“A teoria de tudo” ou o cliché de tudo o que subjaz ‘pequenos nadas’?



A imperfeição sensível das pessoas faz com que, normalmente, tenham ideias e manias ridículas. Eu não me distingo. Um dia destes, dei por mim a assistir a Teoria de tudo, sobre a vida do físico Stephen Hawking e fiquei fascinada pela capacidade de a sétima arte nos transportar para um mundo mágico. E entendamos que o mais fascinante é a capacidade de tornar mágica a vida de alguém: a vida quotidiana de alguém que tinha tudo para sucumbir ao caos em apologia de uma espécie de tristeza existencial, numa espiral involutiva da ‘era do vazio’. 

E a ridicularidade das ideias que brotaram na minha mente vão ao encontro de todos os clichés.

A verdade é que, independentemente daquilo a que nos encontremos sujeitos por sermos matéria – aquela fragilidade perecível dos átomos de carbono –, o que nos distingue e decide a felicidade e a capacidade infindável de sonhar é a energia anímica que criamos em torno de nós. 

Resumindo: dei por mim mergulhada numa realidade cor-de-rosa em que a inteligência, aliada ao bom humor, torna quase impossível o retorno a uma realidade monocromática, porque é iluminadora.

De mim para mim, fiquei encantada e a pensar se o sucesso não será mesmo uma questão de magnetismo: magnetismo anímico. E é incrível como esse magnetismo flui no cosmos – se seguirmos a terminologia do filme – e se recebe em todos os sentidos, servindo de exemplo a vida pessoal (imersa em sucesso) do Mr. Hawking.

Independentemente do ‘tudo’ da cientificidade da teoria, deu para me perder na ridicularidade de uma espécie de amor anímico em torno da pessoa, visível na antítese de ‘pequenos nadas’ de felicidade e na capacidade transformadora de sonhar e de ir além, sem medo do desconhecido ou do que está por vir. A capacidade de sonhar sem saber do amanhã e de sorrir quando há uma vida com tudo para desabar.

A arte, além de colorir o mundo, é um ‘quid’ transmissor de sentidos em que aflora a sensibilidade: é o que nos faz colorir qualquer nebulosidade envolta em tonalidades cinzentas. A vida do Mr. Hawking, além do filme, é arte: o brilhantismo alegre inspira e faz sonhar!

***

Maria Vaz nasceu em Mirandela a 19 de Setembro de 1990, muito embora tenha vivido toda a infância e início da adolescência em Vila Flor. Aos 11 anos, apaixonou-se pela poesia ao encontrar, por mero acaso, um livro de Alberto Caeiro. A par da poesia e da literatura, é uma apaixonada pelas artes em geral, de entre as quais ressalta a música, dado que tocou clarinete entre os 11 e os 21 anos. Publicou o seu primeiro poema em Março de 2015, numa antologia de poetas portugueses contemporâneos e escreve regularmente no seu blog (“The philosophy of little nothings”). É agora colunista do ‘Letras in.verso re.verso”. Além da escrita, é doutoranda em ciências jurídico-criminais, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, desde finais de 2014.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dez mulheres da literatura brasileira contemporânea

Onze livros para ler na estrada

Dostoiévski, um romântico desgarrado entre a revolução e Deus

Onze obras do teatro moderno e contemporâneo fundamentais a todo leitor

Baudelaire & Poe, Ltda.

O manuscrito em que Virginia Woolf anuncia o seu suicídio

Escritores narcisistas

A arquitetura da cidade como mediadora de leitura

Obras-primas perdidas e felizmente recuperadas

Os melhores de 2016: poesia