José J Veiga



Puro encantamento. Assim poderíamos designar a literatura de José J. Veiga. Uma vez enredado pela correnteza simples da sua escrita, é difícil largá-la. Mas, não é uma mera literatura de entretenimento. Encontra-se entranhada de uma reflexão crítica sobre o contexto histórico, político e social de seu país. De modo que, o exercício escritural zela pelo efeito formal da alegoria, isto é, dedica-se a contar uma situação com o intuito de denunciar outra. Essa combinação não é coisa fácil, daí que nesse procedimento, é a própria escrita que se afasta do tipo trivial da literatura de entretenimento. Isto é, a simplicidade não deve ser confundida facilidade; e talvez, encontremos nesse confusão aquilo que fez com que a obra de Veiga não esteja ao alcance do leitor mais refinado. Processo que culmina desmerecidamente com o esquecimento do grande público. Saibam desde já, entretanto, que esse escritor é autor de alguns dos títulos indispensáveis para o conhecimento sobre a diversidade da literatura brasileira.

O escritor nasceu em fevereiro de 1915 na cidade de Corumbá, Goiás, mas, por motivos diversos, entre eles, o estudo, mudou-se logo cedo para o Rio de Janeiro, onde fez parte de sua formação escolar e acadêmica. Estudou na Faculdade Nacional de Direito. Esteve ligado a vários grupos, sobretudo, aqueles organizados em torno do jornal, mas seu projeto literário nasceu muito tardiamente. Na imprensa escrita, José J. Veiga exerceu a função de jornalista durante largo tempo. A estreia foi tarde, mas não significa dizer que ele não tenha convivido com um trabalho extenso de maturação intelectual e construção de uma sintaxe própria na comutação de uma estética inovadora no cenário literário do Brasil. Possivelmente os anos de jornalista lhe serviram ao exercício da escrita, ao trabalho de fabricação das narrativas, nascidas muitas delas do período em que esteve no estado natal. 

Sua obra de estreia foi uma coletânea de contos cujo título Os cavalinhos de Platipanto reúne 12 textos, dos quais, poderíamos apontar sem medo, além do que dá nome à antologia, “A Ilha dos Gatos Pingados”, “A usina atrás do morro”, “Entre irmãos” e “A espingarda do rei da Síria”, como um dos melhores do gênero no Brasil, ao lado de outros, como a contística de um Machado Assis, um Guimarães Rosa ou uma Clarice Lispector. São “contos marcados por uma espécie de tranquilidade catastrófica”, tal como designou Antonio Candido. Quando publicou essa coletânea, o escritor tinha 44 anos e o livro foi então saudado pela crítica como dotado de uma prosa de características bastante singulares: uma prosa construída pela relação entre o sonho e a realidade – ecos vigorosos da moderna narrativa literária praticada então.



Silviano Santiago considera Os cavalinhos de Platipanto um livro que exige do leitor o exercício de aprendizagem sobre o interstício fantasia-realidade para adentrar-se ao mundo faz-de-conta proposto pelo narrador de Veiga. Essa recomendação é válida ainda para o restante da obra do escritor goiano, visto que, todo seu projeto literário daí em diante será assinalado por uma narrativa situada nesse entrelugar da narração ao ponto de, arbitrariamente, sempre ser incluído no rol dos autores da literatura fantástica devido a forte tendência fabuladora do enredo. 

A literatura desse escritor é montada na forma paradoxal da existência ou produto de um deslumbramento sobre a simplicidade das coisas. Nunca estaremos distantes da atmosfera de um vilarejo simples desses do interior do Brasil, ao menos em A hora dos ruminantes, mas nunca deixaremos de ficar nesse impasse ou suspeita advindo da sombra entre o fantasioso e o real; sua obra é um enigma constante. E tal enigma se desenvolve também pela engenhosidade com que urde o adiamento do desfecho sobre aquilo que conta; trata-se de uma narrativa que atrai o leitor no hábito de deixar para depois a desmontagem de sua nebulosa colocada logo no início de tudo. E o interessante é que, ao fim de tudo, o leitor sai sem alcançar a real imagem dessa sombra que pairou todo o narrado, implicando-lhe vias de interpretação diversas.

