Galveias, de José Luís Peixoto


Por Pedro Fernandes



Este romance de José Luís Peixoto é um rico painel de um Portugal profundo; aquele que se calhar só resiste – não com todas as cores – em Galveias. Este título é muito sugestivo, visto ser mais comum o leitor encontrar romances cujo nome é de uma personagem relevante para a narrativa e não o nome de um lugar; constatação esta que só nos faz concordar com uma linha de raciocínio: o espaço, não o único onde transcorre as ações das narrativas que enformam o romance, é a personagem principal.

Não é o espaço único onde se passam as ações porque o escritor, mesmo embebido de certa verve realista e mesmo buscando desenhar figuras que são personagens de Galveias, acompanha aquelas que já ganharam as fronteiras fora da freguesia ou estão em trânsito pelas redondezas ou aí chegaram para firmar moradia, como é o caso da brasileira Isabelle, mineira emigrada para Portugal pela relação construída com uma portuguesa que lhe fez cair no mundo dos negócios com o corpo.

Um lugar não se define pela paisagem. Tampouco por sua existência no mapa. Um lugar se define pelas pessoas que o habitam. É necessário que alguém fale dele para que sua existência de um ponto incerto no globo se confirme como realidade. E é construindo tipos, investigando a vida sem muito a dizer, que o narrador constrói essa personagem-lugar; define Galveias e coloca o lugar no mapa. Se todas as aldeias são aparentemente iguais, fiquemos apenas no aparente: Galveias é o rio que passa pela aldeia de Alberto Caeiro ou é o Rio Almonda de José Saramago em As pequenas memórias. Isto é, Galveias é Galveias e não qualquer aldeia. Nem qualquer aldeia é igual.

Ao transformar o espaço em personagem, o romancista reconduz o seu romance para o rol daqueles que buscam renovar de forma diversa os modos como que as duas categorias têm se assumido na narrativa contemporânea. Desconstrói a ideia de que o lugar é somente um ponto geográfico para compreendê-lo como forma marcada de afetos; todos os tipos por ele descritos, sobretudo os da geração antiga (apesar de marcado por duas datas específicas, temporalidade que responde pelas duas partes em que se divide o romance, janeiro de 1984 e setembro de 1984, este é um romance cujas narrativas, se olhamos para a diversidade de idades das personagens aí albergadas, percorrem pelo menos três gerações distintas), estão impregnados daquilo que Galveias representa para si ou daquilo que está guardado pela sua própria memória.

Há aí uma relação tão profunda do homem com a terra, tal como a assumida pelas gentes de Levantado do chão, de José Saramago, por exemplo, que o homem é por vezes a terra. Tanto é verdade que basta citar aqui apenas um episódio específico que justifica isso e reafirma essa condição diversa assumida pelo espaço; trata-se de um acontecimento que está entre os mais significativos desse romance: quando da morte da mãe de Jacinto e José Cordato, o primeiro vê com maus olhos a atitude do irmão em, tão logo se cumpra o funeral da mãe, se desfazer do pedaço de chão deixado como herança.

E é nesse processo de aproximação e usura da terra que o narrador notará a forma diversa como se apresenta o homem – isto é, o modo como o espaço lhe influencia na elaboração da persona – e instaura um conflito caro à reflexão literária, a relação rural e urbano, tradição e modernidade. Esse último eixo, aliás, é o principal responsável pela linha tensional sobre a qual o romancista constrói o romance: é só o leitor lembrar, por exemplo, da presença recorrente da máquina, a leva de motos que é o divertimento e o sinal de poder e posse dos homens jovens desse povoado.

Se Jacinto é uma personagem mergulhada num tempo quase mítico, separado do tempo corrente, por estar movido pela força dos humores naturais e manter uma relação com o outro, sua companheira, marcada pela ação, pelo gesto, os movimentos do corpo, do silêncio de cunho reflexivo, isto é, num claro embotamento homem-terra, o irmão é figura expansiva, vive num mundo de costumes marcados pelo relativismo das coisas e em que as relações com o outro estão marcadas pela troca de favores, como a vivência entre ele o doutor Matta Figueira.



