sexta-feira, 20 de junho de 2014

Bolítica


Por Décio Pignatari




Há dez anos atrás, no começo da primavera, atravessei a Mancha rumo à Inglaterra, em companhia de um inglês e um israelense. Este lutara contra os nazistas, no exército de sua majestade britânica, e perdera as duas pernas dando combate aos árabes, nas lutas pela independência de seu país. Não era judeu – era israelense, fazia questão de frisar, mostrando um certo orgulho e uma certa irritação na necessidade que sentia de afirmar sua nova nacionalidade.

O outro era um operário de volta das férias, velho e bem humorado militante do Partido Comunista inglês. Com não menor orgulho, exibia sua carteira de filiação, datada de 1935.

No meio da travessia, a barcaça começou a jogar; o israelense não podia manter-se de pé, no convés: penoso demais. Ajudamo-lo a descer para o bar, com as suas três pernas mecânicas (uma sobressalente que carregava numa caixa) e voltamos para cima, o inglês e eu, rumo a um estranho bate-papo, entre solavancos e bacias desbeiçadas, lascadas, de ágate, espalhadas pelo chão, sinistramente convidando a embrulho-de-estômago e a vômitos.

O velho súdito de Sua Majestade era uma bola. Passou o tempo todo contando piadas mais do que irreverentes sobre o casal real e – a certa altura, a uma observação minha, de cujo teor não me recordo – respondeu:

– Não adianta: você dorme, você come, você ama...tudo é política!

Por motivos óbvios, coloco “ama” onde ele, em inglês, colocou a palavra certa e concreta – o desbocado. Retribuí o prazer da companhia e a lição cedendo-lhe os meus direitos sobre a garrafa de uísque a baixo preço, na hora do desembarque. A última visão que tive dele, já naVictória Station, foi a de duas saliências nas nádegas rebolando no meio da multidão: duas garrafas de um-quarto, uma em cada bolso traseiro da calça.

Sabemos todos que o trivial da vida esportiva é condimentado por fofocas, futriques, politiquices, politicagens e politicalhas – como dizia mestre Ruy Barbossa; digo – o dr. Ruim Verbosa; melhor – o dr. Rui Barbo Ousa; isto é – o eminente Rio Barbosa; vale dizer – o legalíssimo Rui Barbosa; enfim – o Águia de Haia e Mucama.

Já o sr. Medo da Onça Faisão: digo – o nobre deputado Emenda Onça Falação: enfim – o dr. Mendonça Falcão prefere librar-se nas altas esferas do que ele julga ser a política internacional. E acaba de comunicar ao dr. João Havelange, presidente da CBD, que não cederá jogadores paulistas para o selecionado nacional que deverá enfrentar o da União Soviética nos dias 4 de julho e 14 de novembro próximos. Alega o referido mentor da FPF que não pode alterar a tabela do campeonato paulista e, portanto, não pode encontrar datas que permitam a cessão dos craques paulistas para aqueles compromissos.

Isto significa que a seleção brasileira terá de se apresentar desfalcada naqueles importantíssimos ensaios internacionais (o time da URSS pode ser um sério desafiante às nossas tripretensões), simplesmente porque o dr. Falcão não encontra novas datas para um XV de Novembro vs Esportiva, ou um Juventus vs Ferroviária – sem falar nos grandes clássicos, que são transferidos, por acordo mútuo, assim que chova um pouco mais!...

O caipirismo mental – político e esportivo – conduz ao caiporismo. Se as coisas começam desse jeito, nada mais dará sorte nem certo, em nosso futebol. Afinal de contas, ninguém tem culpa se o dr. Mendonça já teve a sua oportunidade de conduzir a nossa delegação numa excursão que ficou famosa pelos resultados deprimentes.

Imaginem agora se calha de o Brasil vir a ser derrotado pela URSS, na Inglaterra, em 1966 – já pensaram no bode que vai dar? Será um tal de IPMs para cima de jogadores, preparadores, massagistas e roupeiros, um tal de futebol “altamente comunizante”, um tal de “em defesa dos mais altos princípios morais e cristãos da família brasileira” – e um tal de reeleições, quivoticontá.

