Um mapa do século de ouro da literatura russa e dez romances fundamentais

Por Sergio Pitol

Dostoiévski e Tolstói ainda disputam pelo lugar de representantes da literatura russa.

Em meados do século XIX começou a aparecer nos círculos culturais europeus a existência de uma notável e estranha literatura surgida na Rússia. No início, parecia uma extravagância, uma grande piada. Daquele lugar se esperaria sair homens silvestres e cândidos, o bom selvagem sonhado pelos enciclopedistas, ou príncipes de aparência intensamente elegante que disfarçaria uma realidade mais tumultuosa que a estabelecida na Europa como um todo. Deles se podia esperar tudo, mas não a criação artística e muito menos uma cultura literária.

De imediato, a chegada dos russos apaixonou os leitores ocidentais e venceu todos empecilhos. No fim do século, Tolstói, Dostoiévski, Turguêniev eram traduzidos para quase todos os idiomas europeus e estavam na boca de gente como Nietzsche, Freud, Gide, Hamsun, Fontane, entre outros.

Essa floração literária era o prodígio de uma nação que nunca conheceu o Renascimento nem o Século das Luzes, sempre tomada por um governo bárbaro, onde um espião estava no encalço de cada cidadão. Os grandes escritores russos conheceram ao menos uma vez a prisão, os trabalhos forçados, o desterro, as humilhações impostas por uma censura obtusa, a perpétua vigilância de seus movimentos e a vistoria de sua correspondência.

O período que vai de 1825 a 1904 tem seus limites bem marcados. Em 1825 aparece publicado o primeiro capítulo de Eugene Onegin, de Aleksandr Púchkin, quem transformou a literatura russa, ou melhor, que a criou. Toda a prosa anterior era censurada. E essa Idade de Ouro termina em 1904, ano em que morre Anton Tchekhov. 

O elenco de autores e seu repertório são incomparáveis. Eugene Onegin e A dama de espadas, de Púchkin; Um herói do nosso tempo, de Mikhail Liermontov; Almas mortas, O nariz, Diário de um louco, O inspetor geral, de Nikolai Gógol; O idiota, Os demônios, Os irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski; Pais e filhos e Primeiro amor, de Ivan Turguêniev; Oblómov, de Ivan Gontcharóv; A morte de Ivan Ilitch, Anna Kariênina e Guerra e paz, a mãe de todos os romances, de Liev Tolstói; e Enfermaria n.6, No fundo do barranco,  As três irmãs, O jardim de cerejeiras, de Anton Tchekhov.

Certamente os russos não descobriam o gênero sozinhos (foram, isso sim, leitores assíduos e entusiastas de nomes como Cervantes, Sterne, Hoffmann e Stendhal), mas o transformaram e ampliaram seus limites por intuição pessoal. Tolstói concebe uma apoteótica exaltação da vida e logra a criação de um mundo imenso. Em Guerra e paz, por exemplo, há 559 personagens, todos individualizados na forma de falar e agir. E a riqueza gestual imprime uma deslumbrante visualidade às cenas. Proust se assombrava com a fluidez daquela linguagem que permitia as mais diversas variações de emoção.

Um conto de Gógol escrito quando acabara de sair da adolescência, Iván Fedorovich Schinka e sua tia, poderia ser incorporado perfeitamente à literatura do absurdo que Ionesco cultivaria um século e meio mais tarde. Seus contos são todos excepcionais, e, sobretudo, Almas mortas, talvez o romance mais grotesco que alguém já escreveu. Para Cioran, “Dostoiévski é o escritor mais profundo, mas complicado de todos os tempos”. Ninguém soube explorar com melhor intensidade a obscura relação que o mal estabelece com o bem e atroz com o místico.

Tchekhov, um dos últimos grandes do século de ouro da literatura russa.


