A adaptação de clássicos da literatura brasileira para a HQ

A HQ Grande Sertão (detalhe)

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Não é a primeira vez que um romance clássico da literatura brasileira tem servido ao gosto dos quadrinistas ao ponto de levá-los à adaptação para a história em quadrinhos. Há, inclusive, editoras que têm trabalhado com a ideia de transpor para o mangá obras consagradas da literatura – proposta, diga-se, de gosto duvidoso, ainda que seja este um gênero que faça a cabeça de muitos leitores. O duvidoso esbarra justamente na compreensão sobre a mutilação do texto original ou no desencontro entre formas de narração.

Logo, é preciso esclarecer a diferença entre a HQ e o mangá. Enquanto noutros países se determinou uma expressão que designa toda e qualquer forma da história gráfica com diferenciação apenas entre a narrativa oferecida ao leitor e aquela oferecida no processo de composição da peça cinematográfica ou a storyboard, ao menos no Brasil, cunhou-se outras terminologias cujo sentido é necessário esclarecer, ainda que, no fim de contas, do que se trata é de uma variação da forma de apresentação de um gênero.

Assim, o mangá é de origem japonesa. Tem o traço próprio que zela pela agilidade e expressividade das personagens e das ações. A leitura é dada de trás para frente. O mangá, seguindo a tradição da grafic novel, a HQ estadunidense, saiu do papel e ganhou movimento nas séries de TV – forma, aliás, que terá elevado seu grau de popularidade entre leitores do mundo inteiro. Nessa transposição do papel para tela, alguns dos mangás perderam outra de sua característica que é o traço em preto e branco.

Já a história em quadrinho combina o desenho e seu colorido. Se o mangá preservou parte de suas características, por aqui, o próprio termo história em quadrinho tem variações próprias – entre o gibi e o termo inglês grafic novel. O primeiro tem uma conotação mais infantil. O traço prima pela simplicidade e as narrativas são de um todo mais simples e breves. Já o segundo, e dessa conotação que melhor se aproxima o termo HQ, tem traço e narrativa melhor elaborada e muito se aproxima da expressividade do mangá. Talvez resida aqui a aproximação mais simpática com a forma de adaptação da narrativa literária e o rebaixamento quando essa ganha forma através do desenho japonês.

Além disso, adaptação para HQ tem uma recepção mais aceite por outras razões e a principal delas, claro, em comunhão com a ideia de melhor elaboração esteja atrelada ao caso de a linguagem em muito se assemelhar à dicção do próprio diálogo construído no romance. Mas adaptações são adaptações e não pode o leitor insistir no erro de tentar estabelecer comparações entre a forma adaptada e a forma original.

De certo modo o quadrinista é como o cineasta que visualiza a força imagética das cenas, da forma e da expressão das personagens e coloca-os em relação até compor a história adaptada. Obviamente que numa pergunta sobre o que é melhor, o romance ou a HQ, soe descabida; as relações são possíveis, evidentemente. Mas compreender um pelo outro é cair na mesma ciranda entre a fonte original e a adaptada. A relação deve privilegiar que o leitor estará diante de duas formas de linguagens e, portanto, tenderá a experiências específicas com texto. Ao priorizar um em detrimento ao outro, a tendência em se guiar pelo que veio primeiro como o original leva facilmente à conclusão, logo responderá o leitor arguto, pelo romance. Essa relação entre formas adaptadas e formas originais dá muito o que falar e se confunde com a mesma discussão entre a obra literária e sua adaptação para o cinema.

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A edição de luxo da adaptação de Grande Sertão: Veredas para a HQ.


Antes mesmo que viesse a lume a edição dos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá de Dois irmãos, adaptação bem recebida pela crítica, claro, por ser desempenhado por duas figuras das mais importantes na cena da grafic novel no Brasil, outras obras literárias de grande envergadura como a de Milton Hatoum, teve o mesmo destino.

Por exemplo, Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. O romance ganhou uma adaptação do gênero com o roteiro de Eloar Guazzelli e ilustração de Rodrigo Rosa. A edição luxuosa da Globo Livros (Selo Biblioteca Azul) cumpre um desafio e tanto! Foi criada para colecionadores com tiragem limitada e possivelmente única de 7 mil exemplares numerados. A editora sublinha ainda, para deleite do leitor colecionador, outros destaques da edição: o colorido das imagens, a lombada com costura aparente, e luva de PVC que constrói um diálogo com a capa. Claro, um exercício de cuidado primoroso com a elaboração gráfica da obra.

Mas o desafio maior, maior do que qualquer exercício da linguagem gráfica, é mergulhar nas mais de seiscentas páginas do texto de 1956, geralmente taxado de leitura complexa, e, na adaptação – processo que visa uma reescrita do texto original – não perder sua essência. Além desse desafio, cumprido à risca pelos envolvidos no projeto, Eloar e Rodrigo sabiam de uma agravante, a possível não-aprovação da família do escritor, ainda detentora dos direitos autorais e muito zelosa (com justa razão) pelo patrimônio construído por Rosa. O gesto poderia ganhar força porque quando vivo o próprio escritor fizera ruir as esperanças de Ziraldo; ele foi o primeiro a se interessar pela ideia de adaptação do Grande Sertão para a HQ.