O tempo de fazer média com a bandeira nacional já passou. Pode ser um patriótimo. Isto não nos obriga a ser patriotários: mandaremos brasas, brasões e brasis toda vez que joões- mendonças-falcões se afoitarem a rasteiríssimas bolitiquices.

Pode ser que o meu anônimo amigo comunista inglês não tivesse razão de todo: mas tinha senso de humor. O dr. João Mendonça Falcão não tem nem uma, nem outra coisa.


* Décio escreveu crônica sobre futebol durante algum tempo na Folha de S.Paulo; e foi demitido por causa de um texto com interpretação dúbia. Numa entrevista para o Roda Viva, da TV Cultura, Décio comentou o episódio: "O Cláudio Abramo [(1923-1987) jornalista que foi secretário de redação do Estado de S. Paulo em 1953 e que em 1963 passou a ser chefe de reportagem e parte do conselho editorial da Folha de S.Paulo] que estava lá e tal, soube que eu gostava muito de futebol - joguei 30 anos de futebol na várzea -, me chamou e falou:  “Eu quero alguém que venha de fora e fale do futebol, mas faça uma ligação com outras coisas” e tal. E foi realmente muito interessante. Durou exatamente 26 dias, era fevereiro [risos] e, num dado momento, eu escrevi uma crônica onde eu imaginei o Pelé ensinando alguns lances de futebol para umas moças suecas que queriam aprender futebol. Então ali eu usava termos estritamente de descrição futebolística e aquilo, claro, tinha todo um lado erótico, maroto, não é? “Não fazer cruzamentos pelo alto à boca da pequena área”, essas coisas... E o negócio de... Usando todo o jargão da narração futebolística com um sentido ambíguo e dúbio. Isso foi escandaloso naquele tempo – que era impossível em 1965, né? -... “Matar a bola no peito”, essas coisas desse tipo e criou-se um problema lá dentro e eu, quando fui um dia entregar minha crônica, estava cortado, eu estava despedido.




Narrador em amadurecimento


Por André Albert

Até agora, os quatro romances de Chico Buarque: Leite derramado, Benjamim, Estorvo e Budapeste.


Chico Buarque é compositor ou é escritor. Nunca os dois ao mesmo tempo. Cada livro novo é uma imersão numa rotina metódica. O confortável apartamento do Leblon, com uma magnífica vista que vai do Arpoador até Niterói, é trocado por outro, mais espartano, no andar de baixo. Lá é o retiro onde o escritor assenta os pensamentos que surgem em longas caminhadas pela cidade.

Andarilho como quase todos os protagonistas de seus livros, Chico tem suas melhores ideias enquanto caminha pelas ruas cariocas ou de Paris, onde mantém uma segunda residência e para onde foge se é preciso apressar o passo da escrita. o final da tarde é o momento em que se senta para escrever. A atividade, às vezes, adentra a madrugada, num lento exercício de lapidação. Na opinião do amigo e também escritor Eric Nepomuceno, “uma espécie de Penélope que desfaz hoje o feito ontem, não à espera do improvável Ulisses, mas da palavra exata”.

Obcecado pelos termos mais apropriados para o que quer exprimir, Chico Buarque tem fixação por dicionários. Ao escrever seus textos, consulta sempre os cinco volumes do dicionário Caldas Aulete e o Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, dentre outros. O violão? Fica num canto, intocado, até que o livro esteja finalizado, editado e lançado. Durante a concepção do terceiro romance, Budapeste, o instrumento foi deixado de lado por dois anos e dois meses – tempo em que se dedicou exclusivamente ao novo título. O editor Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, diz que a demora compensa: “Mudamos muito pouca coisa nos originais, é a menor margem de intervenção da editora”. O retorno – de crítica e principalmente de vendas – confirma: juntos, os quatro romances do escritor venderam perto de 600 mil exemplares só no Brasil. O mais recente, Leite derramado (2009) atingiu a marca de 160 mil exemplares vendidos em apenas oito meses.

Estorvo – polêmico e premiado

Cena de Estorvo. Lançado em 2000, o filme de Ruy Guerra ainda chegou a participar do Festival de Cannes.