O último grande escritor desse século de milagres foi Tchekhov. Simón Karlinski esboçou sua presença como: “De um modo tranquilo e educado, Tchekhov é um dos escritores mais profundamente subversivos que existiu em toda a história”. Um dos críticos mais importantes da literatura eslava, o italiano Angelo M. Ripellino, por sua cultura, intensa percepção e pela escrita, compreende o universo desse autor da seguinte maneira: “Pulsa nestas obras a música apagada da vida cotidiana; uma vida sem ímpeto heroico, um lentíssimo arrastar-se; um fluxo de vida angustiada [...] Um universo onde os homens, mônadas aflitas, são vazios, suspiram e se perdem em sonhos estéreis [...] As vezes, o balbucio dessas mônadas se organiza, e fazem o possível para voltar a juntar-se, como homens que escavam um muralha de lados opostos. Mas, com mais frequência, seus golpes são pensamentos dispersos, fragmentos de frases escapadas de um mudo fluir da consciência. Escapa de suas palavras um oculto gorgolejo de vibrações psicológicas, um subtexto que é como a sombra, a obra cara do que diz [...] O diálogo deixa de ser um meio de compreensão, é uma collage de solilóquios divergentes”.

As histórias da literatura russa repetem com frequência um comentário de Dmitri Merejkvoski sobre a pobreza e desagregação cultural da última década do século XIX e os primeiros anos do XX: “A intensidade da obra dos maiores romancistas foi extraordinária, mas não conseguiu formar uma civilização semelhante à da França dessa época, da Grécia antiga ou a Florença do Renascimento. Todo escritor era único; dessa falta de espírito orgânico e comunitário provém a decadência e a paralisia intelectual russas do presente”.

Mas, Merejkovski parece estar perdido na troca dos séculos porque nunca conseguiu enxergar a grandiosidade da obra de Tchekhov, nem sequer a dos últimos anos, quando surgiu o que há de mais notável na sua literatura. Tampouco esforça-se por conhecer o primeiro movimento simbolista, do qual participou sua companheira, a poeta Zenaida Gippius. Os simbolistas descobriram novos ritmos carregados de erotismo, decadentismo e misticismo. A figura mais importante do período foi Vassili Rozanov, quem agora na nova Rússia ressuscitou como um dos personagens mais importantes do passado, e também o romancista Fiódor Sologub.

A segunda geração de simbolistas conta com dois gigantes: o poeta Aleksandr Blok, marcado pelo pressentimento de um iminente apocalipse em livros esplêndidos, como Os doze e Os escitas, e o romancista Andrei Biéli, o Joyce russo, sem falar nos escritores mais excêntricos: Alexeï Remizov, um romancista para escritores, cujos romances influenciaram Bulgákov e Zamiatin. E o último, Mikhail Kuzmin, o mais elegante esteta dessa época decadente, quem escreveu Asas, o primeiro romance de temática homoerótica na Rússia.

Anna Akhmátova, um ícone da poesia russa

Outro grupo de poetas, os acmeístas, se aproximaram dos simbolistas mas terminaram por converter-se em seus opositores; os principais: Nikolái Gumilev, Anna Akhmátova, Ossip Mandelstam, Boris Pasternak e Marina Tsvetáieva, quase todos eliminados posteriormente pelo stalinismo. Outra corrente opositora à simbolista, os futuristas, também apresenta os notáveis nomes de Vladimir Maiakóvski e Víktor Khlébnikov.

Outros autores, todos eles romancistas, iniciaram o ofício durante o comunismo, os três posteriores à revolução bolchevique, inspirados por Maksim Górgki. Cada um descobriu um estilo diferente, a cepa realista gorkiana se converteu numa soberba escrita trágica, complexa e imaginativa. Os melhores, podemos citar, Issac Bábel e Andréi Platónov. Além deles, a literatura russa teve no exílio figuras esplêndidas como Iván Bunin, o primeiro Prêmio Nobel de Literatura outorgado a um russo, Nina Berberova, quem aos oitenta anos foi descoberta e traduzida em quase todos os idiomas, Vladimir Nabokov, quem escreveu uma parte de seus livros em russo e cuja obra mestra é A dádiva.

