Uma literatura a salvo de modismos: Edson Amâncio e seu “Diário de um médico louco”

Por Alfredo Monte



«… já na minha infância fui tomado por estranhos pressentimentos e muitas vezes chamado de habitante “do mundo da lua”. De tal forma era envolvido por êxtases e arrebatamento da alma que me perguntava se não estaria vivendo um sonho. Que tipo de sortilégio me dominava o espírito ainda na minha mais tenra infância! Meus pais, cujo equilíbrio mental está exageradamente distante de exemplar, levaram-me aos curandeiros da vizinhança e um deles me faz passar a mais terrível experiência que uma criança é capaz de suportar. Colocaram-me nu, sentado no chão, coberto de folhas de bananeira de uma cabana e despejaram sobre a minha cabeça o sangue ainda quente de uma galinha esgorjada…»

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Há uma vinculação óbvia que podemos fazer de Diário de um médico louco (editora Letra Selvagem) com certa linhagem na ficção cujo protótipo encontramos em Diário de um louco (1835), de Gógol: trata-se do discurso de alguém que já não distingue o que é realidade ou delírio, um discurso desassossegante porque deixa entrever que toda noção de realidade, no final das contas, não passa de uma ficção. É o reino de Poe, Dostoiévski, Hoffmann, Robert Walser, entre outros, além do já referido e paradigmático Gógol1.

Como inserir, entretanto, o romance de Edson Amâncio na ficção brasileira atual, ainda mais quando ele utiliza o recurso consagrado, mas algo anacrônico (a não ser que seja retomado de forma paródica), tão século dezenove, de um primeiro narrador apresentar-se como depositário do diário do colega, que desaparecera?

Para agarrar esse touro a unha (um ótimo livro de ficção, o qual parece um tanto desusado e deslocado na cena literária em voga), uso como recurso a comparação: no caso, com  "Tólia", um dos contos que Ricardo Lísias reuniu em Concentração e outros contos (Alfaguara, 2015), e no qual o narrador (Ricardo Lísias) desiste de todos os seus investimentos existenciais (o xadrez, a literatura) e, na Rússia, se junta a uma comunidade mística,  dedicada ao silêncio radical e à reunião de Mestres dispersos pelo planeta, que possam levar a humanidade a outro estágio de evolução.

"Tólia" faz parte de um recente ciclo na obra de Lísias (a que pertencem também romances como O céu dos suicidas e Divórcio), cujo tema recorrente são as experiências “malucas” e dissociativas de um protagonista homônimo (o qual se encontra um tanto quanto “surtado”) do autor.

Há uma etiqueta da moda para essa prática: “autoficção”. Experiências pessoais deformadas e reformatadas, criando um universo movediço, um terreno pouco firme (típico da pós-modernidade), onde o leitor perde a noção do que é fato e do que é forjado, “fingido” na vida do autor-personagem em questão.

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Na tentativa de derrubar o touro, pode-se enquadrar Diário de um médico louco também nessa linha, com a ressalva de que o narrador (chamado simplesmente Dr. B.) não tem, como nos casos mais notórios da autoficção, o nome do autor2.

Faço tal alegação porque, sem dúvida, ali estão experiências vividas biograficamente (viagens a Paris e à Rússia, por exemplo; aliás, a pátria de Dostoiévski, como acontece em "Tólia", ocupa largo espaço no romance:  «Pela primeira vez eu viajava com quem chega a um lar durante muito tempo abandonado. Eu não era um turista, nem mesmo um simples viajante. Eu era um russo. Eu estava de volta à casa…»), com as quais ele joga de forma a desconstruí-las, ao contá-las sob o ângulo da consciência alterada e disfuncional: «... fui tomado de uma estranha sensação que já se apoderou de mim em outras ocasiões. É como seu eu estivesse vivendo outra vida, como se não fosse eu que estivesse presente ali naquele quarto, e um impostor tivesse se apoderado do meu espaço e do meu próprio ser. Naqueles poucos segundos transportei-me para os lugares mais recônditos de Petersburgo, aqueles lugarzinhos que eu já havia visitado de outras vezes, becos escuros onde se escondem os pequenos demônios russos, escadarias imundas e malcheirosas, por onde circulam bêbados e as mais disformes criaturas do submundo…».