Algo estava errado com Chico Buarque naquele início de década de 90. A empatia com o violão não era a mesma. No entanto, jorravam muitas ideias em sua cabeça. Era hora, finalmente, de botá-las no papel. Após finalizar o que viria a ser o primeiro capítulo de Estorvo (1991), seu primeiro romance, Chico telefonou para Luiz Schwarcz. “Foi o único livro que ele me apresentou sem estar pronto. Ele me contou que estava querendo escrever algo, mas estava ocupado”, diz o editor. Schwarcz não interveio em nada; apenas pediu que prosseguisse. Outro que teve acesso às primeiras páginas do romance foi o escritor Rubem Fonseca, Zé Rubem, como Chico o chama, fez algumas sugestões. E assim Chico Buarque deu prosseguimento à história de “Eu”, o errático protagonista de seu romance de estreia.

O narrador-personagem acorda com uma misteriosa visita batendo à sua porta. Pelo olho mágico, ele vê quem o espera, mas não se lembra exatamente de onde conhece aquele homem. A única certeza que tem é a da fuga. Daí em diante, acompanha-se a busca de um indivíduo desgarrado, solitário e um tanto alucinado por aqueles com quem deixara de ter contato: a irmã milionária, a mãe ausente e conservadora, a ex-mulher e o sítio da família, transformado em terra sem lei por traficantes de drogas.

Originalmente o livro foi denominado Olho mágico, mas o escritor não estava satisfeito. Então, a palavra “estorvo” foi “pescada” de um trecho da obra – e devidamente substituída – para se transformar em título. Pensando num possível preconceito com o novo autor, por ser um compositor de renome, a editora apresentou a obra a intelectuais como o poeta José Paulo Paes e o filósofo Benedito Nunes antes de lançá-la. Chico também tomou o cuidado de se expor o mínimo possível no período do lançamento, em novembro de 1991. Nem sequer ficou no Brasil: foi para Paris e esperou alguns meses para dar entrevistas sobre o assunto.

As opiniões na época se dividiram. De um modo geral, a crítica acadêmica cobriu Estorvo de elogios, diferentemente dos jornalistas, que não se empolgaram com a narrativa lenta e incômoda. No entanto, estes concordaram com os méritos do livro de construção da linguagem. A opinião do jornalista e escritor Marcelo Coelho, sintetiza essa posição: “Estorvo vale mais pelo que descreve do que pelo que narra”.

Críticos literários como Roberto Schwarz assinalaram que o livro fazia um retrato de dissolução de fronteiras sociais do Brasil daquela época. Em texto para a revista Veja, ele destaca que o protagonista de Estorvo transita entre o universo burguês de sua família e a marginalidade fluidamente. Além disso, mostra os personagens de todas as classes conscientes do apelo da imagem na sociedade de hoje. Nas palavras do crítico, a personagem principal é “não menos anômala e acomodada no intolerável que as faunas do luxo ou do submundo”. Ricos e marginalizados unidos pela desilusão das utopias de décadas anteriores e pela erosão da ética. O “estorvo” é de mão dupla: o protagonista, deslocado da sociedade, que incomoda seus familiares; e o estado quase anômico desse meio social, no qual “Eu” não encontra onde se encaixar.

O retorno do público foi imediato. Em pouco mais de um mês o livro já havia vendido cerca de 100 mil exemplares. Um sucesso impulsionado pela visibilidade do compositor. Muitos fãs, no entanto, estranharam o tom desiludido da história e o desenvolvimento inusitado da trama. Ao diário francês Libération, Chico confessou, em 1998: “As pessoas me dizem: ‘Eu comprei seu livro pensando em suas músicas. Não gostei nem um pouco’”. Em artigo para o jornal O Estado de São Paulo, a professora de Literatura Brasileira da Unicamp Marisa Lajolo tentou explicar essa reação negativa supondo uma pergunta na cabeça desses leitores: “Aliás e sobretudo: qual é a história?”

Amigo e colaborador de longa data de Chico Buarque, o cineasta Ruy Guerra adaptou o romance par ao cinema. O filme Estorvo, lançado em 2000, foi coproduzido com Cuba e Portugal e exibido no Festival de Cannes. A recepção da crítica foi morna. Do público, nem isso. A adaptação de Ruy Guerra foi ainda mais radical na aridez. A câmera é errática, confusa. Línguas e locações são misturadas. Parte das cenas foi gravada no Rio e outra parte em Havana, capital de Cuba. O protagonista é vivido por um cubano, Jorge Perrugoría, e as longas narrações em off são feitas pelo próprio Guerra, que é moçambicano.