Eloar Guazzelli traz no currículo a experiência de construir roteiros para o cinema; é também ilustrador e antes de adaptar o romance do escritor mineiro desenhou outros textos literários como o conto “Demônios”, de Aluísio Azevedo e “Um dia de chuva”, um conto incompleto de Eça de Queirós publicado postumamente; e Rodrigo Rosa desenhou Os sertões, a luta – uma adaptação de outro clássico da prosa literária nacional, Os sertões, de Euclides da Cunha. De Guazelli, recebeu não apenas um roteiro, mas um conjunto de imagens que já demonstrava um primeiro plano sobre a obra a ser adaptada. O trabalho de Rodrigo foi captar as imagens e construir à nanquim o traço da obra e escolher as tonalidades com as quais coloriu o texto.

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A HQ Dois irmãos a partir do romance homônimo de Milton Hatoum os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá construíram uma obra própria.


Fábio Moon e Gabriel Bá dispensam apresentações. Têm formação em artes plásticas e desde que criaram o fanzine de quadrinhos em 1997, 10 Pãezinhos, não terão deixado de figurar nas principais de listas de premiações mundo afora. O exercício com a adaptação do texto literário começou com a releitura de O alienista, de Machado de Assis, trabalho pelo qual recebeu o Prêmio Jabuti.

Mas, diante Dois irmãos, a segunda obra de Milton Hatoum, o desafio se firma bem além da adaptação do texto de Machado de Assis. Primeiro, é a dimensão do texto – não estavam mais diante de um conto, mas de um romance. Segundo, o fato de ser o escritor ainda vivo. Claro, ainda que o ele não dê qualquer palpite acerca da adaptação, nunca poderá o adaptador, dizer que tem a mesma liberdade de criação ou que não tenderá a ser influenciado pela sua presença. Pesa sempre, evidentemente, a sombra do escritor.

No caso da releitura produzida pelos dois irmãos, coincidência aliás que terá levado o desafio da adaptação, os quadrinistas, dizem que tiveram total cooperação do amazonense e ela foi mesmo indispensável para a construção de determinadas situações. Por exemplo, desenhar a cidade de Manaus como era no século XX, espaço e contexto em que se passa e a que se refere a narrativa do romance, foi uma dessas construções desafiadoras só vencidas pelo auxílio de Hatoum. E é preciso dizer que, a forma como a cidade se apresenta no romance faz dela, e isso é uma característica da obra do amazonense (como uma certa herança de nomes como o do conterrâneo do Norte Dalcídio Jurandir), uma espécie de espaço-persona. Ruir com esse elemento numa adaptação seria ruir com aquilo que se designa como um dos eixos da essência da obra.

Se Dois irmãos pode ser lido como uma reescritura do mito bíblico de Caim e Abel, ou da relação conturbada entre irmãos e quaisquer sentimentos que perpassem uma situação dessa natureza, numa atmosfera igualmente conturbada da Manaus de outro tempo, esse núcleo estruturante da obra também havia de passar para o texto adaptado. E está lá recontado pela força e expressão da imagem reveladora ainda outras vertentes do romance original – a fineza e a delicadeza dessa relação entre irmãos e de sua inserção no núcleo familiar, o desfecho trágico, e as mediações entre a brutalidade e humor. Yakub e Omar não ganham apenas rosto e forma, renovam-se enquanto força espiritual épica.



O leitor logo se depara com um jogo que, se à primeira vista parece simplista, porque imiscui certa ideia de bem e mal pela oposição do traço claro e escuro impresso logo na capa da obra, logo se revela como uma maneira de estruturar dois universos em divergência e com sutilezas muito além da mera oposição. Até porque a trama que se desenvolve entre os irmãos não é apenas um mero jogo descabido de oposições marcadas, como poderá também parecer ao leitor do romance. Mas é embate, drama entre gerações assinalado por outras componentes. É esse embate a seiva para o enredo construído pelo narrador de Hatoum; e é esse embate preservado no percurso desenhado por Moon e Bá.

Tudo isso para reforçar uma compreensão: os quadrinistas alcançam o propósito caro da toda adaptação – ser forma única da história original porque uma obra independente com estrutura e linguagem próprias e ao mesmo tempo enganar o leitor com uma aproximação fantasiosa, isto é, não verificável pela estrutura e pela linguagem. Não é isso uma correlação entre a imagem feita pelo leitor do romance que se verifica quando diante da adaptação, mas a presença de uma obra na outra, tal como se verifica o texto clássico no interior da narrativa estruturada por Hatoum. Esse percurso confirma a necessidade de o leitor consciente não apenas substituir a leitura do romance pela do quadrinho dada a rapidez da última forma de narrar. Mas, produz em que primeiro se deparar com a HQ a necessidade de entrar em contato com a obra original, mais cedo ou mais tarde. Esse, aliás, é o maior gesto que pode alcançar uma adaptação.

Ligações a esta post:
Leia notas sobre o trabalho de Eloar Guazelli para a ilustração da obra de Eça de Queirós.
Leia sobre o romance Dois irmãos, de Milton Hatoum, aqui.

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