Um romance sobre o romance de Fernando Pessoa com Ofélia Queiroz e outros títulos que têm o escritor português como personagem



Esperou que todos do escritório fossem embora; esperou que ela colocasse o casaco e, perturbado, se dirigiu à porta. Ali, sobre o batente, Pessoa se acomodou e a beijou ardentemente, como nunca havia beijado uma mulher. Como nunca beijou outra mulher. Aquela noite de 24 de janeiro de 1920 ficou gravada na memória de Ofélia, mas não tanto na de Fernando. Ela tinha 19, ele 32: “Fiquei doido, fiquei tonto... / Meus beijos foram sem conto, / Apertei-a contra mim, / Aconcheguei-a em meus braços, / Embriaguei-me de abraços... / Fiquei tonto e foi assim...”, escreveu o poeta.

Paixão, inquietação e desassossego, muito desassossego, são os ingredientes com os quais Luis Morales escreve Um amor como este, romance que recria um dos grandes casos de amor mal resolvido do mundo literário no século XX do mundo literário: o de Fernando Pessoa com Ofélia Queiroz, a única mulher na vida do atormentado gênio português.

Não há nada de novo no material que serviu de base a Morales. Seu mérito que não é pouco, resume-se a ordenar o caos do mundo pessoano concretamente através da única relação íntima possível que o escritor manteve com uma mulher. Em cartas, a união entre Pessoa e Ofélia se prolonga entre janeiro e setembro de 1920 e, depois de um intervalo de nove anos, entre os meses de setembro e dezembro. Nada mais. Morales mergulha nesse arsenal, que não é tanto: apenas 48 cartas de Pessoa (publicadas em 1978) e 300 de Ofélia (compiladas em 2013).

É graças a essas correspondências que compreendemos melhor alguma coisa sobre a inquietação do amor na obra do poeta português, sobretudo o poema no qual Pessoa se imiscui: “Só as criaturas que nunca escreveram / Cartas de amor / É que são / Ridículas”, diz pelo eu-lírico de Álvaro de Campos. As suas são. “Bébézinho do Nininho-ninho § Oh! § Venho só quevê pâ dizê ó Bébézinho que gostei muito da catinha d’ella. Oh! §E também tive munta pena de não tá ó pé do Bébé pâ le dá jinhos”, escreve com trejeitos de bebê.

Morales que disse modestamente que não é nenhum especialista em Pessoa, se orgulha de conhecer – e sobretudo amar – Lisboa. E assim, em Um amor como este reconstrói a cidade pacata, parada no entre-guerras e organiza, através dela, o descontrole sentimental entre uma jovem romântica e um senhor maduro com uma “onda negra” crescendo sobre o espírito.  

As cartas denunciam ainda outra constatação: tão logo Pessoa demonstrou interesses por Ofélia, depois de poucas semanas daquele beijo imaginado pelo texto de Morales, ela derreteu-se de amores pelo escritor e, uma romântica empedernida, se envolveu mais que ele, foi a fundo numa relação fadada ao fracasso e alimentada por um bem-querer desinteressado. “Não achas melhor que diga um dia destes a minha irmã que já te declarastes?”, pergunta inocentemente noutra ocasião. Ao que Pessoa responde rispidamente: “Isto é próprio de gente comum. Eu não sou comum. E não digas a ninguém que nós saímos juntos. É ridículo, nós nos amamos”.

E pratica longos intervalos entre uma carta e outra para Ofélia que, com o passar do tempo já não consegue mais suspirar por um compromisso sério. Contenta-se em vê-lo quando passa por debaixo de sua janela, como denuncia em carta de finais de novembro de 1920: “Faz já quatro dias que não apareces e que nem sequer tem dignidade de escrever-me. Sempre o mesmo proceder”, queixa-se.

Numa passagem do Livro do desassossego, Pessoa utiliza seu heterônimo Bernardo Soares para desnudar-se: “Só uma vez fui de verdade amado. Algumas simpatias tive, que, colocando algo de minha parte, poderia haver convertido, ou ao menos talvez pudesse haver convertido, em amor ou em afeto”. Mas, essa fascinação, que também ficou mostrada nas primeiras missivas, padeceu, depois da incerteza, da ruptura, redigida pelo próprio poeta numa decisão enigmática: "o meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ofelinha nem sabe e está subordinado cada vez mais à obediência a mestres que não permitem nem perdoam".




Três outros romances que têm o centro em Fernando Pessoa

1 – Requiem, uma alucinação, de Antonio Tabucchi

Nenhum escritor terá amado mais a literatura de Fernando Pessoa que Antonio Tabucchi; a paixão o fez transpor a barreira do idioma e ser o mais português dos italianos de que tem notícia a história da literatura. Escreveu em língua portuguesa. E, como Luis Morales caiu de amores por Lisboa, cidade que adotou para viver e onde morreu. No romance de 1991, o escritor ressuscita o autor de Mensagem e o coloca como interlocutor da personagem que dá forma à narrativa, imberbe nas ruas da capital portuguesa, num estado de realidade e sonho, num tórrido domingo de julho.

2 – Os três últimos dias de Fernando Pessoa, de Antonio Tabucchi

Mais a fim de corroborar a obsessão do escritor italiano do que de se repetir na fórmula, o leitor deve conhecer este romance que faz Fernando Pessoa a sua personagem principal. Encontramos o poeta atacado de dores no fígado em partida para o hospital no dia 28 de novembro de 1935, onde começa sua trajetória no fim da vida. Nesses três últimos dias, Tabucchi imagina um Pessoa entregue à dor e à solidão do quarto num rito de conversa com seus heterônimos, como se, num procedimento de despedida e de libertação das outras vidas que teve de carregar enquanto existiu.

3 – Fernando Pessoa, o cavaleiro de nada, de Elisa Lucinda

Este é o seu primeiro romance e a brasileira coloca o escritor português como personagem-narrador que recria num modo de autobiografia uma trajetória assinalada pelos principais episódios de sua vida e das opiniões tecidas a várias vozes sobre assuntos diversos: sua relação com Portugal, as viagens à África, a atuação como um dos principais do grupo modernista de Orpheu etc. Não escapa nesse itinerário o processo de aparição dos heterônimos; aí estão Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Bernardo Soares e aquele que teria sido o primeiro forjado por Pessoa, o Cavaleiro de Nada, que dá subtítulo a um romance situado entre a forma lírica e sarcástica do escritor português.

4 – O ano da morte de Ricardo Reis, de José Saramago

Dos livros aqui citados, é preciso reconhecer, nenhum alcança a dimensão daquilo que construiu o escritor Prêmio Nobel da Literatura com este romance. Mesmo Fernando Pessoa não sendo a personagem principal, porque quem ocupa este lugar é o seu heterônimo Ricardo Reis. Saramago traz essa figura que estava no Brasil e a coloca numa Lisboa parada entre as nuvens negras de um tempo que é de chumbo: seja pela atmosfera constantemente pesada pelas chuvas, seja pela morte recente de Fernando Pessoa, seja pelo levante das principais ditaduras que arrasaram a Europa desse tempo. Um romance inquietante e, sem dúvidas, um dos mais significativos da literatura contemporânea, como terá assinalado James Wood em Como funciona a ficção.

* A primeira parte deste texto foi escrito com notas de "El amor sin boda", de Javier Martín em El País


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