Esopo e La Fontaine na atemporalidade que aniquila a obviedade da aparência

 Por Maria Vaz

Esopo - Fábulas completas (Cosac Naify). A obra reúne 383 fábulas, das quais, 26 inéditas em língua portuguesa.


Na história da literatura – que mais não é do que um passado concreto dado à estampa –, encontramos escritores capazes de tocar significâncias complexas com os textos mais simples: uma simplicidade capaz de passar de boca e boca e atingir um público-alvo alargadíssimo. Pois é, existem autores que, sem adornos, nos conquistam pela simplicidade com que nos transmitem uma mensagem profunda.

Este texto versa sobre o poder das fábulas que, tristemente, caíram em desuso. Afinal de contas, longe vão os tempos em que os pais tinham tempo de ler pequenas histórias às crianças, que esperavam por aquele momento como apogeu dos seus dias. A verdade é que a pós-modernidade encontra-se submergida numa dilacerada aceleração do tempo: em que tudo é para ontem; em que há sempre mais a fazer; em que se nos pede para ser mais e melhor, numa espécie de lei da sobrevivência ante o caos social. Deste modo, podemos dizer que as gerações de hoje não têm tempo para contar fábulas às crianças, que passaram a jogar jogos interactivos em qualquer tablet ou Ipad.

Não obstante, existem as pequenas histórias que ficaram na história: aquelas que, ainda hoje, talvez no infantário, as crianças ouvem de um adulto que as pensa enquanto lê. “A lebre e a tartaruga” é um exemplo claro, até porque, se a sua mensagem não fosse transmitida de forma verosímil, não teria sido ‘tocada’ por Esopo e La Fontaine.

Duas fábulas de Esopo - Fábulas completas (Cosac Naify). Os desenhos que ilustram a obra são de Eduardo Berliner.

A fábula em questão fala-nos de um desafio em que uma das partes – a lebre –, partiria em clara vantagem, dados os seus atributos naturais de velocidade, em comparação com a lentidão, tão característica da tartaruga. É essa disparidade de armas que faz com que a lebre – tal como o mais comum dos seres humanos –, agarrada a uma ideia de supremacia natural e de atendibilidade àquilo que os outros pudessem pensar, resolveu dormir para criar a falsa aparência de que deu uma oportunidade à tartaruga, muito embora estivesse sempre com a crença incutida de que a vitória seria uma espécie de inevitabilidade do destino, com base na matematicidade da regra das probabilidades.

Todavia, o destino – se é que ele existe – troca as voltas às pessoas e as probabilidades mais certas são falsificadas pelos méritos menos pensados. E poderia aqui fazer-se uma espécie de hino à força de vontade daqueles que – tal como a tartaruga –, mesmo partindo em desvantagem, lutam sem medo rumo àquilo que querem, sem ligarem muito àquilo que os outros pensam e sem terem medo da ridicularidade de uma derrota quase inafastável. Sem estratagemas ocultos.

Fábulas selecionadas, de La Fontaine (Cosac Naify)

Esta fábula fala-nos da atemporalidade das circunstâncias que envolvem a existência; do calculismo frustrado; do ego perdido na tirania do achismo de um poder pessoal invencível. Fala-nos da imprevisibilidade, negligentemente criada; geradora de impossibilidades que se concretizam.

A verdade é que pode este estilo literário tocar a moral, muito embora essa seja uma ideia de que nos queremos afastar. Não queremos, com isto, agarrarmo-nos ao calculismo do ser humano, vislumbrável pelas atitudes da lebre. Nada disso. Muito embora não ignoremos a natureza humana e os essencialismos concretos que marcam vidas.

Queremos apenas louvar a atitude da tartaruga. Não pela ingenuidade, nem pelo louvável esforço. Lembremos que a tartaruga, pelo simples facto de ter aceitado o desafio, foi também um ser ambicioso. O que queremos dizer é que a tartaruga: confiou em si mesma; deixou para trás o que os outros pensariam dela; ignorou a hipocrisia pretensiosa da lebre; não teve medo do ridículo ou da humilhação de uma derrota quase certa; seguiu a sua vontade e venceu!

Ilustração de Alexander Calder para edição de Fábulas selecionadas (Cosac Naify)

Em jeito de conclusão, confesso-vos que fico fascinada quando analiso as fábulas além da moral. No fundo, esta toca-me. E isso deve-se ao optimismo e à capacidade de sonhar que, ao invés de inibir a tartaruga, lhe deu asas para voar. Sou uma eterna fascinada pelas tartarugas que há neste mundo, a par da força interior capaz de negar a aparência da obviedade e de realizar o impossível. Isso, sem ligar a meio mundo que, pessimista, gosta de boicotar asas a quem tem vontade de voar; sem ligar àqueles que fomentam sonhos, partindo de uma ideia apriorística de impossibilidade fáctica. Que isto seja um hino à força de vontade: esse poder anímico que nos distingue e nos faz superar a aparência do que somos, pela verdade daquilo que somos interiormente sem ninguém perceber. Que isto incentive as tartarugas que seguem o que querem, porque sabem o que são e, por isso mesmo, contrariam a obviedade da aparência de ser.

*

Esopo foi um escravo grego nascido na virada do século VI, a quem se atribui a autoria de fábulas populares. Pouco se sabe sobre a vida do autor e da origem de suas obras, que foram disseminadas pela tradição da narrativa oral. Seus contos serviram de base para a criação da fábula como gênero literário, e influenciaram outros fabulistas importantes. 

La Fontaine (Jean) foi um poeta e fabulista francês. Era filho de um inspetor de águas e florestas, e nasceu na pequena localidade de Châteu-Thierry. Estou Teologia e Direito em Paris, mas seu maior interesse foi sempre a literatura.

No Brasil, conforme recobram as ilustrações deste texto, há duas edições caprichadas da Cosac Naify que trazem não apenas esta, mas outras fábulas dos dois escritores. 

***

Maria Vaz nasceu em Mirandela a 19 de Setembro de 1990, muito embora tenha vivido toda a infância e início da adolescência em Vila Flor. Aos 11 anos, apaixonou-se pela poesia ao encontrar, por mero acaso, um livro de Alberto Caeiro. A par da poesia e da literatura, é uma apaixonada pelas artes em geral, de entre as quais ressalta a música, dado que tocou clarinete entre os 11 e os 21 anos. Publicou o seu primeiro poema em Março de 2015, numa antologia de poetas portugueses contemporâneos e escreve regularmente no seu blog (“The philosophy of little nothings”). É agora colunista do ‘Letras in.verso re.verso”. Além da escrita, é doutoranda em ciências jurídico-criminais, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, desde finais de 2014.


Comentários

Pedro Belo Clara disse…
Óptimo texto, Maria... Gostei muito. Parabéns. Principalmente pelo modo como impregnaste o seu sentido e o das palavras que o compõem. Sem perder a direcção principal, imprimiste ao fluxo do teu trabalho pedaços de ti própria. É um texto que o percebemos como teu, com 'aroma de Maria'... (eheh). Penso que compreendes. No fundo, trata-se de uma prova de autenticidade esse cariz genuíno que sobeja, essa composição de um texto como algo de 'nosso', sem que isso o torne fechado ou, melhor dizendo, hermético.
Fiquei com vontade de me dirigir à estante e folhear La Fontaine... =)
Beijos.
Maria Vaz disse…
Só hoje li o comentário! Obrigada, Pedro, pela amabilidade das palavras! Como sempre, um querido! Fico contente por ter conseguido transmitir a mensagem! Beijos :)

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