Quanto ao livro, apesar de toda a polêmica, foi vencedor do Prêmio Jabuti em 1992 e gerou expectativas sobre o futuro da carreira literária de Chico Buarque. “Sinto angústia e prazer quando escrevo, mas gosto”, foi uma das poucas declarações que o autor fez a respeito na época. Anos mais tarde, em entrevista à revista Caros amigos, completou: “Meu maior prazer é ler o que escrevi. Além do prazer da leitura, alimenta a sua vaidade – ‘fui eu que escrevi isso’. O momento mesmo de escrever não é tão prazeroso assim”.

Benjamin – o que menos agradou

Cleo Pires e Paulo José em cena de Benjamim. O romance de Chico Buarque ganhou as telas em 2004


Depois do furor do lançamento de Estorvo, Chico retornou à música e lançou Paratodos em 1993. Mas o segundo romance não demoraria a vir. Em entrevista a Carlos Calado para a Folha de São Paulo em março de 1994, Chico admitiu que havia um desejo de se dedicar à literatura ao final da temporada de shows.

Lançado em 1995, o romance Benjamim teve uma repercussão bem mais discreta do que Estorvo. Tanto as críticas da época como as retrospectivas o consideraram uma “obra menor”  - especialmente se comparada ao livro posterior, Budapeste. Os mais ácidos, como Wilson Martins, em O Globo, chegaram a considerar Benjamin um “romance amador”. As vendas também foram bem menos significativas: quase metade das de Estorvo.

Escrito em terceira pessoa, Benjamim abre com o protagonista, Benjamim Zambraia, esperando morrer fuzilado. Como ele chegou a essa situação só se saberá ao final do livro. Para isso, recorre-se ao flasback para contar o encontro de Benjamim, um ex-modelo fotográfico, com Ariela Masé. A bela jovem faz o protagonista se lembrar de Castana Beatriz, um amor da juventude que morreu no período da ditadura militar. Obcecado, Benjamim passa a acreditar que Ariela seria a filha deixada por Castana e faz tudo para se aproximar dela. Isso acaba conduzindo-o ao destino trágico anunciado na cena inicial. “Eu tinha medo de Benjamim ser uma continuação de Estorvo. Me coloquei algumas condições: fugir da primeira pessoa, dar nomes aos personagens, tentei outro tempo verbal”, explica o autor.

Mas é quase inevitável fugir das comparações. A narrativa não linear, iniciada em flashback, não era uma novidade nos romances de Chico. Augusto Massi em ensaio para a revista científica Novos Estudos Cebrap, escreveu que Estorvo também não seguia a ordem cronológica. Do modo como o capítulo inicial foi construído, fica a impressão de sequência no tempo. Porém, ao notar que figura vista pelo olho mágico aparece rapidamente mais tarde, é possível perceber que a situação descrita nas primeiras páginas de Estorvo é na verdade posterior às cenas que vêm em seguida. Outra semelhança é justamente esse deslocamento intenso do personagem, que, no entanto, não sai da imobilidade. Ambos os protagonistas continuam deslocados na sociedade e incapazes de se apossar ou de atingir alguma meta. São também claramente decadentes, pessoas que já viveram dias mais gloriosos. Como ex-modelo de publicidade, Benjamim vive a eterna frustração de ter seu rosto reconhecido, mas apenas pela aparência.

No campo das diferenças, vale destacar que o humor nesse romance aparece mais explicitamente na história. Além disso, como o jornalista Marcelo Coelho apontou em crítica da época, a trama de Benjamim é bem mais clara e o desenrolar da história não é tão sufocante quanto no livro anterior.

