Literatura e Jornalismo ou Jornalismo e Literatura, não importa a ordem, importam esses doze livros

Como a história, a literatura e o jornalismo são sustentados pelo ponto de vista de quem narra. A variável nos três modos narrativos encontra-se na forma como o fato é reproduzido através da escrita. Mas, mesmo as fronteiras entre escrita são tão tênues que a possibilidade de separar tais modos alguma vez não existiu. Claro, estávamos numa ocasião em que o conceito para literatura ainda não tinha seu crédito como passou a ter com o nascimento dos estudos literários.

Mas, mesmo depois da separação, seus escritores, alimentados por escolas de escrita diferentes conseguiram criar algumas fronteiras que, forte para uns, muito frágeis para outros. E esse segundo grupo jamais deixou de ousar nas interferências dos modos narrativos; muitos estiveram na fronteira e, na extensa necessidade de nomear tudo, passamos a chamar de jornalismo-literário, história-romanceada etc.

As variáveis com que se nomeia as relações de escrita demonstram a impossibilidade de agregá-la em universos específicos e as distinções entre os tais modos é apenas uma disposição arbitrária. É evidente mesmo quando não havia toda a parafernália teórica de distinções entre esses modos que o escritor sabia em qual modo poderia incluir sua produção literária.

Agora, num tempo em que os exercícios de escrita, cada vez mais variáveis e, portanto, afastados de algumas determinações impostas pelas regras do narrar, estaremos preparados para uma compreensão sobre a definição ainda a mais coerente, tudo o que está escrito é literatura? A resposta é muito óbvia e as novas taxinomias respondem por si. Se fora do campo teórico, este no qual transitam os que escrevem, tudo é possível, a leitura, geralmente o fator condicionante do escrito, não é feita com essa mesma anarquia.

A posição assumida pelos responsáveis do Prêmio Nobel de 2015 é, ora um retorno a esse tempo imemorial ora um reconhecimento de uma parte de escritores sempre acusada de uma escrita menor. Se a atribuição veio numa boa hora ou se foi dada a alguém que realmente devia ter recebido é uma coisa, mas, pela conjuntura, tal como fizeram com a eleição de Alice Munro, uma autora só de contos que recebeu a honraria há dois anos, ela tem seu mérito.

E, embalados pela entrega do Nobel a Svletana Aleksiévitch, que resolvemos retornar ao paraíso das listas, para indicar alguns títulos desde sempre apontados como alguns dos melhores no gênero, vamos chamar assim, do jornalismo-literário. Sempre que construímos essas indicações costumamos lembrar de algumas coisas: primeiro, não é uma lista fechada, segundo, não é um ranking e terceiro, como não lemos tudo o que indicamos (alguns títulos estão aqui porque são recorrentes naquilo que comenta a crítica), parte das sinopses são resultadas dos textos oferecidos pela editora responsável pelas edições.

Truman Capote. Com A sangue frio o escritor reinventou as fronteiras entre a literatura e o jornalismo nos Estados Unidos. 

1. Os sertões, de Euclides da Cunha: essa obra da literatura brasileira pode ser recolhida numa quantidade diversa de listas: literatura e história, literatura e geografia, literatura e sociologia, literatura e viagem, literatura. Ela é uma peça fundamental a todo leitor que nutra interesse por constatar a força da língua portuguesa – explorada aqui ao seu limite. A obra nasceu quando o escritor foi enviado como correspondente do jornal O Estado de São Paulo para fazer a coberta sobre o conflito de Canudos, povoado no interior da Bahia atacado pelo governo sob a acusação de formação de um estado paralelo no Brasil. O horror do massacre iminente, a resistência do povoado, a força da natureza e a integração do homem a ela foram suficientes para que Euclides da Cunha escrevesse apenas um texto informativo para a imprensa, tornou-se a oportunidade de redigir um dos relatos mais bem elaborados e ricos da nossa literatura.

2. A sangue frio, de Truman Capote: o subtítulo da tradução publicada no Brasil é “relato verdadeiro de um homicídio múltiplo e suas consequências”; totalmente desnecessário, é verdade, porque a grande pista deixada pelo escritor está mesmo na expressão do seu título. É um dos textos mais lembrados quando o assunto é jornalismo e literatura, porque, acontece com o estadunidense o mesmo que aconteceu com Euclides da Cunha: quando chegou a Holcomb, no Kansas, para fazer a cobertura da chacina da família Clutter, executada friamente por Perry Smith e Dick Hikcock, que a princípio tinham interesse apenas de roubar os fazendeiros, Capote viu que não poderia ficar só no exercício de relatar o que viu. O grande empecilho do escritor foi a necessidade de descer do seu patamar e ganhar a confiança necessária dos moradores e dos presos condenados à forca a fim de reconstruir minimamente o ocorrido; para isso contou com a ajuda da também escritora Harper Lee e escreveu o romance que o projetou internacionalmente.

