Matteo perdeu o emprego, de Gonçalo M. Tavares

Por Pedro Fernandes



Sempre tive comigo certa convicção de que as reduções são um tanto perigosas (convicção tautológica, pode ser, porque ter uma convicção parece que implica fazer reduções). Matteo perdeu o emprego, é o romance mais recente de Gonçalo M. Tavares a chegar no Brasil. Sim, já há outro título depois deste e há muito publicado em Portugal. As simultaneidades de edição para o seu caso parecem ter acontecido muito pouco; o caso mais visível se deu com a publicação pela LeYa, de Viagem a Índia.

Que este romance aqui nos chegue, ainda que com certo atraso, é expressão motivadora de parabenizar a ainda estreante Foz Editora pelo trabalho. É que depois de vários títulos publicados no Brasil através de casas diversas, já ficou visível que a obra desse escritor está no rol das obras necessárias (sempre) da leitura. Isso significa dizer que já estamos diante de um elemento que adianta a conclusão que este texto poderia tomar: há que se ler a obra e este romance mais recente de Gonçalo M. Tavares.

E porque começo tratando de reduções este texto que é um conjunto de notas acerca de Matteo perdeu o emprego? Uma, é que a nossa invalidada crítica de senso comum tem afirmado deste a chegada da obra que este é um romance acerca da crise de emprego porque passa a comunidade europeia nos últimos anos. Julgamento um tanto apressado pelo que o título sugere ou ainda pelo que a narrativa principal do livro – homônima ao título – sugere? Adianto logo: este não é um livro sobre o desemprego nem sobre a crise na Europa. Ou pelo menos não é só isso. Outra, é que o livro do escritor português se configura, para todos os efeitos, numa crítica muito lúcida acerca das reduções. Compreendendo que reduzir implica necessariamente em individualização.

Conhecido inventor de subjetividades – prova, a extensa biblioteca O Bairro, por exemplo, em que o escritor entra num exercício de fabrico daquilo que poderíamos ponderar como as personas de muitos nomes da literatura universal – em Matteo, Gonçalo volta a este trabalho de feitura de identidades com o apurado gosto de ora exercitar os sentidos da imaginação ora perscrutar alguns dos lugares recorrentes que vimos nos tornando. Claro, não sem um apelo aos sentidos pela ampliação da realidade.  Aí estão 24 nomes mais 1 sobre os quais o narrador põe em relevo uma característica marcante e a transforma em instrumento de reflexão sobre a personagem e sobre a realidade: cada história tem seu próprio começo e fim, mas fim em abertura, apontando sempre em direção a um por vir como se fosse nos dada uma sequência mais ou menos organizada, uma fila indiana, mas demonstrando desde então que por mais reduzidos que estejamos às individualidades, elas sozinhas, não se sustentam.

Fim em abertura porque uma história sempre puxa outra – o narrador parece separar propositalmente as sequências narrativas em módulos a título de melhor evidenciar suas interseções. Sequência mais ou menos organizada porque os nomes dessas personagens criadas obedecem a um itinerário enciclopédico ou de dicionário, como se deduzisse um círculo, mas novamente o deixará em abertura: Aaronson, Ashely, Baumann, Boiman, Camer, Cohen, Diamond, Einhorn, Glasser, Goldberg, Goldstein, Gottlieb, Greenberg, Greenfield, Helsel, Holzberg, Hornick, Horowitz, Indictor, Kashine, Kessler, Klein, Koen e Matteo. Quando o leitor espera se contentar com esses 24 nomes fica em suspenso saber mais sobre Nedermeyer, nome que aparece na última parte da última narrativa e sobre o qual o narrador nada fará mais que uma citação, pondo evidência que, no mais, somos uma extensa e infinita rede de relações e estamos ligados uns aos outros mesmo quando não conhecemos o outro depois ou antes de nós.

Tudo isto que dissemos no parágrafo anterior refere-se à primeira parte do livro: cada nome refere-se a um capítulo e somente a narrativa sobre Matteo tem uma extensão diferente das outras histórias – com sua própria divisão e uma relação com as personagens das narrativas anteriores. Motivo que parece colocar esta narrativa no centro das demais e assim ser o único definidor para o título da obra. Mas, depois disso, Gonçalo M. Tavares insere um prefácio que funciona ora como um exercício crítico às narrativas anteriores, como se quisesse propor ao leitor uma chave de leitura para elas, ou nem isso, apenas colocar mais especulações além daquelas que vimos construindo ao longo dos textos. E está nessas reflexões uma gama de convicções que invalidam quaisquer reduções que se queira fazer acerca da obra. Matteo é muito mais um exercício de criação narrativa, um redesenho da forma romanesca pela via da narrativa curta, modelo que tem se firmado contemporaneamente, que propriamente um romance. Tenha o leitor isso em mente quando estiver diante deste termo referindo-se a este livro. Ou poderá, de novo, ser traído pelo território das reduções.

