Cada poema de Herberto é um caos que tudo origina - sobre Poemas canhotos (parte 1)

Por Pedro Belo Clara

Herberto Helder. Foto: Alberto Cunha


Diante dos nossos olhos, o derradeiro livro de Herberto Helder – poeta que, após a sua morte, tem sido alvo de comparações, no que toca ao impacto da sua obra na literatura portuguesa, com o legado de Fernando Pessoa. Não iremos julgar o caso, tampouco nos cabe tal tarefa, mesmo conhecendo o popular fenómeno “após a morte todo o poeta ignorado em vida se revela subitamente um génio literário” (Poemas canhotos esgotou em muitas livrarias no próprio dia do lançamento). Os nossos esforços centram-se somente no convite que endereçamos a todo o leitor interessado: a profunda descoberta do autor. Contudo, as intenções solidificam-se: um outro nome “ameaça” juntar-se à restrita elite poética composta somente por Camões e Pessoa – a mais fina nata, à qual outros poderão acrescentar os contributos de Cesário Verde e Camilo Pessanha, por exemplo.

Mas não desejamos diluir o nosso foco em demoradas distrações, ainda que as mesmas não estejam totalmente destituídas de sentido ou propósito. Continuemos, assim, a nossa apresentação.

Publicado a título póstumo, neste livro não se adivinharão traços de incompletude, dado que obra foi totalmente revista pelo autor ainda em vida. Por isso, poderemos contar com a maturidade plena de um estilo de escrita exercido ao longo de diversos anos e de distintas fases de crescimento. Algo de assinalar, diga-se, dado que incomuns são os casos idênticos.

Composto por apenas dezasseis poemas, desprovidos de títulos e com pontuação pouco regular, encontraremos a face poética mais genuína de Herberto: aquele rumor de vulcão que parece impregnar cada poema, a força criadora do próprio universo anunciada num frémito tremente, o eco vibrante duma voz genesíaca. Naturalmente, acrescentar-se-á a aspereza que lhe é inerente bem como a agressividade de intenções e sentidos – poeticamente fulgindo numa clareza capaz de cegar.

O exercício criativo é ímpar. Poderemos mesmo dizer: genial. Mas dificilmente haverá criação sem esforço. Ao invés de espontânea, é aqui trabalhada com afinco e repetidas lapidações. O esforço da criação poética impulsiona assim o nascer de uma estrela, astro que mais não é do que o puro cintilar da vida em estado selvagem, bruto, primordial. Cada poema de Herberto é um caos que tudo origina.

Falámos em esforço, antes. Ora, tal arduamente poderá existir sem que uma qualquer espécie de conflito advenha. Essa palavra, aliás, é a chave subentendida no poema de abertura, composto por apenas dois versos: «a amada nas altas montanhas / o amador ao rés das águas». Teremos desde já a súmula perfeita de todo o encontro entre o poeta e a sua criação? Não sabemos. Em todo o caso, aplica-se o exemplo a qualquer autor, poeta ou não. Seguindo essa linha veremos o eterno desfasamento entre o poeta e a própria poesia: o «amador», sempre ao «rés das águas», e a «amada», desejo eterno, pérola tão preciosa e deliciosamente inalcansável – «nas altas montanhas». Se nos debruçarmos mais atentamente sobre o poema vê-lo-emos como um rio capaz de reflectir as mais variadas dualidades, os mais variados conflitos: a humanidade e o divino, o homem e a mulher, o ser desejoso e o objecto de tamanho desejo, entre muitos outros. Emergirão certamente à memória alguns dos desconcertantes versos do poema Quase de Mário de Sá-Carneiro («Um pouco mais de sol – eu era brasa, / Um pouco mais de azul – eu era além. / Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... / Se ao menos eu permanecesse aquém...»).

O poema seguinte, que se inicia do mesmo modo e se apresenta como um dos mais longos do livro, elucidar-nos-á um pouco melhor:

(...)
a coisa amada é coroa
pesando em minha cabeça
(…)

Eis o lado mais destrutivo das paixões: o fardo que as mesmas comportam. O conflito existe e é aqui recordado. Não será um fruto do acaso a sua escolha para tema de abertura da obra em questão.

(…)
é a dor que o amor transporta
mais naquilo que não diz
que tudo aquilo que mostra
(…)

Em tom firme e decidido, de um só fôlego se lê, como parece ter sido escrito, este longo poema que desemboca na entrada de todos os apetites: «boca: / e a fome que a devorava».

