A desconstrução do gênero em Orlando: uma biografia, de Virginia Woolf

Por Neiva Dutra

Virginia Woolf e Vita SackVille-West


Virginia Woolf escreveu, há mais de cem anos, uma obra em especial, na qual se questiona sobre as diferenças entre homens e mulheres.

Embora a figura e a obra da escritora sejam consideradas por alguns o princípio da geração do pensamento feminista na idade moderna, pela forma como transformou momentos efêmeros da vida em uma concepção espiritual e artística que transcende a separação entre os universos masculino e feminino, em essência ofereceu ao mundo respostas valiosas sobre a vida, a morte, a identidade, o gênero e a literatura – porque a arte que amou em vida se encontra intimamente unida às suas personagens e à história que as envolve.

Possivelmente uma dessas respostas – e talvez a mais enfática – seja Orlando, uma autobiografia na qual um jovem aristocrata se transforma em mulher. A vida desse personagem andrógino transgride os conceitos de gênero, satiriza a biografia e o próprio discurso feminista e rompe com os padrões da sociedade inglesa da época para expor suas contradições e revelar suas obscuridades.

Orlando é, ao mesmo tempo, uma carta de amor a Vita SackVille-West, com quem viveu uma relação de cinco anos e, fundamentalmente, através da obra, Woolf pretende consolá-la pelo fato de ser mulher na Inglaterra de seu tempo, na qual mulheres não tinham o direito de herdar patrimônios, pela incompreensão e pelo preconceito descabido que atribuía – e atribui – às mulheres a condição de “segundo gênero”.

Em 1992, o livro Orlando: uma biografia serviu de mote para o um filme de Sally Potter.

O jovem Orlando, graças às metáforas, alusões e simbolismos erigidos por Virginia Woolf, passa por uma transformação física na qual muda de sexo e por uma reafirmação identitária através da qual se cristaliza a ideia da inexistência de uma separação entre homens e mulheres que não seja meramente física.

Ao narrar a transformação de Orlando em uma mulher, a escritora se expressa com ironia propositalmente exagerada e torna possível ao leitor aceitar a transgressão última: a personificação das ideias de verdade, franqueza e honradez que ressaltam uma transformação igualmente verdadeira e permanente, mas que em nada modifica a autêntica essência de Orlando.

A edição de Orlando com tradução de Tomaz Tadeu.
Leia um fragmento abaixo.
O que fica claro e inequivocamente evidenciado é que ser homem equivale a ser mulher, que não há diferenças além de incômodas incompreensões. A nenhum leitor é estranho o renascer feminino de Orlando, como nenhum outro personagem duvida de que se trata da mesma pessoa, em uma aceitação que abandona o terreno da ficção e se apresenta como uma tese incontestável de que as diferenças entre os sexos não modificam a alma das pessoas. Não existe homem ou mulher e a transformação é possível, porque se trata de uma alma imutável, negando a estupidez de considerar que a alma, o espírito, a inteligência de um homem ou de uma mulher apresentam diferenças por detrás de uma identificação física.

As aventuras de Orlando, transformado, se inscrevem no feminino, apoiando-se na fantasia para demonstrar que essas diferenças não são naturais, para denunciar a misoginia do mundo literário, para evocar - mais pela poesia do que pela prosa - um simbolismo corajoso e magnífico, que esvazia as “meias verdades” machistas e feministas e revela uma nova concepção da alma humana.

Orlando, por Jorge Luis Borges

É sabido que um dos tradutores mais ilustres de Orlando: uma biografia para o espanhol, foi Jorge Luis Borges. Em 30 de outubro de 1936, o escritor argentino escreveu um texto, “Virginia Woolf”, publicado na Revista Hogar que atesta já nessa ocasião ter concluído a tradução da obra, pela maior atenção dada ao texto e o recorte que faz de uma passagem do primeiro capítulo:

Virginia Woolf tem sido considerada “a primeira romancista da Inglaterra”. A hierarquia não importa, já que a literatura não é uma competição, mas o indiscutível é que se trata de uma das inteligências e imaginações mais delicadas que agora ensaia felizes experimentos com o romance inglês.

Adelina Virginia Stephen nasceu em Londres em 1882. (O primeiro nome desapareceu sem deixar rastro). É filha de Mr. Leslie Stephan, compilador das biografias de Swift, Johnson e Hobbes, livros cujo valor está na claridade da prosa e na precisão dos dados, e que ensaiam pouco as análises e nunca a invenção.

Adelina Virginia é a terceira de quatro irmãos. O desenhista Rothenstein a recorda “absorta e silenciosa, toda de negro, com o pescoço e as mãos marcados pela renda branca”. A acostumaram desde a infância a não falar se não tem algo a dizer. Nunca lhe mandaram à escola, mas uma de suas disciplinas domésticas foi o estudo de grego. Os domingos em sua casa eram concorridos: Meredith, Ruskin, Stevenson, John Morley, Gosse e Hardy a frequentavam.

