Confesso minha afinidade com Alice Munro

Por Emma Rodriguez



“A mesma palavra prazer, havia mudado para mim; costumava pensar nela como uma palavra suave que descrevia uma autoindulgência mais discreta; de repente parecia explosiva, com as três letras da primeira sílaba soltando pressão como fogos de artifícios e terminando na delicadeza da última sílaba, seu ronronar sonhador”. Assim escreve Alice Munro em Lives of girls and women (em tradução livre A vida das mulheres) e leio, releio, sublinho a frase, penso e confesso que, se alguma vez decidisse escrever, gostaria de me parecer com a escritora canadense.

Gosto de seu estilo reflexivo, a conjunção entre a descrição do que se passa por fora e o que está acontecendo dentro das personagens, o paralelismo entre os vales e abismos das geografias descritas e os sobe e desce das emoções, dos estados da alma. Confesso que minha atenção sobre a literatura de Alice Munro começou muito recentemente, também só a conheci há pouco tempo, mas há dois verões que nas viagens levo comigo seus livros, entre o olhar perdido nas paisagens e nos contos sobre as vidas narradas que enriquecem a minha. Dois verões com as páginas de seus livros salpicadas de areia e eu absorta ao nadar em histórias que me pegam pela sua dureza, que me seguem, apesar das lesões causadas, à suavidade do ir e vir das ondas. Há dois verões que recrio imagens, pensamentos desconcertantes, retorcidos, pela capacidade de quem consegue misturar o mais doce com o mais amargo, o belo com o detestável, o inocente com o perverso.

“Minha necessidade de amor havia passado à clandestinidade, como uma dor de dente manhosa”, sublinho a ideia, a comparação. E imagino Alice Munro envolta em silêncios. Não sei porque sempre a introduzo num quadro de Edward Hopper, sentada numa cadeira de balanço frente a uma paisagem árida. Deformação de jornalista, me surpreendo mais de uma vez pensando que perguntas lhe faria se tivesse a oportunidade de entrevistá-la.

De que falaria com esta mulher com fama de esquiva, tão zelosa de sua intimidade como aberta na hora de apresentar-se criativamente. Até que ponto se sentiu uma menina estranha; de que maneira descobriu sua capacidade para reinventar o mundo com a arte das palavras; quando se deu conta de que a vida dos sonhos pode ser mais e mais intensa, mais autêntica, que a marcada pelo calendário da realidade? Muitas das respostas para essas perguntas encontro em Lives of girls and women, um livro feito de retalhos da memória. E amplio na compreensão de parte da sua literatura.
  

Munro se detém onde se forjam os desejos, as inquietudes, os medos; nessa curva da iniciação ao sexo, das primeiras descobertas e decepções. Toca o justo momento em que se decidem os destinos, no ponto em que o rumo de uma vida pode seguir o caminho aparentemente traçado ou mudar para uma direção inesperada. “Que era uma vida normal”, reflete a narradora, relutante a seguir os esquemas, os estereótipos estabelecidos para as mulheres de sua época. É assim ainda em Ódio, amizade, namoro, amor, casamento, por exemplo – um livro com nove contos interessados no corriqueiro, no prosaico, mas elevado à não-banalidade e repletos de figuras femininas em exercício de luta sobre o seu destino.

Nascida em 1931 num vilarejo de população agrícola e pobre de Ontario, Munro fala da menina que foi, com suas carências, seus complexos, suas mentiras e da jovem que se sentia diferente e que soube desde então que tinha uma tarefa especial para contar o mundo que conhecia, o mundo da gente de Jubilee – inesquecível já dentro dos grandes territórios da literatura – essa gente sensível, humilde e tão aparentemente anódina como surpreendente quando se logra apresentar suas fragilidades, a essência insólita, secreta, condensada em toda existência.  

“Chegou um momento em que todos os livros da biblioteca da região não foram suficientes para mim. Necessitava ter livros próprios. Compreendi que a única coisa que podia fazer com a minha vida era escrever um romance [...] Ninguém sabida nada desse romance. Não tinha necessidade de falar dele com ninguém. Escrevia um fragmento e guardava, mas não tardei em compreender que era um erro colocar algo por escrito; o que escrevia podia precisar da beleza e a integridade do romance que tinha na cabeça [...] Levava – a ideia do romance – em todas partes comigo, como uma dessas caixas mágicas que uma personagem de sorte recebe num conto de fadas: toca e seus problemas desaparecem” – relata a autora.

E penso: poucas respostas, poucas explicações, tão lúcidas sobre a necessidade de narrar, do instante prodigioso em que alguém decide jogar, armar o puzle da vida combinando as peças do sabido e da intuição, do vivido e do sonhado, da experiência e da imaginação.



As imagens, as situações que Alice Munro recria pegam-se à pele, seus sons, seus cheiros, as sensações que provocam, tardam tempo em nos abandonar. De Lives of girls and women conservo, entre outras, a cena asfixiante do casal no rio: ele incitando-a a batizar-se em suas águas, levando a interesse inicial a tal ponto que pouco falta para que se torne em tragédia, pesadelo; ela esquecendo-se de ter medo, firme em sua convicção de que nada pode ter o poder de rebaixar sua vontade, sua liberdade irredutível. Tudo contado por dentro, deste lugar que dificilmente se chega a penetrar.

Munro derruba o muro que separa cada ser dos outros, mostra suas personagens desnudas, refletidas no espelho de seus medos, capazes das ações mais aterradores, essas que se escondem no mais profundo da consciência, no lado em que habitam os monstros. Assim foi com Felicidade demais, livro que me levou ao assombro, ao calafrio, à angústia, à pena ante os sozinhos e miseráveis que podemos chegar senti-los entre os seres humanos. Ninguém disse que a vida seja suave, ninguém disse que a vida seja fácil. Os contos de Munro, ásperos, duríssimos, refletem isso, mas estimulam também a buscar esses restos de luz, de consolo, que encontramos na cerimônia da compreensão, da empatia.

Não sai inteiro quem adentra pelas sendas de Alice Munro. Suas personagens, suas histórias, sim, pegam à pele e é difícil livrar-se porque deixam um sabor agridoce. Talvez seja isso o que caracteriza a grande literatura: a intensidade, a força com que são e passam a formar parte do cotidiano de cada um, até o ponto em que num momento específico nos surpreendemos associando episódios de nosso dia-a-dia, reflexões como as que alguma vez vislumbramos nas páginas dessa narrativa que nos comoveu, nos surpreendeu e nos revelou algum mistério sobre nós mesmos. 

Ligações a esta post:
Leia sobre Ódio, amizade, namoro, amor, casamento, aqui.

* tradução livre para "Confieso mi adición a Alice Munro".

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dez mulheres da literatura brasileira contemporânea

Onze livros para ler na estrada

Dostoiévski, um romântico desgarrado entre a revolução e Deus

Onze obras do teatro moderno e contemporâneo fundamentais a todo leitor

Baudelaire & Poe, Ltda.

O manuscrito em que Virginia Woolf anuncia o seu suicídio

Escritores narcisistas

A arquitetura da cidade como mediadora de leitura

Obras-primas perdidas e felizmente recuperadas

Os melhores de 2016: poesia