Utopia crítico-docente

Por Rafael Kafka



Há uma utopia em mim que está diretamente ligada a minha vida enquanto assalariado dentro de uma sociedade capitalista: a de tentar produzir um discurso de mudança social sem expor demais opiniões que coloquem em risco de exposição demasiada minha vida pessoal e minha vida profissional. Isso se daria por meio de um trabalho de mediação de leitura em minha página do Facebook, a rede social que mais uso, falando por lá acerca de filmes, séries, livros etc. O objetivo seria promover uma ampliação dos horizontes de leitura dos que se encontram em minha lista de contatos por meio de dicas de leitura nos mais variados tipos de mídia e formatos. Mas há um grande, entretanto: como ser ativista da leitura sem ter uma agenda política bem definida?

Pergunto-me isso, pois falar de leitura por si só para mim é fugir da principal questão a se colocar no momento: ler para quê? Será que somente incentivar alguém a ler é suficiente para gerarmos uma sociedade que melhor se dirija no rumo de uma maior justiça social? Sinceramente, creio que não. Como um amigo me citou uma vez, basta vermos a grande quantidade de seres leitores existentes na Europa e ficaremos chocados de vermos lá a existência de um pensamento ultraconservador bastante forte. Mas, se considerarmos leitura como direito humano básico, nos moldes do pensamento de Antonio Candido, então por exigir ao menos o mínimo necessário para a dignidade humana devemos levar a todos os seres humanos o prazer do texto, em especial do texto literário. 

Ademais, quando observo ao meu redor as pessoas defendendo posições políticas que acima de qualquer espectro político demonstram uma grande desumanidade em seu anacronismo, percebo o quanto a falta de um hábito de leitura sistemático é algo problemático para nosso convívio social. As pessoas quando não leem não conhecem a história de sua sociedade e, o que é pior, não questionam essa história na leitura de outras fontes fundamentadas em estudos pontuais sobre a realidade que nos circunda. O que ocorre com essas pessoas geralmente é a reificação de discursos prontos, acabados, os quais visam a manter as coisas do jeito que elas estão. Debater com elas se torna em um verdadeiro martírio, pois diante de uma argumentação baseada em textos embasados em estudos consistentes, por exemplo, deparamos com indivíduos que citam as postagens de alguma página qualquer do Facebook, a qual só se compromete em colocar a culpa de tudo em único partido ou em uma única pessoa política, ou nas correntes do Whatsapp que também promovem o espalhamento de boatos muitas vezes bem distantes da realidade concreta vivida por nós.

Além disso, a leitura gera empatia. Em especial, cito de novo, a leitura literária. Muitas vezes, não conseguimos explicar a alguém de mente meritocrática qual o problema dessa teoria que prega que com esforço um dia chegaremos à glória econômica sem dúvida alguma. Todavia, aos mostrarmos a dramatização de uma situação bizarra, como a de Fabiano e sua família em Vidas Secas, de repente sejamos mais capazes de promover com aquela pessoa que acredita em meritocracia um debate sobre a situação do ser e como ela afeta as possibilidades existenciais do mesmo, algo já visto em Heidegger por mim, filósofo marcado pelo erro político de colaborar com o regime nazista. A leitura permite o contato com outras realidades e a literatura permite-nos nos colocar no lugar do outro, sentir o que outro: por meio da catarse, sentimos o terror do outro, sua fome, sua sede, sua animalização.

Neste sentido, acredito que se a leitura não permite a certeza de que teremos um conjunto político harmonioso, ela ao menos permite com mais margem de certeza que as pessoas procurem um debate mais qualificado, com maior facilidade em ouvir o ponto de vista alheio. Como a leitura é um ato de rebeldia do leitor diante da estrutura provocativa da escrita do autor, seria inviável cobrar do ato de ler que ele nos desse a harmonia social levando a todas as pessoas uma certeza que levasse ao progresso pacífico. O que podemos esperar da leitura é que ela provoque no leitor o sentimento de querer falar sobre o que leu, trocar experiências e assim aprender a falar e ser ouvido em um ato discursivo pleno de sentido e liberdade.