Até 1925, a pressão ideológica começou a distorcer barbaramente a cultura. No Congresso de Escritores Soviéticos de 1934 ficaram presas todas as possibilidades de liberdade. A única via para a literatura foi se converter ao realismo socialista. O destino de milhares de escritores, acadêmicos, jornalistas literários foi o exílio nas longínquas repúblicas soviéticas, em Gulag e na exterminação.

***

Dez romances fundamentais da literatura russa

A literatura russa no Brasil deve sua presença a pelo menos três nomes: Boris Schnaiderman e Tatiana Belinky, aos quais se juntam Paulo Bezerra e  Rubens Figueiredo. E isso se deu há pelo menos uma década; até então o que nos chegavam eram versões atravessadas, ou a partir de edições francesas ou estadunidenses. É evidente que, uma geração depois, há outros nomes que começam a se destacar e, certamente, ampliarão o leque de possibilidades da presença russa no país. É dos da primeira geração grande parte dos livros reunidos na listinha a seguir. Dez títulos que poderiam ser vinte, ou poderiam ser todos os já editados por aqui; o valor e riqueza da literatura russa são inestimáveis e indispensáveis à formação de qualquer leitor. Por isso, tomem os dez títulos abaixo como uma introdução ao universo particular de cada autor. Temos certeza de nunca mais você irá querer sair de lá. Mais um adendo: a lista foi elaborada a partir das menções no texto de Sérgio Pitol e as sinopses são reescritas a partir das oferecidas por cada editora que publicou a referida obra.

1. Guerra e paz, de Liev Tolstói (Trad. Rubens Figueiredo / Cosac Naify): é a obra-prima do escritor; o relato sobre a campanha de Napoleão Bonaparte na Rússia até o ano de 1820 foi escrito depois de uma extensiva e meticulosa pesquisa de Tolstói que vai desde os estudos do francês Adolphe Thiers e do russo Mikháilovski-Danílevsk a testemunhas orais. No livro de uma vida, o leitor encontrar um panorama rico de detalhes sobre todo o embate que culminou na derrota francesa.



2. Os irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski (Trad. Paulo Bezerra / Editora 34): é o último romance do escritor; uma síntese de toda sua extensa produção literária. A narrativa influenciou a construção do pensamento de nomes como Nietzsche e Freud, que considerou o maior romance desde sempre; um livro ao mesmo tempo filosófico e policial, que trata da conturbada relação entre o devasso Fiódor Karamázov e seus três filhos: Aliócha, "puro" e místico; Ivan, intelectual atormentado; e Dmitri, orgulhoso apaixonado.

3. O mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov (Trad. Zoia Prestes / Editora Alfaguara): é um romance revolucionário e que, quase não veio a lume. Conta-se que na perseguição pelo regime comunista, o escritor teve de queimar o manuscrito original e depois reescrever toda a obra por longo período de dez anos; a última versão teria sido ditada para sua mulher semanas antes de sua morte. Narra a chegada do diabo e sua comitiva (um feiticeira nua de "ardentes olhos fosforescentes", um homem de roupas apertadas e monóculo rachado e gato preto de "proporções espantosas") na Moscou dos anos 1930. É um romance cuja narrativa mistura o cômico e o fantástico numa clara denúncia satírica do regime soviético, da censura e da repressão.

4. Lady Macbeth do distrito de Mtzenski, de Nikolai Leskov (Trad. de Paulo Bezerra / Editora 34): publicado em 1865 como folhetim na revista editada por Dostoiévski, Epokha, o romance é considerado a obra-prima de Leskov. O leitor acompanha a transformação de Catierina Lvovna, a jovem e entediada esposa de um velho comerciante, em cruel assassina; uma heroína fria e calculista que pode ser vista como um símbolo de libertação feminina em relação à opressão patriarcal. A crítica tem a obra como uma versão às avessas da tragédia de Shakespeare; serviu de inspiração para alguns aspectos do romance noir de Raymond Chandler, inspirou a famosa ópera de Dmitri Shostakóvitch e o filme Lady Macbeth siberiana do cineasta polonês Andrzej Wajda.

