A pintura de Lena em diálogo com o feminino na literatura de José Saramago

Por Pedro Fernandes

© Lena Gal. Humilhação dolorosa. 130x97. 

Uma rápida visita ao currículo de Lena Gal nos colocará diante de algumas exposições cuja matéria está pautada no feminino e suas representações, tais como Mulheres, terra-mãe e O feminino insular. É do catálogo que compõe a primeira exposição que li a tela “As xamãs” num diálogo tão próximo e tão forte com uma cena de Memorial do convento, de José Saramago. Foi esse contato que me pôs em contato com sua arte; Lena sempre muito solícita não hesitou, na ocasião, em ceder esse trabalho para compor a capa de Retratos para a construção do feminino na prosa de José Saramago, um extenso ensaio publicado em 2012 cujo interesse é de lançar alguma luz, por parca que seja, sobre o tema da representação do feminino na obra saramaguiana.

O contato com o ensaio e, logo depois com a literatura do Prêmio Nobel produziu na artista o desejo de estreitar esse diálogo a princípio individual de alguns temas de sua pintura. Esses dois encontros fez nascer na artista a necessidade de ir ao que ela chama de essência da representação a título de enformar e avivar o traço entre as representações produzidas pela literatura e as lidas pelo ensaio. Nessa zona de interstícios, a linguagem plástica ainda se alimenta do próprio movimento subjetivo da artista e se confunde com sua história da arte e a vida. Lena Gal, como tenho designado, tentou debruçar-se no interstício a fim de produzir o que ela própria designou pelo título de O feminino na escrita de José Saramago.

© Lena Gal. Mulheres Marias. 116x89

Há no título desse conjunto de pinturas ao menos duas questões que quero apresentá-las nestas notas: uma delas diz respeito a humildade da própria artista em designar seu exercício imagético e imaginativo como representação da escrita. De certa maneira, a pintura e a literatura são duas formas bastante aproximadas de representação; apenas que uma pinta com palavras o que a outra pinta com tintas. Essa é uma observação viva na própria literatura de José Saramago, mais especificamente, nas reflexões costuradas pelo pintor de retratos H. em Manual de pintura e caligrafia. Tomado pela repetição da técnica da arte de eternizar rostos, H. tentará se desvencilhar da mesmice, ensaiando-se através da escrita. O exercício de Lena Gal, embora não seja ela uma pintora de retratos, é o contrário. Sair do emaranhado de palavras para dizê-las com tinta e pincel.

Outra é não deixar-se ficar acima da representação maior que lhe move à pintura: a obra de José Saramago. Tenta com o escritor, numa tomada de posição que não é nem de esconder-se à sua sombra nem a de elevá-lo a um pedestal de glória que, creio, ele próprio não gostaria porque sempre me pareceu alguém dado à simplicidade e não chegado à vaidade que corrói muita das existências de alguns grandes nomes, vai tentar dar luz a esse inventário de outras formas de ser mulher. É quando vem em boa hora, uma frase do próprio Saramago recolhida em As palavras de Saramago por Fernando Gómez Aguilera – “Estou inventando mulheres, ou talvez, outra forma de ser mulher”.

Para Lena Gal, este trabalho é exercício de inspiração. E é exercício de outra forma de ser mulher. Os silêncios, os sentidos do olhar, o amor, a intuição, a sensualidade, a violência sobre o corpo da mulher, o assédio sexual, a cumplicidade feminina, o despertar para a consciência do ser-mulher são tornadas tonalidades para as formas extraídas do negro das palavras para o colorido das telas. O feminino na escrita de José Saramago é um caudal de sensações. A artista plástica busca pelo seu interior trazer à superfície emoções, alegrias, tristezas, materializando-se em texturas e cores diversas os sentimentos ora nascidos em ora provocados por personagens como Blimunda, de Memorial do convento ou a mulher do médico, de Ensaio sobre a cegueira – dois dos romances mais significativos da bibliografia saramaguiana e pontos centrais na leitura proposta em Retratos

© Lena Gal. Blimunda Blimunda minha filha. 116x89

Como exercício de recriação artística, coloca na mesma cena personagens que, no plano dos romances nunca tiveram a oportunidade de se conhecer, mas permanecem irmanadas no sentimento sobre o mundo; penso para o caso em telas em que se apresentam Blimunda, a mãe e a rainha D. Maria Ana Josefa. Ou se aproxima de cenas há muito já representadas por outros artistas e introduz nelas novas forças de sentido: é assim com a cena da crucificação de Jesus Cristo inspirada d’O evangelho segundo Jesus Cristo ou com outra figura para Lilith. Ou reconstrói personas e cenas da narrativa saramaguiana. Além de cenas d’O evangelho, ficamos diante de cenas de Memorial do convento como a incansável busca da mãe de Blimunda pela filha e o diálogo costurado pelas formas do olhar; o encontro de Blimunda com Baltazar sendo queimado num auto-de-fé e a recuperação de sua vontade. Ou de Ensaio sobre a cegueira: a cena de assassinato do cego mal da camarata; do cão que lambe as lágrimas da mulher do médico; o estupro de uma das mulheres na camarata dos cegos maus; o banho das mulheres.

O feminino na escrita de José Saramago, portanto, refaz por outra via que não a da palavra, as imagens sobre o feminino sugeridas pela escrita do romancista, escrita que, para além do Manual de pintura e caligrafia conversou igualmente com as artes plásticas – penso na abertura d’O evangelho segundo Jesus Cristo, por exemplo, quando o narrador reconstrói a cena pintada por Albrecht Dürer  ou mesmo a plasticidade oferecida pela própria narrativa. À sua maneira, a obra se reinventa, vai logrando outras possibilidades de ser vista e de ser lida.

Como redigi para o catálogo que acompanha a exposição e para outro texto a ser publicado em breve também acompanhado por telas da artista plástica, Lena desvela um duplo manto de sentidos. Não é apenas sobre o meu discurso produzido pela leitura da obra saramaguiana; é a aproximação simultânea de três formas de interpretação, a dela própria, a do escritor e a do ensaísta. Cada tela desnuda num inventário muito próprio das imagens, um imaginário que se inscreve numa zona brumosa não captável pelo verniz da palavra; isso num mesmo instante em que se alimenta dessa seiva que contorna os sentidos e é matéria nutritiva para as imagens desenhadas pelo escritor português capaz de produzir retratos únicos para a mulher. Um apelo, portanto, aos sentidos da visão, esta que tanto foi exercitada pelo próprio Saramago para rever o que nos cerca. 

Comentários

Lília Tavares disse…
Parabéns, Pedro Fernandes, por esta feliz menção ao trabalho da pintora Lena Gal em prol do diálogo artístico entre a Escrita, neste caso de Saramago, e a arte representativa dos modelos femininos, encimada com valor em Lena Gal.
Esta exposição, actualmente, nos Açores, merecia um lugar, como a Fundação José Saramago, onde pudesse ser observada, relacionada e apreciada no Continente. Merecia que se fizesse um contacto com Pilar del Rio e seus colaboradores para que não passasse despercebido este valor na cultura portuguesa. Lena Gal merece-o e a sua relação com a Escrita, nomeadamente a Poesia, tem sido objecto do nosso interesse. Partilharei este artigo em 'Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen' e em 'Poesia com Artes'. Parabéns!
Lília Tavares

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