Passava os verões em Cornwall, à beira mar, numa casa pequena perdida numa quinta enorme e abandonada, com terraços, uma horta e uma estufa. Essa quinta ressurge num romance de 1927…

Em 1912, Virginia Stephen se casa em Londres com Mr. Leonard Woolf, e adquire uma editora. Os dois têm interesse pela tipografia, essa cúmplice e, às vezes, traidora da literatura, passam a compor e editar seus próprio livros. Pensam, sem dúvida, no glorioso precedente de William Morris, impressor e poeta.

Três anos depois Virginia Woolf publica seu primeiro romance: The Voyage (A viagem). Em 1919 aparece Night and day (Noite e dia); em 1922, Jacob’ Room (O quarto de Jacob). Já esse livro é todo diferente. Não há roteiro, no sentido narrativo dessa palavra, o tema é o caráter de um homem, centrado não nele, mas indiretamente nos objetos e pessoas que o rodeiam.

Mrs. Dalloway (1925) relata o dia inteiro de uma mulher; é um reflexo nada claro do Ulysses de Joyce. To the Lighthouse (Ao farol) (1927) exerce o mesmo procedimento: mostra algumas horas da vida de uma das personagens, para que nessas horas vejamos seu passado e seu futuro. Em Orlando (1928) também há a preocupação com o tempo. O herói desse romance originalíssimo – sem dúvida o mais intenso de Virginia Woolf e um dos mais singulares e desesperados de nosso tempo – vive trezentos anos e é, em intervalos, símbolo da Inglaterra e de sua poética em particular. A magia, a amargura e a felicidade colaboram nesse livro. É, além disso, um livro musical, não somente pelas virtudes sonoras de sua prosa, mas pela estrutura de sua composição, feita de um número limitado de temas que regressam e se combinam. Também é uma música o que ouvimos em A Room of one’s own (Um teto todo seu) (1930), onde alternam o sonho e a realidade e encontram seu equilíbrio.

Em 1931 Virginia Woolf publicou outro romance: The Waves (As ondas). As ondas que dão nome a este livro recebem ao longo do tempo e das muitas vicissitudes do tempo, o soliloquio interior das personagens. Cada época de sua vida corresponde a uma hora diferente, desde a manhã à noite. Não há roteiro, não há diálogo, não há ação. O livro, sem dúvida, é comovedor. Está carregado, com os demais de Virginia Woolf, de delicados feitos físicos.

**

Por um instante, Orlando lá ficou parado, contando, contemplando, reconhecendo. Aquela era a casa do pai; aquela, a do tio. A tia era dona daqueles três grandes torreões, lá entre as árvores. A charneca era deles, e a floresta; o faisão e o cervo, a raposa, o texugo e a borboleta.

Suspirou profundamente e atirou-se — havia, em seus movimentos, uma paixão digna da palavra — à terra, aos pés do carvalho. Gostava de sentir, por sob toda essa transitoriedade do verão, a espinha da terra por debaixo dele; pois assim que via a raiz firme do carvalho; ou, pois, uma imagem sucedia à outra, era o costas de um grande cavalo que estivesse montando, ou o convés de um sacolejante navio — era, na verdade, qualquer coisa, desde que fosse firme, pois sentia a necessidade de algo ao qual pudesse fixar seu oscilante coração; o coração que lhe rasgava o lado do peito; o coração que parecia, todas as tardezinhas, a esta hora, quando saía para passear, ser invadido por aragens pungentes e amorosas. Ao carvalho, pois, ele o prendeu e, enquanto, permanecia aí deitado, a palpitação dentro dele e à sua volta a pouco serenava; as pequenas folhas se imobilizavam, o cervo se detinha; as pálidas nuvens de verão estacionavam; seus membros pesavam mais no chão; e ele ficou tão imóvel que, aos poucos, o cervo chegou mais perto e as gralhas giravam à sua volta e as andorinhas mergulhavam e voavam em círculo e as libélulas passavam zunindo, como se toda a fertilidade e atividade amorosa de uma tardezinha de verão se enredassem feito teia ao redor de seu corpo.*

* A tradução do texto de Jorge Luis Borges é de Pedro Fernandes. Na tradução do excerto citado pelo escritor argentino utilizou-se a versão de Tomaz Tadeu, da edição de Orlando pela Autêntica Editora.

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Neiva Dutra é licenciada em Letras / Língua e Literaturas de Língua Portuguesa, profissional em revisão de textos e copydesker, autora do blog De Anima Verbum, leitora voraz, apaixonada pela arte e a cultura em todas as suas manifestações e em toda sua profundidade.

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