Note-se já como, além da supressão dos títulos, os poemas iniciam-se sempre em letra minúscula, de versos maioritariamente longos e de toada prosaica. A pontuação, como antes referimos, nem sempre está presente. A sua distribuição é arbitrária, e o ritmo corrido de leitura que sugere só adensa o teor tumultuoso da escrita. Curiosamente, nenhum poema termina com o devido “ponto final”, mesmo que lhe tenham sido atribuídas pausas gramaticais, alimentando a ideia de todos os poemas, no fundo, se tratarem de um só. Não será certa, contudo, a assumpção, visto que o teor do conjunto de poemas não parece corroborar os fundamentos da mesma.

No poema seguinte materializa-se a faceta mais áspera e abrupta que se conhece na escrita do autor. Desde logo tal se depreende pelo verso com que se inicia: «esfolo-te vivo, vadio, se me trazes outra vez versos desses, / assim tão às ordens de um modelo civil». Compreende-se, contudo, a razão: um modo poético de insubmissão, de revolta anunciada contra toda a forma de conformismo: «fortes não da sua profundeza e verdade primeiras / mas daquilo que convém à digestão, / ao optimismo ou pessimismo do mundo, / regras da realidade». Um grito de individualidade em nome da singularidade do ser nele se modula, bem se vê, tornando-o igualmente um poema crítico e corrosivo, como tantos outros que assinou, no qual se poderá antever uma espécie de “missão de todo o poeta”, sabendo que esse será, na verdade, o «implacável», o «genuíno»: «esfolo-te porque tens de trazer o nome do fim, / o tiro no escuro, / o relâmpago que cega».

O poema que a esse se segue, ao ritmo da leitura, remete para a futilidade da matéria e seus elementos devido à efemeridade a ela inerente. «que interessa fazer a barba se é tudo para cremar» – de modo assombrosamente lustroso se expõe o caso. Notar-se-á, portanto, uma toada de desprendimento em relação a tais elementos e de desprezo mediante tamanha inutilidade. Vejamos:

(…)
–  ó mundo, deixa-te entender um pouco
desde nascer a morrer que não entendo nada,
só a música que me embebeda,
mas quero ir mais depressa
(…)

Pelo último verso do excerto seleccionado quase que invocamos a figura do “Orfeu rebelde” por Miguel Torga legado às gerações à dele vindouras. A sensação de inconformismo e de revolta diante do estabelecido voltam assim a emergir. Mas, isso é já tema para uma segunda ocasião; Poemas canhotos não é um título que se leia numa sentada.

***

Pedro Belo Clara é colunista do Letras in.verso e re.verso. Por decisão do editor do blog, nos textos aqui publicados preservamos a grafia original portuguesa. Nascido em Lisboa, Pedro é formado em Gestão Empresarial e pós-graduado em Comunicação de Marketing. Atualmente centrado em sua atividade de formador e de escritor, participou, com seus trabalhos literários, em exposições de pintura e em diversas coletâneas de poesia lusófona, tendo sido igualmente preletor de sessões literárias. Colaborador e membro de portais artísticos, assim como colunista de revistas e blogues literários, tanto portugueses como brasileiros, é autor dos livros A jornada da loucura (2010), Nova era (2011), Palavras de luz (2012) e O velho sábio das montanhas (2013) – sendo os dois primeiros de poesia. Outros trabalhos poderão ser igualmente encontrados no blogue pessoal do autor – Recortes do Real (artigos e crônicas diversas).

Comentários

Susana C disse…
Gostei Pedro, os seus textos bem elaborados a nos cativar e aproximar do autor e sua obra. Aguardo a parte seguinte, porque ao findar esta questionei-me, porque teria chegado ao fim quando eu no fundo queria era ler mais, não gostasse eu de Herberto!
Pedro Belo Clara disse…
Isso é um bom sinal, Susana... Prova de que cumpri o meu intento. É sempre bom sabermos que o nosso trabalho está a cativar o leitor ao qual se dirige. Mas, diga-se de passagem, devido à sua extensão o texto teve de ser repartido. Na verdade, todo ele foi escrito de uma assentada. Com a devida revisão, claro está... Somente a sua dimensão obrigou a este corte. Em breve poderá retomar a sua leitura com renovado interesse, assim espero =)
Beijos e obrigado.

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