A desumanização, de Valter Hugo Mãe

 Por Pedro Fernandes


Pode-se dizer que A desumanização é um romance de retornos. Embora, uma das obsessões de Valter Hugo Mãe, segundo o autor tem confessado, seja a de não buscar se repetir e fazer de cada romance um começo de tudo porque lhe frustra a ideia de viver toda uma vida para ser autor de um só texto; embora não alcancemos certa limitação criativa, fato que se verifica em alguns nomes já conceituados como Mia Couto (julgamento que é uma birra particular com seu último romance, A confissão da leoa); A desumanização é um corolário de obsessões muito particulares da obra de Valter Hugo Mãe. E isso não o limita. No seu caso específico, é o contrário: inaugura uma feição literária até certo ponto inovadora na literatura de língua portuguesa – consideração que vai de encontro ao que o próprio escritor tem dito buscar, fazer do seu texto um texto universal.

Um desses retornos notados está um novo ângulo para o tema da morte tomando por base a ótica de uma criança. Isso fora já experimentado, por exemplo, em o nosso reino e o tema isolado – a morte – está presente em todos os demais romances. No caso de A desumanização, essa temática é notada a partir da perda do parente muito próximo: já na abertura da narrativa, o leitor encontra com Halla, a narradora infantil, enlutada pela perda repentina da irmã gêmea Sigridur. É preciso dizer, ao notar a partir dos nomes das personagens assim tão estranhos aos falantes da língua portuguesa, que a narrativa desse romance se passa nos confins da Islândia, espaço pelo qual o escritor desenvolveu uma larga experiência afetiva. Outro dado que pode ser esclarecedor para a Ieitura do romance parte dessa relação com a perda parental; tem ela uma ligação ressaltada por Mãe na nota posta ao fim do romance sobre a perda de seu irmão Casimiro, que morreu muito antes do nascimento do escritor. A ideia de espelhamento do eu experimentada pela similitude fraterna teria nesse acontecimento pessoal certo motivo criativo na construção da trama do romance em questão.

E já aqui estamos diante de outro tema exercitado ao longo da produção romanesca de Mãe: o da alteridade. No instante em que acompanhamos a epopeia errante da menina Halla, o que estamos em contato é com a descoberta de si, sobre o mundo e sua relação com o outro. Tal e qual o benjamim de o nosso reino ou o baltazar de o remorso de baltazar serapião, para recordar dois dos primeiros títulos do escritor, Halla, criança sozinha, mal quista pela mãe e só admirada de perto pelo pai, é também personagem à procura de si; relação desenvolvida a partir do trauma da perda, de sua condenação ao silêncio, da resignação pela mortificação do corpo e depois pela entrega extenuada ao único homem solteirão do vilarejo, Einar.

Nessa empreitada um tanto existencialista, convém sublinhar a escrita a modo de ensaio – este romance tem muito da perscrutação e da reflexão costurada pela voz da narradora – subverte-se um princípio básico da filosofia sartreana. Do extenso exercício intelectual do existencialista Jean-Paul Sartre, logrou-se uma expressão que se tornou pilar de seu pensamento: “O inferno são os outros”. Para o pensador francês a dependência necessária do eu para com o outro e a potência de impossibilidade sempre colocada pelo outro na concretização de minha existência faz do eu impasse entre o que sou e o que poderia ser.

Recortando certo egocentrismo que escapa dessa ideia existencialista, assim se pronuncia o pai de Halla, poeta e subjugado às obsessões da sua companheira que não atribui valor algum ao exercício da palavra – “O inferno não são os outros, pequena Halla. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti.” Expressão que, mesmo ressaltando o conflito entre o eu e o outro cunhado nos termos sartreanos, destitui o outro de um lado negro da existência. Sim, o homem por si só não pode conhecer-se em sua totalidade – é isso o que existencialismo de Sartre diz – mas o outro é todo problema.

