria existência como lugar de experimentação de si e da poesia. Por isso mesmo, Ana C. talvez seja a mais visceral do grupo e de seu tempo. Também a mais autêntica. A que quis imprimir uma verdade ao fingimento poético com tanta força que a própria dor não se deixa fingir, é o próprio poema. É perceptível ainda, nesse caderno de exercícios poéticos, que Ana esteve sempre no limite, na fronteira, como se ao alcance do outro. De outro que muitas vezes é ela própria, daí o tom confessional, como quem diz de si para si querendo dizer-se para ser outro. Outro que é todo mistério. É silêncio. Mas, por mais diversa que seja as vozes experimentadas pela dicção de Ana, esta dicção está condicionada a apenas uma voz central – a da própria poeta. Por exemplo, ainda que ela traga para o interior do poema a tradição, Walt Whitman, Rimbaud, Baudelaire, essas vozes são todas esgarçadas em nome da voz da poeta.

O livro em questão é mosaico, como quis ser a poética de Ana C. Conjugando prosa e poesia, ora na pluralidade de gêneros que a antologia evoca ora no interior do próprio poema, Poética recompõe um universo insinuante, desconfortável; uma interrogação sobre tudo, as peças de um enigma e nessa atmosfera complexa, a própria natureza do poema. Estamos diante de um eu, como notou muito antes Flora Süssekind, que se corrói, que hesita, se descentra, que está entre a escrita e a rasura, que está entre a constante perda e a necessidade de recuperar-se de sua ausência: “Não sou idêntica a mim mesmo/ sou e não sou ao mesmo tempo, no mesmo lugar e sob o mesmo ponto de vista”. Um eu intermitente, que encontra solidariedade não apenas nas vozes da tradição – como as que enumerei acima – como nas de seu possível leitor (um outro Outro) e das outras que alimentam sua consciência sobre si e sobre o mundo (um outro Si).

Nesse coro, a antologia ora publicada pela Companhia das Letras alcança outro mérito que é o de concentrar as vozes externas, parte daquelas que deram e dão sustentação à obra de Ana C. – desde a apresentação com Armando Freitas Filho, poeta e amigo íntimo da poeta desde os tempos em que ela era uma estudante na PUC-RJ, ao posfácio de Viviana Bosi e o farto e esclarecedor apêndice. Gosto de ler esta edição não como uma obra definitiva, mas um constante devir, seja porque saiba da existência de uma extensa papelada de inéditos da escritora não incluídos aí, seja porque saiba da possibilidade diversa de leitura deste grande labirinto de palavras. Terminada a leitura de Poética há sempre a necessidade de constante releitura para descobrir outras possibilidades de sentido (é assim a natureza da boa poesia); mas também há sempre a necessidade de levar adiante, para outros possíveis leitores, essa inquietação experimentada pela poeta. 


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