Penso em duas salas de aula onde estive hoje: passei alguns vídeos e músicas sobre temas variados como a ditadura militar e o modo como a tecnologia fecha as pessoas em si mesmas. O que vi diante de mim foram alunos desmotivados no sentido de não prestarem atenção no que estava sendo ministrado, falando entre si, fazendo piadas, debochando do que era ministrado. Quando eu me propus a falar para discutir sobre o que era lido na tela, tive de me deparar com estudantes que não sabem ouvir o que o outro diz, que se julgam em um ambiente, a escola, de onde nada precisam extrair para ampliar sua visão de mundo. Percebi naqueles jovens estudantes pessoas sem o hábito de leitura, as quais precisam de um incentivo não apenas para lerem e verem a realidade de uma forma mais plena, mas sim para entenderem melhor o quanto o ponto de vista do outro é importante no momento de se fazer uma crítica em qualquer âmbito possível.

Claro que há sempre a possibilidade da pessoa se fechar em suas leituras e se julgar superior aos demais seres, os quais ela julga inferiores por sua menor leitura. Mas penso que isso se dá justamente ainda por um sentimento etnocêntrico, digamos assim, que coloca a leitura como prova de eruditismo, como prova de status, de superioridade social e intelectual. A leitura não é vista como ato político e sim ato de fetiche, mostrando assim todo um ar de superioridade de uma determinada camada social.

Não à toa, no texto em que fala da leitura como direito humano primordial, Candido fala de como muitas pessoas tidas como eruditas mais parecem fingir gostar de algo do que realmente gostar daquilo e que a reação de operários que tiveram obras consideradas clássicas entregues a eles era muito mais sincera do que as reações afetadas daqueles que liam por serem obrigados pela convenção de sua classe a degustarem este ou aquele clássico. Mesmo a leitura é vítima do valor de posse que os bens materiais têm em nossa sociedade.

Quando penso em tudo isso, começo a entender que de repente falar somente de leitura em uma rede social repleta de alunos e colegas de trabalho como o meu Facebook pode ser uma boa medida no sentido de colaborar, do ato de minha pequenez, com o processo de mediação de leitura.

*

Escrevi em um artigo que se encontra no prelo que o crítico é dono de uma verdade a qual ele é preso. Isso aprendi com Roland Barthes. Toda vez que me decido a falar de um livro de escritores como Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar, Clarice Lispector, etc. eu me proponho a expor nas entrelinhas de meu texto a visão política de meu ser, mesmo que isso não fique tão claro para os meus leitores. O crítico trabalha como mediador de leitura e de visões políticas, como todo e qualquer estamento midiático, por sinal.

Às vezes penso que somente o trabalho de mediação de leitura já me ajudará a fazer algum tipo de mudança na realidade a qual me circunda. A sensibilidade promovida pela leitura, a possibilidade de ampliar a dimensão dialógica do ser leitor e a informação proveniente do ato de leitura pode ajudar a sociedade a melhorar no sentido de desenvolver a sua autonomia.

Contudo, há certos temas que me parecem importantes e os quais devem ser abordados, ao menos a meu ver, de forma mais plena e direta. Não me sinto confortável em falar somente de leitura quando há questões importantes ligadas aos preconceitos de gênero, classe, etnia e orientação sexual urgindo ao meu redor, por exemplo. Claro que a literatura pode ajudar a elucidar tais questões, bem como o discurso crítico. Mas será que não estou sendo pouco incisivo em não lidar de forma mais direta em relação aos problemas que me rodeiam?

Entretanto, ao mesmo tempo, vejo de forma óbvia que sou apenas um nessa grande teia social. Lidar com todos os problemas sociais de forma positiva está além de minhas forças. Minhas armas são a docência e as palavras e ainda não sei ao certo como usá-las para modificar o contexto no qual vivo. Mas sei que estou na condição de quem deve fazer algo.