A lógica que guia o percurso narrativo está contida na seguinte passagem: «eu não me esquecia de como utilizar meu endoscópio, mas era incapaz de encontrá-lo quando precisava»3.

Médico em Santos (cidade no litoral de São Paulo), o Dr. B. narra como a pulsão do suicídio foi se inoculando em seu ser. Como tantos anti-heróis literários, ele também é visitado pelo diabo, e no ir-e-vir não muito cronológico e linear de seu diário, e em todas as anedotas biográficas4, ele sente a presença zombeteira dessa entidade, instigando-o e espicaçando-o:  « Já lhes falei que o Mestre me visitou certo dia (os russos o chamam assim). Isso mesmo, o demo em pessoa (…) vejam a que ponto cheguei. Em poucos segundos vocês começam a imaginar que sinto falta dele. Explico melhor. Antes de tudo, é uma criatura sem travas na língua. Um conversador nato. Nada de monossílabos, como estamos hoje acostumados. A pessoa acomoda-se diante de você e não abre a boca. Ninguém mais sabe conversar…».     

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Portanto, Edson Amâncio poderia se gabar de ver seu romance associado a duas práticas recorrentes entre escritores jovens e “up to date”, e em vários deles (não Lísias decerto), tomadas como se fossem a reinvenção da roda: além da “autoficção”, a “intertextualidade”.



O que diferencia abissalmente Diário de um médico louco é que justamente o mergulho que nos proporciona na literatura (pois o Dr. B. é useiro e vezeiro na citação de autores) revela-se antípoda à usual complacência dos praticantes desse jogo metaficcional, pois ele nos reinsere no coração de uma linhagem criativa que propõe o mais doloroso e profundo diagnóstico das fraturas da condição humana, da situação aberrante de sermos criaturas tão racionais e ao mesmo tempo presas de instintos primitivos, de pulsões destrutivas e derrisórias. É o ato de escrever (sem se prender a modismos) conforme caracterizado com precisão por Pedro Meira Monteiro: «A escrita nunca é liberação. Quando escrevemos selamos acordos com uma corte de demônios que mal conhecemos».

E o uso de um alter ego negativo, o Dr. B, aponta justamente para o lado “saudável” da literatura: enquanto todo o universo da loucura, da fragmentação do ser, das dicotomias dilacerantes, aponta para o caos, para a ausência de sentido, o discurso literário—mesmo passando a pente fino toda essa realidade lancinante—é ainda a ordem, a coerência, a possibilidade de um “remate de males”, no mínimo.

Ricardo Lísias (enquanto personagem) e o Dr. B. perdem a partida contra a realidade, e mergulham no autoengano da loucura, procurando suavizar o estado de vexame existencial em que estavam mergulhados, como não-participantes funcionais do sistema social. Ricardo Lísias (enquanto autor) e Edson Amâncio nos proporcionam, paradoxalmente, a sensação de que a literatura ainda é um muro de contenção contra o caótico e o dissolvente.

Notas:
Embora no caso de Edson Amâncio a ligação mais gritante seja com as narrativas febris e alucinatórias de Dostoiévski, como O duplo (1846), não obstante esta não ser em primeira pessoa, ou Memórias do Subsolo (1864). Há episódios que evocam de forma paródica cenas de obras dostoievskianas, como o pedido de perdão à prostituta, em nome da humanidade em geral, de Crime e Castigo (1866).

