Quando a pintura vai buscar diálogo com a poesia - Carlos Drummond de Andrade e Yara Tupynambá



Já outro dia examinamos por aqui o lado oposto desta relação, isto é, quando a poesia vai buscar diálogo com a pintura. E também a partir de obra de Carlos Drummond de Andrade. Trata-se de "Quixote e Sancho" poemas publicados em As impurezas do branco e as ilustrações de Candido Portinari. Agora, em questão, o extenso poema narrativo “A mesa” e o trabalho pictórico de Yara Tupynambá.

O poema foi publicado pela primeira vez em 5 de fevereiro de 1951 como livro editado pela Hipocampo e ilustração de Eduardo Sued. O livro de páginas soltas teve uma tiragem curta, apenas setenta exemplares numerados e assinados pelo autor. No mesmo ano, “A mesa” foi incluído no livro Claro enigma, editado pela José Olympio.

Carlos Drummond de Andrade, o de braços cruzados em pé à esquerda, acompanhado da família com parte dos irmãos. A foto é de 1915.

O tema central do poema é a família do poeta. De única estrofe, Carlos Drummond de Andrade convoca o pai, a mãe, os treze irmãos e os possíveis netos e bisnetos (hoje lidos como a filha Maria Julieta) para um grande jantar mineiro. Escrito pela comemoração dos noventa anos de seu pai, que falecera em 1931, aos setenta anos, o poema de cunho narrativo recupera situações familiares tecidas pelo mais aguçado sentido lírico.

Na comemoração, Drummond imagina o pai já um tanto destituído da agilidade de quando moço e, portanto, mais afeito a receber os filhos e fazer um balanço sobre a vida deles; o pai não chegado a festas aqui protagoniza uma recepção sem delongas – aberta à fartura da conversa, da comida, da bebida, tudo, levando os do evento a caírem em confidencialidades. “Segredos personificados e entrelaçados ao redor do pai, que sussurrava nos ouvidos de cada um a intimidade reveladora” – conforme alude Ozório Couto para uma edição especial sobre o poema seguido do trabalho de Yara Tupynambá.

Foi na década de 1980, que a artista plástica mineira dedicou-se à tarefa de traduzir através da pintura a narrativa de “A mesa”; projeto recebido com grande carinho pelo próprio Carlos Drummond de Andrade. “Querida Yara, que alegria saber que estes versos ganharão cor, volume e vida graças a você e à sua arte!” – redige o poeta em dedicatória às margens do poema numa edição de 1979 da Antologia poética reproduzida no livro em questão.

Os dois mantiveram longa relação de amizade apresentada no andamento de uma seção intitulada cartas; ora Drummond agradece-lhe pelos mimos recebidos (um lampião, os vasos e os santos de argila do Vale do Jequitinhonha, fotos pessoais) ora são agradecimentos à medida que acompanha a feitura do trabalho de Yara (“Você não poderia causar-me alegria maior do que essa de dar a meus versos representação plástica.”) ora são queixas sobre a falta tempo e os afazeres (“ando num sufoco danado de coisas amontoadas, que tenho de fazer e só faço pela metade.”)

Edição que compila o poema "A mesa" mais as telas de Yara
Tupynambá. 


Ao todo foram 20 telas que Yara Tupynambá concebeu (ao menos as que foram publicadas na edição de 2011 pela adi edições com organização e textos de Ozório Couto). Se o poema de Carlos Drummond de Andrade alcança um êxtase de força estética e simbólica na descrição de uma suposta festa, o trabalho de Yara, diz Ozório Couto, “nos envolve numa metáfora além do que se possa imaginar no próprio poema em si.” De fato, as imagens construídas pela artista plástica alcançam certo lugar do inconsciente drummondiano e traduz a fusão entre imaginação e história perseguida pelo poeta; mas, com uma sensibilidade outra – a de quem observa; situando-se, assim, como uma narradora da experiência narrativa do poeta. Na elaboração dessa relação com o poema, Yara não se fecha ao imaginário do poema, mas busca alusões de outras passagens da literatura de Drummond como bem nota Ozório quando diz sobre a “perda de vontade” do poeta de estar em Itabira transformada numa fotografia pendurada na parede, recobrando, no caso, relação direta com o poema “Confidência do itabirano”.

Abaixo preparamos um catálogo com parte dessas telas mais o poema de Carlos Drummond. Antes, deixamos apenas uma curiosidade histórica acerca da mesa retratada pelo poeta mineiro, copiada as notas de Ozório Couto. Ao se mudar com a família para Belo Horizonte, o pai de Drummond vendeu o casarão onde viveu o poeta mineiro (até sua saída de casa) e a família. Tudo o que havia na casa foi incluído na venda, menos a mesa que ficou com a filha Emília de Caux. Ela, depois, vendeu o móvel. A casa em Belo Horizonte recebeu outra mesa – feita sob encomenda, com seis metros, de jacarandá da Bahia. Depois da morte de Carlos de Paula – este é o nome do pai do poeta – a mesa foi repassada para o filho mais velho que repassou para a filha mais nova e esta vendeu em 1980 para as Amigas da Cultura de Belo Horizonte. Drummond ainda voltou a tematizar o objeto no pequeno poema “Liquidação”, publicado em Boitempo, em que faz alusão à venda da casa, com todos os móveis.





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