Ao falar sobre isso, voltamos ao dizíamos sobre a intersecção entre o ficcional e o contexto histórico e social tão bem construída por Veiga. Porque esse enigma, impasse ou suspeita não deve ser compreendido com um mero recurso de aproximação com o realismo fantástico. Desde sempre, a obra do escritor esteve associada ao que praticaram nomes como Murilo Rubião, Gabriel García Márquez ou mesmo Julio Cortázar e (agora vem um detalhe marcante e não desprezível) o escritor sempre negou essa condição imposta à sua literatura. “A minha literatura”, relembra o amigo Antonio Arnoni Prado, “é uma literatura realista: nem fantástica, nem mágica”. Compreensão chuleada pelo crítico como “original e estranha sem sair da singular estranheza da nossa própria realidade”.

Essas palavras encontradas no prefácio à edição publicada em 2014 pela Companhia das Letras, reafirma nossa compreensão pela obra de Veiga, como a de um escritor versado em observar o minimalismo das formas simples e transmutá-lo em forma de literatura. Ou como compreende Cristóvão Tezza, a linguagem trabalhada por José J. Veiga tem na simplicidade uma maneira de colocar em ação um narrador típico "contador de casos", aquele que "avança pelo prazer mesmo do que conta, preparando o terreno para uma surpresa que aparecerá no último momento – mas quase sempre uma surpresa absolutamente desconcertante, enigmática, não raro inexplicável". Todo esse efeito é, se não, o trabalho de alguém que tem a realidade como forma de natureza complexa e nem sempre de compreensão alcançável.

José J. Veiga em sua última visita a Goiás. Foto: Osair Manassan, 1998.

Depois do primeiro romance, que foi A hora dos ruminantes, José J. Veiga não parou de publicar. Vieram títulos como A máquina extraviada (1967), Sombras de reis barbudos (1972), Os pecados da tribo (1976), O professor Burim e as quatro calamidades (1978), De jogos e festas (1980), Aquele mundo de vasabarros (1982), Torvelinho dia e noite (1985), A casca da serpente (1989), O risonho cavalo do príncipe (1993), O relógio Belizário (1995) e Objetos turbulentos (1997), entre outros que tateiam entre o romance e o conto.

José J. Veiga nunca terá se afastado do faro jornalístico no trabalho de urdidura de sua prosa. E, não esteve interessado apenas em descobrir tipos do interior do Brasil ou recriá-los, mas dedicou sua atenção a introduzir na obra um cenário de mudanças estruturais porque passou o país desde a metade do século XX, sobretudo, no que diz respeito ao declínio do ambiente rural e da compreensão do mundo por certo pensamento popular e do senso comum pelo sobrepujamento das cidades e da compreensão do mundo através de um aparelho teórico científico. 

Essa relação, um dos pilares da estética modernista brasileira, sempre foi pensada por sua obra não numa conjuntura dialética, mas de tomada daquilo que era um princípio identitário mais genuíno por um modo inescrupuloso que privilegia uma estética em falso e pobre do moderno. Isso se dá porque o escritor não pactua com o gesto antropofágico que terá dado forma ao pensamento do modernismo brasileiro, mas incorpora a posição da gente simples que se vê irreconhecível perante seus próprios semelhantes pela aquisição de um modus vivendi quase oposto ao conhecido. Há um certo saudosismo pela tradição e o modo como as relações sociais são mantidas entre os mais simples.    

Além disso, é inegável a introdução de uma temática de intervenção na sua literatura, sobretudo, quando o assunto recai sobre os famigerados anos do Ditadura Militar. A crítica assinala a presença do tema em toda sua obra, sobretudo, em textos como Os pecados da tribo, de forte tom alegórico quando o protagonista narra os desmandes sem finalidades das autoridades que vigiavam a cidadezinha onde vive. O lugar do interior também funciona não apenas como recordação sobre uma autêntica forma de vida, mas como símbolo da opressão, do fechamento, do cerco, ou da impossibilidade de saída para a liberdade em sua plenitude.

E, por fim, um dado relevante: apesar de ter ido para o Rio de Janeiro muito cedo, a paisagem do interior de Goiás parece ter deixado uma marca indelével na vida do escritor. A relação campo-cidade construída por sua obra marca-se não pela observação do ambiente da grande urbe, mas a partir da perspectiva do interior. Tem nessa construção um enxerto da memória. Seu narrador é, sobretudo, marcado pelo traço de uma voz como se recordasse, e, claro, aquilo que a crítica simplificou de chamar por maravilhoso ou fantástico, pode, nessa conjuntura da memória, ser compreendido como a presença da imaginação infantil, esta sempre capaz de forjar a partir da realidade mundos possíveis. 

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