2 Confesso-me um pouco avesso ao termo porque me soa a etiqueta nova de uma prática velha. Segundo Ana Maria Lisboa de Mello a tal da autoficção «reivindica para si a possibilidade de reconstrução livre, arbitrária e ficcional dos fragmentos da memória, sem compromisso com a transcrição literal dos acontecimentos». Ora, não é o que a literatura desde a quebra do classicismo sempre fez (a começar pelos autores arrolados no início do meu texto)?

André Bernardo, em matéria para a revista Metáfora (número 14), sumarizou as características recorrentes da “autoficção”;
– autor, narrador e protagonista têm o mesmo nome (coincidência onomástica);
– o tempo presente é predominante na narrativa;
– os limites entre memória, ficção e realidade se confundem;
– narrativa fragmentária, descentrada e não linear;
– sensação de work in progress, como se o leitor participasse da escrita do romance;
– postura de perplexidade e de questionamento do leitor.

3 Noutra passagem: «Termino-a (a vida, é claro!) muito melhor do que comecei. Hoje tenho meu endoscópio e uma profissão digna, nenhuma sinecura—rejeitei todas que se estenderam diante de mim. Vivo só, isso é verdade e lhes daria de presente mais um clichê, se não fosse abusivo e não quero parecer autoritário. Mas seja, vá lá: às vezes é melhor só. Agora, penso eu, devo voltar à análise do primeiro motivo verdadeiro que me levou inexoravelmente a essa estória do suicídio. É uma estoriazinha, não mais do que meia dúzia de linhas. Ei-la: eu vinha caminhando pela rua, o pensamento imerso nesse mar de questões que tenho levantado desde que completei 65 anos—curioso: faz exatamente 3 anos, 4 dias e 2 horas que os completei. Depois disso, não tive mais sossego. É como se aos 65 anos tivesse ocorrido na minha vida um divisor de águas. Algo assim: Pois bem, agora vai ser diferente. Vamos ao que verdadeiramente interessa: o suicídio! Dessa data em diante, não parei de pensar ´no assunto´. Sei que os aborreço com essas longas introduções e interrupções, mas me declaro incapaz de fazer de outra maneira. Vejamos. Eu, como já dizia, vinha caminhando. Ao passar por uma janela aberta, alguém, uma criatura da pior catadura possível, disparou uma cusparada. O míssil, se posso assim me expressar, por pouco não me atingiu em cheio, no rosto. Apenas um passo mais acelerado e isso fatalmente não teria acontecido. Mas, felizmente, aquilo me atingiu no ombro esquerdo. Eu havia olhado para o interior daquele cômodo miserável, onde pessoas trabalhavam, por mera curiosidade. Depois entendi que naquele quarto de subúrbio funcionava uma alfaiataria. O alfaiate, ao perceber que a cusparada havia me atingido, ficou paralisado, ainda com uma das mãos suspensas no ar para limpar os últimos resíduos de umidade nos lábios. Eu, de minha parte, também estaquei na calçada. Aquilo era demais. Vocês estarão loucos para saber como reagi, não é? Pois bem, imaginem-se, portanto, numa situação semelhante. Isso os possibilitará ter uma ideia do que aconteceu a seguir. Eis aí o cerne da questão…».

4 Por exemplo, em Paris, é acometido pela tentação de roubar um desconhecido que sacara alta quantia no banco, e repassa cada giro mental—até atingir a ideia de latrocínio—a partir do impulso original, naquela mistura tão típica de método e racionalidade com estado-limite da mente.

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Alfredo Monte é professor e leitor, as duas grandes atividades da sua existência. Tem doutorado pelo Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, desde outubro de 2002, com uma tese sobre a obra de Autran Dourado. Desde 11 de abril de 1993, mantém uma coluna semanal no Galeria do jornal A Tribuna de Santos. Volta e meia publica na Folha de S. Paulo. Mantém o blog Monte de Leituras dedicado exclusivamente a comentários sobre as obras que vai lendo e agora integra o corpo de colunistas do Letras in.verso e re.verso.



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