Em entrevista ao Jornal do Brasil, Chico diz que, por ser forcado na visão de cada personagem, Benjamim lembra as estratégias narrativas do cinema e tem uma aparência objetiva. É claro que é falsa, porque o ponto de vista fica segmentado de acordo com o personagem. José Paulo Paes e outros comentadores do livro fazem um paralelo com a estratégia descritiva do noveau roman francês, embora o próprio Chico prefira admitir uma inspiração nos filmes da nouvelle vague dos cineastas François Truffaut e Jean-Luc Godard. As descrições detalhadas, hiperrealistas, focam tanto no personagem que acabam distorcendo a realidade, fazendo algumas ações parecerem ilógicas. E essa é uma das principais críticas feitas a Benjamim: o enredo dependeria em excesso do acaso.

O segundo livro de Chico também ganhou uma versão para os cinemas em 2004. Dirigido por Monique Gardenberg, o longa acabou tendo repercussão menor do que a estreia cinematográfica de Cleo Pires. Muito segura nos papeis de Castana e Ariela, a atriz se entrosou bem com o experiente ator Paulo José e roubou quase todas as cenas.

Budapeste – sucesso inesperado

Cena de Budapeste. Dirigido por Walter Carvalho o filme é de 2009.
Chico Buarque, certa vez, declarou numa entrevista ao músico João Nogueira: “Benjamim deverá vender menos que Estorvo, e o meu próximo livro provavelmente vai vender menos ainda, até cair na realidade do público de um escritor de uma literatura não é fácil, que não pretende ser popular”. Ele errou a previsão: Budapeste faria um sucesso estrondoso. Foram 280 mil exemplares vendidos só no Brasil e mais um Prêmio Jabuti, em 2004.

A ideia inicial era totalmente distinta: o protagonista seria um arquiteto, a língua estrangeira seria inventada... Mas algo não estava se encaixando. O autor praticamente desprezou os três capítulos que havia escrito. Discou para seu editor, Luiz Schwarcz, e pediu referências de livros sobre ghost-writers. Decidiu ambientar metade da trama em Budapeste e descrevê-la em minúcias – sem jamais ter pisado na capital húngara.

Mais de dois anos depois, o romance ficou pronto. “Budapeste é mais bem humorado e surgiu um pouco por acaso. Isso deveria ser um exemplo para entenderem a obra do Chico Buarque mais como do acaso e menos de programa, ou seja, com uma mensagem subjacente”, diz Schwarcz.

O irônico José Costa, protagonista da história fica um dia inteiro preso em Budapeste devido a um pouso inesperado, na volta de um congresso de escritores anônimos. Ele é um ghost-writer, uma pessoa contratada para escrever por outra, seja um discurso para um ministro, seja um romance.

Acomodado em sua rotina anônima e desinteressado em seu casamento, José Costa se fascina com aquela cidade diferente, “amarela”, e aquela língua incompreensível: “Sem a mínima noção do aspecto, da estrutura, do corpo mesmo das palavras, eu não tinha como saber onde cada palavra começava ou até onde ia. Era impossível destacar uma palavra da outra, seria como pretender cortar um rio a faca.”

O escritor Marcelo Rubens Paiva resume a oposição entre Costa e sua esposa, Vanda, uma jornalista bem-sucedida: “O narrador é um gênio não reconhecido. Namora seus artigos solitariamente e considera a mulher uma papagaia, porque lê as notícias sem saber do que fala. As diferenças: enquanto Costa atende clientes em busca de textos anônimos, a mulher sobe na carreira, muda-se para São Paulo e vira uma estrela”. Para piorar, O Ginógrafo, livro que escrevera ara o alemão Kasper Kraube, se torna um campeão de vendas. Todos os louros vão parar nas mãos de Kraube, claro.

A fuga dessa realidade incômoda é Budapeste. Lá, conhece Kriska, que se torna sua professora de húngaro e sua amante. É assim que o jogo de duplos se completa: Rio e Budapeste, português e húngaro, autor e não autor, Vanda e Kriska. Inevitável lembrar também uma situação passada por Chico nos anos 70: perseguido pela ditadura, lançou músicas sob o codinome Julinho de Adelaide, personagem que teve biografia e mesmo foto de uma mãe inventada e disseminada até a farsa ser descoberta.

Budapeste é o marco da maturidade literária de Chico Buarque. Sem abrir mão dos jogos de palavras, dos narradores ambíguos e da mistura de realidade, turvação e imaginação, o escritor criou uma trama com elementos mais convencionais, que conquistam o público: amor, dilemas profissionais, escolhas. O acaso determinou a aproximação de José Costa e Budapeste. Porém, o protagonista não é exclusivamente levado pelo inesperado.

