Ninfomaníaca, de Lars Von Trier


Diferentemente da dedicação de boa parte da crítica de cinema em ver os dois volumes de Ninfomaníaca com leituras distintas, não tomarei o tempo do leitor com isso; primeiro, porque, na verdade, os dois filmes são um, cortado da maneira como se apresenta a título de satisfazer as exigências das salas de exibição; segundo, justamente pela causa primeira, não há na segunda parte nada de novo do que se passa na primeira. Apenas se acentuam os limites das experiências sexuais de Joe. Lars Von Trier, de fato, tem assumido uma conceituada posição na atual conjuntura da produção cinematográfica. Talvez, ciente disso, e sempre querendo não se firmar em nenhum rótulo específico, o cineasta tenha sempre optado por ocupar várias posições - pensando que quase toda produção sua tem uma particularidade que a coloca numa posição quase que única na sua filmografia. No caso desse seu recente trabalho, o que quase se configura é uma produção fast food inclinando-se quase que totalmente para o lugar do clichê.

Estou com isso dizendo que Ninfomaníaca é seu pior trabalho desde quando se aventurou pelo cinema. A história apresentada ainda durante uma das edições do Festival de Cannes, quando do lançamento de seu trabalho na época, Melancolia, acompanha a vida sexual de uma viciada em sexo desde a formação de sua sexualidade, na infância, até a maturidade. E, de fato, é isto o filme. Uma cena de sexo após a outra, enquanto Joe, a personagem em questão, narra essa sua insaciedade para Seligman entre xícaras de chá, no melhor estilo Emmanuelle. Seligman é quem a encontra caída, espancada, próxima de sua casa e faz as vezes de um bom samaritano. Guiando-se apenas por esta via, o que o telespectador tem diante de si está mais para uma daquelas novelas de sexo brasileiras, comumente chamadas de pornô chanchadas, mas, permita-me adiantar, sem a doçura da sem-vergonhice; isso porque todas as cenas de sexo, um outro pênis flácido ou ereto, ou um close mais safadinho está lá porque é interesse do diretor acompanhar de perto e naturalmente a expressividade dos atores. Não há nenhuma possibilidade de o expectador mais atiradinho se excitar com o que é mostrado.

Não há nenhum cuidado mais técnico com a produção. Embora montado com qualquer outra produção cinematográfica, há situações tão mal desenhadas que o expectador que tenha tido contato com produções como as de Pedro Almodóvar, o mestre do escracho (qualificativo meu), se sentirá diante de um de seus filmes, embora no diretor catalão prevaleça sempre um calor latino em oposição a frieza europeia de Lars Von Trier. O despojamento com a cena, como em Almodóvar, é proposital, evidentemente. Ambos estão em pleno exercício das fronteiras entre o documental – portanto, o mais próximo do real – e o ficcional. Esses efeitos de embaralhamento das fronteiras do objeto artístico ora quer aproximá-lo do corriqueiro, ora quer reforçar que, sim, o expectador está diante de um produto da imaginação criativa do homem.

Agora, nem tudo é só isso em Ninfomaníaca. Eu que sempre nutro interesse pelo modo como as narrativas são construídas no cinema, por exemplo, se me fiasse apenas na superficialidade do filme, estaria fadado a me juntar ao coro dos insatisfeitos. Isto é, há uma única coisa que salva esta produção: a construção da narrativa. Ela não está limitada aos protocolos simplistas que se nota na pornô chanchada e nem no estilo de rememoração a Emmanuelle. Lars Von Trier é um pop intelectualizado. Bebe não somente na estética cinematográfica como bebe (e muito) Quentin Tarantino; bebe num manancial de leituras que passam, no caso específico deste filme, pela filosofia, estética, literatura e música clássicas e contemporâneas, artes plásticas, numerologia etc., de modo que, as notas que aqui apresento são insignificantes para uma leitura bem acabada da obra. Há simbologias, analogias, metáforas (forçadas algumas e percebidas pelo próprio andamento da narrativa) que merecem ser vistas com melhor parcimônia para se estabelecer um melhor juízo valorativo da narrativa executada pelo diretor dinamarquês.

Para além de querer colocar o tema na ordem de um debate psicológico ou de fazer da ninfomania coisa comum – propósitos que julgo não ser os de Lars Von Trier – há algumas camadas de discursos já problematizados em vários outros territórios do pensamento que ascendem à superfície da narrativa. Um deles é que o homem é todo pulsão e os processos de repreensão e coerção da sexualidade, mesmo que responsáveis pela construção de todo o aparelho da realidade que nos atende como quer a psicologia freudiana, só o fragilizaram enquanto ser humano. Daí a discussão em torno da liberação do corpo – e Lars Von Trier, para ser mais perspicaz, elege como figura a mulher, quem mais foi repreendida sexualmente – de temas como a culpa, o pecado, o flagelo, o moralismo, a sectarismo da religião. E pode-se dizer que até elege essa narrativa para ser um adendo contra a sociedade machista em que vivemos. Há, em certa altura do texto, a indagação de Seligman para Joe: Se um homem agisse como ela, ele seria objeto de julgamento? Ou mesmo, antes disso, o homem exposto ao ridículo, à ingenuidade e tornado objeto – cena que se reduplica ao longo do filme. Ou ainda o próprio desfecho da narrativa com um jogo entre a vida e a morte polarizado entre um homem e uma mulher.

Haverá mesmo a ocasião em que, Joe, controlada pelo seu instinto sexual e assombrada pelos fantasmas das limitações, buscará, ao modo de outras mulheres que dizem padecer de uma mesma patologia sexual, um tratamento específico para si. É o instante que vem um daqueles choques sobre a condição do sujeito anormal e que necessita se resignar numa camisa de força para enquadrar-se nos limites do considerado normal. Mais tarde, a recusa, dada não apenas pela incapacidade de se adequar a esses limites, vem restabelecer o discurso de preservação das individualidades e mais que isso, corroborar para a tese defendida ao longo do filme: a sexualidade é aquilo que nos define, se a castro, castro meu próprio eu.

Se não é uma obra-prima; se está longe de outras produções do próprio diretor; se é um filme imperfeito porque sua estrutura pesada o faz perder seu próprio rumo; não se pode negar que Ninfomaníaca se constitui num ensaio provocador que suscita muitas questões acerca da liberdade sexual e exercício do corpo nesse domínio, dois lugares ainda tabu na comunidade humana. 


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Inferno provisório, de Luiz Ruffato

L’amour, de Michael Haneke

A religiosidade clandestina de Hermann Hesse

O Bovarismo como pedra de toque na obra de Lima Barreto

Rupi Kaur: poeta reconcilia o passado das mulheres indianas e transforma sua dor em tema universal

Como alguém se transforma num escritor? Dez notas sobre o primeiro livro

Entre a interdição e a plenitude: treze livros para o Orgulho Gay

Clara dos Anjos: a chaga dos anos 20

O progresso do amor, de Alice Munro

Apontamentos sobre alguns textos curtos de Tolstói