Concomitantemente, confesso temer em certos momentos uma certa dificuldade em relação ao mercado de trabalho por conta do fato de ainda não estar no funcionalismo público e defender bandeiras tão polêmicas, digamos assim.  A sutileza de repente seja uma arma de autopreservação de incisão mais profunda nos problemas centrais que se me apresentam, uma forma mais eficaz de debater as coisas sem correr os riscos de falar à toa ou de ser deturpado em meu discurso.

Tenho tido o desejo de transformar meu Facebook e outras redes sociais em uma grande rede de divulgação da leitura em todas as suas formas. Sempre estou vendo séries, filmes, livros, coisas as quais acredito serem dignas de serem compartilhadas. Recentemente, tenho tido contato com postagens antigas minhas de meu Facebook por meio das memórias dessa rede social e assumo que sinto uma tremenda vergonha de certas ideias e graus de exposição tidos por mim anos atrás, os quais ainda percebo, infelizmente, em meu modo de ser virtual. Quis fazer o meu perfil de plateia de minha vida e infelizmente perdi um tempo muito precioso o qual eu poderia ter investido em mais leituras e em mais escrita compartilhadora de visão de mundo e debate enriquecedor.

Ainda não sei ao certo o que farei de meu eu virtual. O que é certo é querer afastar dali coisas as quais só devem ser compartilhadas por mim comigo mesmo: meus dramas e meus dilemas, por exemplo. Como não tenho ainda uma grande coluna em um grande jornal para falar de minhas leituras, posso fazer dessas redes sociais que uso a minha arma de luta rumo a um ativismo pela leitura.

Mas não pela leitura por si só e sim pela leitura desassossegada, como sempre falei ao citar José Saramago: a leitura desvairada de Mário de Andrade, a leitura que leva ao pensamento crítico simplesmente por ser leitura, por ser descompressão de ser. Uma leitura que nunca se basta, mas que ao contrário do sexo, que também nunca se basta, não encontra o seu fim em seu fim e sim em todo o seu caminho de imprecisão e indeterminação.

Sinto que minha vida melhorará em todos os aspectos se eu fizer isso, mesmo ainda havendo em mim um grande desejo de discutir na web questões políticas relevantes e pontuais. Por ora, eu me sinto indisposto a tais debates. Porém, no meu ativismo pela leitura, no meu querer ver todos os cantos repletos de bibliotecas e livrarias acessíveis ao público de todas as massas, eu deixo bem claro, mesmo que implicitamente, que acho muito errado um mundo e um sistema econômico em que apenas umas poucas pessoas têm ao acesso ao melhor da vida e as que não têm a mesma sorte ainda são condenadas como ineptas, como se delas fosse a culpa de sua pobreza material e cultural. Artifício que só aumenta o tanto de injustiça que há nessa realidade.

***

Rafael Kafka é colunista no Letras in.verso e re.verso. Aqui, ele transita entre a crônica (nova coluna do blog) e a resenha crítica. Seu nome é na verdade o pseudônimo de Paulo Rafael Bezerra Cardoso, que escolheu um belo dia se dar um apelido que ganharia uma dimensão significativa em sua vida muito grande, devido à influência do mito literário dono de obras como A Metamorfose. Rafael é escritor desde os 17 anos  (atualmente está na casa dos 24) e sempre escreveu poemas e contos, começando a explorar o universo das crônicas e resenhas em tom de crônicas desde 2011. O seu sonho é escrever um romance, porém ainda se sente cru demais para tanto. Trabalha em Belém, sua cidade natal, como professor de inglês e português, além de atuar como jornalista cultural e revisor de textos. É formado pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará em Letras com habilitação em Língua Portuguesa e começará em setembro a habilitação em Língua Inglesa pela Universidade Federal do Pará. Chama a si mesmo de um espírito vagabundo que ama trabalhar, paradoxo que se explica pela imensa paixão por aquilo que faz, mas também pelo grande amor pelas horas livres nas quais escreve, lê, joga, visita os amigos ou troca ideias sobre essa coisa chamada vida.

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