Mas, o motivo desencadeador dessa história e das muitas que compõem esse romance – cada capítulo recobra uma situação diversa e geralmente marcada por um conjunto diferente de figuras – ou o motor para que se processe as narrativas é um acontecimento de ordem quase fantástica e de natureza fundacional por colocar esse povoado rural no centro das atenções do mundo é a queda de um meteorito, ou coisa do tipo, que deixa todos em polvorosa, entregues às mais diversas suspeitas do acontecimento. 

Esse fato estará marcado em todas as histórias do romance seja porque o narrador trate de investigar o que uma e outra personagem fazia na ocasião de sua ocorrência, seja pela transformação também de cunho fantástico de alterar o sabor da massa do pão, além do ar sempre impregnado pelo forte cheiro de enxofre, imagem que figurará no desfecho do romance como se uma alegoria que ultrapassa a condição definidora da Galveias recobrada pelo romancista para ser uma representação universal sobre a impossibilidade do homem em respirar outros ares, os mais puros, talvez os da sua infância, capaz de readimiti-lo num mundo já tomado por certo desencanto. A queda do meteorito assume quase a função eternizadora da narrativa, afinal, é por causa dela que a narrativa se faz, e é a narrativa quem também cumpre com a tarefa de colocar Galveias no mapa.

A cada capítulo, José Luiz Peixoto constrói uma história diferente que, por vezes se modela por um detalhe estilístico igualmente diverso: ora o leitor está ante um texto invadido por um humor pitoresco, de riso desbragado, jocoso e quase caricato que dá forma não uma personagem comum, mas ao tipo, o saloio do interior de Portugal; ora é um texto marcado pelas cores de uma melancolia, um saudosismo, certa memória delicada sobre o passado; ora é a construção de uma linguagem do suspense, de investigação. E Galveias se constitui como se uma partitura musical, com tons diversos, mas responsáveis por uma melodia justa através da qual se ouve alguns dos melhores tons da prosa clássica portuguesa, seja um Júlio Diniz, um Eça de Queirós, ou um Almeida Garrett.

E não é apenas um romance que se centra na relação homem-terra; também se constrói pela relação homem-destino. A história que é lembrada por esse narrador de cunho quase documental-memorialístico, de olhar perspicaz, incapaz mesmo de não esquecer cada um dos cães (e são muitos) que habitam a cena de Galveias, é sempre perpassada pelo passado como se fosse do seu gosto esclarecer toda uma vida que de tão simples não há mais que poucos episódios significativos para dizê-la. Não é que essa existência encalhada num tempo onde tudo é devagar (para lembrar do poema de Carlos Drummond de Andrade) seja menos significativa que a vida fora desse interior; mas a constatação de que a vida humana não se escreve – longa ou breve – como um todo de significação e sim um espaço através do qual algum ou outro episódio adquire uma referência capaz de nos fazer outro além do que somos.

Esse conjunto diverso de episódios compõe um painel cuja responsabilidade de montagem é dada ao leitor. Em Galveias, José Luís Peixoto exercita a poética da fragmentação no mesmo instante em que, em nome de certo toque realista dilata a densidade poética com que enforma sua já conhecida linguagem desde Morreste-me. Este é um livro singular na obra do escritor português; a diversidade estilística, a quantidade de personagens que constrói de igual maneira as situações que constrói evoca no fiel leitor que a prática literária do escritor se distancia da ideia do escritor de um livro único, ou talvez esteja nesse exercício, uma prática que almeje alcançar a grande obra. Nesse trabalho, é de seu interesse uma aproximação e destituição de lugares determinados e-ou definidos pela crítica e os estudos literários.

O que move Galveias é um retorno à experiência como forma indispensável à construção da narrativa – isso numa ocasião em que o caráter da imaginação criativa se firma como uma das maneiras mais convincentes da narrativa contemporânea. Essa composição que o leitor logo perceberá como uma integração de perspectiva clássica de enforme do narrado na nova narrativa contempla um trabalho de maturidade literária do escritor: a de se aproximar da tradição a fim se colocar como uma voz dissonante e por sua vez integrar-se à prática literária de seu tempo. Quem terá conhecido o José Luís Peixoto de desde sempre gostará de vê-lo em boa forma revisitando a própria feitura do que há muito já tem feito com boa prática literária; quem ainda não o conhece e busca algum livro pelo qual adentrar ao seu imaginário, tem em Galveias uma boa opção.

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