5. Doutor Jivago, de Boris Pasternak (Trad. Zoia Prestes / Best Bolso): é um romance histórico e foi escrito entre os anos 1910 e 1920, mas só finalizado em 1956. A narrativa acompanha a vida de Yuri Jivago, um médico e poeta dividido entre duas mulheres; o livro tem como pano de fundo a Revolução Russa de 1917. O livro foi censurado e até usado como arma pelos contrários ao regime soviético. Conta-se que a Agência Central de Inteligência (a CIA) chegou a publicar o livro com distribuição entre soldados e cidadãos russos e teria subornado o Comitê do Prêmio Nobel a conceder a honraria ao seu autor. O título foi adaptado para o cinema por Robert Bolt com direção de David Lean, em 1965. 



6. Oblómov, de Ivan Gontcharóv (Trad. de Rubens Figueiredo / Cosac Naify): considerada também uma obra-chave da literatura russa do século XIX. Na época de publicação o livro suscitou um amplo debate por retratar Iliá Ilitch Oblómov, o protagonista que dá título ao romance, um rico senhor de terras que mal sai do sofá e passa os dias de roupão, fazendo planos que nunca põe em prática. Isto é, uma aguçada crítica à elite russa.

7. Um herói de nosso tempo, de Mikhail Liérmontov (Trad. de Paulo Bezerra / Martins Fontes): descrito como um não-romance, mas uma biografia de tendência psicológica em que cada história mostra um traço característico da personalidade complexa e romântica de Pietchórin, lido muitas vezes como um alter-ego do próprio escritor. O livro se constitui como se um grande esboço para composição desse herói incompleto; comparado frequentemente aos textos em prosa de Pushkin, é uma das obras mais representativas do grande século literário russo e foi publicado pela primeira vez em 1840.

8. Tarás Bulba, de Nikolai Gogól (Trad. de Nivaldo dos Santos / Editora 34): é um romance produto de uma longa pesquisa empreendida pelo autor acerca da história e do folclore da Ucrânia, sua terra natal. De cunho nacionalista, a narrativa é composta do relato das sangrentas batalhas entre ucranianos e poloneses no século XVI; chamados de alegres, violentos, desregrados, corajosos, bêbados, sentimentais, anárquicos e implicáveis pelo próprio Gogól, o livro é um extenso panorama épico sobre os cavaleiros cossacos, ou a aproximação sobre um tema que encantou igualmente a Púchkin e Tolstói. Esta foi uma das obras que alçou o escritor à popularidade que alcançaria ao longo de sua carreira. 

9. O duelo, de Tchekhov (Trad. de Marina Tenório / Editora 34): é um retorno ao tema do "homem supérfluo", de Oblómov. Mas, a retomada que faz o escritor conjuga a outro tema recorrente na literatura de seu tempo que irá influenciar obras como a de Púchkin e Liérmotov. No romance o duelo assume diversas frentes: entre dois amantes que talvez não se amem mais, entre dois homens que habitam dois polos de ideologias opostas, entre sonho e realidade, e, por fim, um duelo entre as formas narrativas, o conto e o romance.

10. Um dia na vida de Ivan Deníssovitch, de Aleksandr Soljenítsin (Trad [portuguesa] de H. Silva Letra / Círculo do livro): é o principal romance do ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1970. Narra a história de um prisioneiro russo condenado a dez anos de trabalhos forçados num dos campos de concentração na Sibéria: Ivan Deníssovitch foi um soldado que, em 1941, deixou sua pequena aldeia para combater na frente noroeste, quando tropas russas estavam sitiadas pelas tropas alemães. Preso dos alemães, Ivan e mais quatro companheiros conseguem escapar e são apanhados novamente, agora pelos próprios russos e condenados ao degredo.



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