Ainda marcando outros temas que este romance recupera é notório o trabalho de elaboração de um imaginário sobre o feminino, elemento com que o leitor se depara em todos os romances de Mãe, sobretudo, em o apocalipse dos trabalhadores, por exemplo. “Todos me falam de passar a ser mulher e o que isso significava de perigo e condenação. Ser mulher, explicavam, era como ter o trabalho todo do que respeita à humanidade. Que os homens eram para tarefas avulsas, umas participações quase nenhumas. Serviam para quase nada.” Halla, no mesmo instante em que se vê como protagonista, porque, de fato, é esta a história das mulheres, percebe-se marcada pela destituição genesíaca de condenação da mulher à de suportar as dores da humanidade. E de fato, torna-se mulher para ela, alargará ainda mais suas agruras. Ela, entretanto, é a que não se rende. E se, o romance está atento ao processo de recrudescência da humanidade, daí o título, ela, a personagem, se destaca como a detentora de uma centelha de esperança.

Ao citar a ideia de condenação genesíaca da mulher, tocamos num tema que é novidade na prosa de Valter Hugo Mãe: o da relação do homem com o Criador. Mesmo que em outros textos encontrássemos diante de alguns elementos que marcam esse extenso debate – como é caso em a máquina de fazer espanhóis – as reflexões aqui se apresentam mais depuradas e constituem mesmo numa linha de força dialética, isto é, não há esforço nem de afirmação nem de negação sobre a existência de deus (é assim que se grafa no texto). Talvez deus seja essa intermitência entre a afirmação e a negação. “Descobrir o nome o significado de deus não compete a ninguém. Repeti: descobrir o nome e o significado de deus não compete a ninguém. Deve dar-nos medo a necessidade de o entender. Deve dar-nos medo a necessidade de entender deus. Ele é o desconhecido, se porventura se der a conhecer então é uma falsidade.”

Por fim, permitam que observe mais duas recorrências: a penúltima delas é o discurso da mutilação. Que o corpo é um dos elementos mais salientes na prosa de Mãe, todos os que o leram atentamente já terão percebido; e é natural se estamos diante de uma narrativa sobre a alteridade. Entretanto, o escritor português parece interessado em perscrutar outros modos de representação do eu na literatura. E como se fosse insuficiente um discurso sobre o estilhaçamento do sujeito, o tema ganha outras formas de construção. Dentre elas, escolhe justamente a mutilação como se quisesse nos colocar como observador muito próximo a dor dessa desarticulação. Nos dois primeiros romances, por exemplo, mesmo estando situado cada um em contextos sobre os quais o tema não estava em voga, já a mutilação é empregada pela narrativa de Mãe como esse exercício sobre a mutilação do eu.

E a última, a narrativa como um experimento poético. A desumanização acentua mais ainda o lirismo que já presenciávamos em romances anteriores. Aqui, o escritor demonstra in loco essa depuração da linguagem através da repetição – conforme a citação acima que recortamos e conveniente em diversas passagens da narrativa; como se ele próprio se desse ao trabalho de expor essa cartilha do narrar, mas também quisesse deixar à mostra as costuras do texto. “O pior amor é este, o que já é feito de ódio também. O pior amor é este, o que já é feito de ódio também. O pior amor é este, o que já é feito de ódio também.” Além da reflexão sobre a natureza da linguagem – elemento que aqui ganha outra dimensão, por vezes labiríntica tais quais os fiordes tanto citado ao longo do romance.

Ainda em tempo, é importante observar como o escritor traduziu seu olhar estrangeiro sobre a Islândia num romance pensado e escrito em português. Se em textos como o Budapeste, de Chico Buarque, por exemplo, o estranhamento é dado pela distância linguística assumida pela personagem principal – e o escritor brasileiro consegue expor com maestria essa relação – em A desumanização não é diferente. Valter Hugo se apropria do imaginário islandês e com ele engendra a atmosfera do romance e a relação entre a personagem principal e seu lugar; entram nesse rol de especulações as lendas sobre as montanhas, os dragões, a relação do islandês com a terra.

Os retornos, logo se vê, vão compondo um mapa das obsessões de Mãe. Mesmo que este romance assuma uma direção que o aproxima do ensaio – esta é a inovação do escritor dentro de sua própria literatura, não é este, entretanto, a forma como se realiza seu trabalho. Ao eleger um tema de interesse, o que ele perscruta vem pelo estranhamento constante com a palavra e a necessidade igualmente constante de poetizá-la. A desumanização é um romance por imagens; produto de um exercício imaginário potente, se firma como um dos melhores da literatura de Valter Hugo Mãe.


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