Em maio de 2009, estreou a versão cinematográfica de Budapeste, dirigida por Walter Carvalho. O público foi razoável para um filme nacional – 100 mil pessoas compareceram às salas de cinema. Porém, a expectativa dos produtores era atingir 280 mil pessoas. Como os outros filmes adaptados de obras de Chico, Budapeste recorre bastante ao recurso off. “O Walter queria mais, eu quis só pontuar. A vontade é de usar as palavras do Chico, por receio de perder aquela beleza”, conta Rita Buzzar, produtora e roteirista do filme.

Dentre os acréscimos da adaptação, houve uma feliz coincidência: ao procurar locações, o cineasta Walter Carvalho descobriu a existência da estátua Escritor anônimo em Budapeste. Ela era dedicada ao autor do Gesta Hungaroroum, uma das primeiras obras escritas no idioma húngaro.

Não foi só o público que prestigiou em massa Budapeste. Escritores como Luis Fernando Verissimo, Luiz Alfredo Garcia-Roza e o português José Saramago publicaram artigos na imprensa brasileira parabenizando Chico Buarque por sua nova obra (leia artigo abaixo).

 * Texto publicado inicialmente numa edição especial da extinta Revista Bravo! dedicada a Chico Buarque.



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Haverá universos paralelos? Perante as variadas “provas” apresentadas ao tribunal da opinião pública pelos autores que se dedicam à ficção-científica, não é difícil acreditar que sim, ou, pelo menos, estar de acordo em conceder à temerária hipótese aquilo que não se nega a ninguém, isto é, o benefício da dúvida. Ora, supondo que realmente existam esses tais universos paralelos, será lógico e creio que inevitável ter de admitir igualmente a existência de literaturas paralelas, de escritores paralelos, de livros paralelos. Um espírito sarcástico não deixaria de recordar-nos que não se necessita ir tão longe para encontrar escritores paralelos, mais conhecidos por plagiários, os quais, no entanto, nunca chegam a ser plagiários de todo porque alguma coisa da lavra própria se sentem na obrigação de pôr na obra que assinarão com o seu nome. Plagiário absoluto foi aquele Pierre Menard que, no dizer de Borges, copiou o Quixote palavra por palavra, e mesmo assim o mesmo Borges nos advertiu que escrever o termo justiça no século XX não significa a mesma coisa (nem a mesma justiça) que tê-la escrito, no século XVII... Outro tipo de escritor paralelo (também chamado de nègre ou, mais modernamente, ghost) é aquele que escreve para que os outros gozem a suposta ou autêntica glória de ver o seu nome escrito na capa de um livro. Disto trata, aparentemente, o último romance de Chico Buarque de Holanda, e se digo “aparentemente” é porque o escritor “fantasma” cujas grotescas aventuras vamos acompanhando divertidos, se bem que ao mesmo tempo apiedados, é tão-somente a causa inconsciente de um processo de repetições sucessivas que, se não chegam a ser de universos nem de literaturas, sem dúvidas o serão, inqueietantemente, de autores e de livros. O mais desassossegador, porém, é a sensação de vertigem contínua que se apoderará do leitor, que em cada momento saberá onde estava, mas que em cada momento não sabe onde está. Sem parecer pretendê-lo, cada página do romance expressa uma interpelação “filosófica” e uma provação “ontológica”: que é, afinal, a realidade? Um livro existe, deixará de existir, existirá outra vez. Uma pessoa escreveu, outra assinou, se o livro desapareceu, também desaparecem ambas? E se desapareceram, desapareceram de todo, ou em parte? Se alguém sobreviveu, sobreviveu neste, ou noutro universo? Quem serei eu, se tendo sobrevivido, não sou já quem era? Chico Buarque ousou muito, escreveu cruzando um abismo sobre um arame, e chegou ao outro lado. Ao lado onde se encontram os trabalhos executados com mestria, a da linguagem, a da construção narrativa, a do simples fazer. Não creio enganar-me dizendo que algo novo aconteceu no Brasil com este livro.