Este projeto conceitual ou artificial do romance tem suas raízes numa longa tradição de exercícios narrativos – muito dela evidenciado no próprio texto. É referência, por exemplo, ainda que não citado, aqueles exercícios criativos de Jorge Luis Borges a processar a partir da própria literatura outra literatura cujo movimento se inscrevia num extenso labirinto sustentado por doses cavalares de imaginação. Isso evidencia um método de criação; como se nos fosse dado autorização de perscrutar as oficinas do romance e enxergar sua caixa respiratória. Gonçalo M. Tavares amplia aquilo que José Saramago tão bem fez: contar uma história, mas sem esquecer-se de dizer aos leitores que estavam diante de uma voz que seleciona, dirige e até certo ponto condiciona os acontecimentos. Isso reforça não apenas o papel da ficção como lhe reinventa o valor de um complexo sistema que põe em evidência outras complexidades. Maior parte do diálogo das narrativas de Matteo está circunscrito ao território da própria literatura – evidência que se mostra, por exemplo, na epígrafe de Burroughs colocada logo à entrada do texto intitulado “Notas sobre Matteo perdeu o emprego (posfácio)”.

Levando adiante essa hipótese, o que dirá o deslocamento da epígrafe geral do romance, saída da abertura para o fim do texto? Um fragmento textual de um ensaio de Giorgio Agamben acerca do ato de nomear. O exercício narrativo não fecha suas fronteiras no lugar do literário enquanto arte (arte pela arte); Gonçalo M. Tavares o aproxima do diálogo com outros territórios como o da filosofia recuperando a ideia de que o romance não pode está, no atual contexto, preso ao mero interesse burguês do entretenimento. O romance e a literatura têm se firmar como espaço de reflexão acerca do eu e do mundo. A realidade não é um amontoado de situações. Isso outros escritores já se deram conta. O que necessário é saber como dar conta disso e tornar isso significativo no romance. Também não é caso suficiente oferecer ao leitor várias possibilidades de leitura dos acontecimentos; é necessário torná-lo sujeito desses acontecimentos. Em Matteo o sujeito é o centro do olhar do narrador e a realidade aparece como uma construção nunca acabada.

Daí, o caráter nominativo de cada um dos capítulos deste texto: nomear é um ato genesíaco. Tem a ver com a própria criação do escritor. Acentua-se ainda outro efeito de realidade: um indivíduo nunca é só um substantivo próprio. É um designativo e o que se diz dele e aquilo de ser o sujeito o centro de tudo é colocado em suspeita por aquilo que vem depois dele: “Aaronson e a primeira rotunda”, “Ashley e a encomenda”, “Camer e o inquérito”, “Goldenstein e a tabela periódica”, “Indictor e o rapazinho”...

Além de questionar-se acerca das individualizações do sujeito, Matteo perdeu o emprego atenta para outras complexidades ou mal da modernidade: a ordem de descentramento das identidades assinaladas pela extensão dos grandes centros urbanos – as manias, as obsessões, os tiques, as taras, as solidões; o processo de maquinização dos sujeitos, integrados a um grande centro nervoso – aquela máquina burocrática cujos sinais já apontavam em Franz Kafka – que o imiscui de práticas de repetição contínua num desfecho em que o fim é a destituição do próprio sujeito. Se a repetição é um dos males da contemporaneidade, porque ordena e reduz é pela repetição não do mesmo que se aponta a possibilidade de romper com a ordem. Como em “Bartleby, o escrivão”, de Melville, Kashine em “Kashine e o NÃO” inaugura a prática de dispor por onde passa, no que vê, no que lê, no que usa, o termo “Não”. O gesto repetitivo é peça fundamental na extensa onda de conformismo a que estavam metidos todos os habitantes do lugar onde vivia Kashine: “sem que tivesse existido antes qualquer pergunta, provocou a confusão, incitou ao movimento, à alteração daquilo que parecia já ter parado por não ter mais por onde andar” – concorda Gonçalo em seu prefácio. “Não é o vocábulo mais assertivo no mundo da linguagem. Bem mais do que o sim; o sim abre uma continuidade, sim e avanço, sim e algo mais. O sim começa, o não termina. O não encerra. Não há vocábulo mais assertivo; é em linguagem a palavra mais mortal.”

Quero voltar a questão do desemprego colocada pela crítica comum como centro de tudo neste livro de Gonçalo M. Tavares. Matteo, personagem principal da última incursão narrativa, de fato, tem de lidar com a questão, numa profissão de acompanhante de uma mulher sem braços que faz dele tudo, inclusive serviçal do sexo. Mas, noto que tratar da questão assim como se mostra é certo repetição. Num texto de elevado alto de ironia como este, não é possível tomar o tema assim nu de sentidos ou como uma mera conotação social. No mínimo a crise aí aponta para outras questões mais densas: seja a reificação das relações humanas, seja a circunscrição dos indivíduos em suas individualidades a ponto de impermeabilizar-lhe a visão do outro, seja a idealização do corpo, do ideal de perfeição, de feio, de belo, seja ainda a nulidade das funções tradicionais do trabalho delegadas ao homem.

Enfim, tudo isso serve para dizer que o leitor arguto jamais se sentirá inútil na leitura dessa obra de Gonçalo M. Tavares. Não se sentirá diante de uma mera luta de palavras a produzirem um falso engodo literário, como tem sido moda corrente entre alguns ficcionistas. Mas um escritor que produz uma literatura que é um apelo ao pensamento, como fizeram os grandes mestres da literatura universal.



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