José Saramago. O escritor que, em nenhum instante se distanciou de uma posição política sobre a realidade.

3. Folhas políticas, de José Saramago: diferente dos livros citados aqui, este não é um romance ou um relato que teve sua gênese numa jornada para a imprensa. Não podemos esquecer, no entanto, que boa parte da formação literária do escritor português nasceu nas redações do jornal, território onde atuou em várias frentes. Nesse livro copia-se as crônicas de teor político escritas entre 1976 e 1998; trata-se de uma sequência do que primeiro apareceu em As opiniões que o DL teve e Os apontamentos. As crônicas são fundamentais para se compreender a gênese de alguns temas transportados para os romances e a opinião crítica de um dos maiores intelectuais do século XX.

4. Hiroshima, de John Hersey: se o livro de Truman Capote está em todas as listas dessa natureza, este é também outro título recorrente porque é um registro muito vivo sobre uma das maiores tragédias produzidas pelo homem. Em agosto de 1945, no auge da corrida armamentista, os Estados Unidos propositalmente soltaram sobre Hiroshima e Nagazaki uma das armas de maior poder de destruição já fabricada. O resultado: só na primeira cidade morreram algo em torno de 100 mil pessoas. John Hersey foi um dos primeiros a voltar ao cenário do crime; um depois escreveu para a revista The New Yorker um dos relatos mais contundentes sobre Hiroshima a partir do depoimento se seis sobreviventes. Quarenta anos depois voltou ao local e redigiu o que foi o último capítulo dessa história; o resultado é este livro em que o narrador dá a fala aos protagonistas do horror.

5. As religiões do Rio, de João do Rio: ninguém discorda que o cronista foi um dos que melhor traduziu a efervescência modernista e as transformações passadas pelo Rio de Janeiro – não o lado visível, exposto pela mídia comum mas o da periferia, o da gente que sempre foi notícia para o jornal sensacionalista. O livro aqui indicado foi um dos mais aclamados pela crítica, pela observação cuidadosa, a percepção profunda e ironia fina num registro sobre as crenças do povo, dos intelectuais e da pequena burguesia carioca. Desenhado como um quadro de costumes de uma cidade, este é um título que se mostra também como um quadro do país, da diversidade social de um país dos que melhor recebeu a prática do sincretismo religioso e cultural.

6. Vida de escritor, de Gay Talese: apresentado sempre como dos escritores mais importantes do jornalismo literário estadunidense e autor de algumas obras quase intragáveis para alguns leitores, como Fama e anonimato, neste título aqui publicado, ele torna a própria vida em tema a ser investigado, isto é, trata-se de uma espécie de autobiografia jornalística ou um livro sobre o ofício da escrita e os reveses que acometem aos que por ele se aventuram. Aí está o seu início na área com um jornalzinho da faculdade, os dez anos que trabalhou como repórter do New York Times e mais uma série de trabalhos ao longo de sua extensa carreira, sobretudo os episódios mais frustrantes, como um narciso desfigurado, que se olha para si sem qualquer complacência ou solidariedade para com sua imagem ou ainda a necessidade de estar sempre em mãos alheias quando se é alguém que vive da palavra escrita.

Gabriel García Márquez, primeiro jornalista, depois romancista. Um e outro implicados?

7. Notícia de um sequestro, de Gabriel García Márquez: o primeiro livro do escritor colombiano que iniciou sua carreira escrevendo para o jornal e viajando o mundo inteiro pela profissão foi como peça de um folhetim. Das atividades de jornalista, García Márquez levou a objetividade de se contar uma história e a forma de diversa de contá-la. Neste título em especial, fez uma pesquisa minuciosa sobre o drama de sequestros ocorridos na Colômbia no ano de 1990, entre eles, o de uma amiga muito próxima. Mesclando história reais com ficção, o livro finda por apresentar a face mais dramática de seu país e é um exemplo sobre o limite tênue entre a criação narrativa para o jornal e para a ficção, sobretudo porque se beneficia do estilo reportagem para expor o cotidiano dos cativeiros, as negociatas entre traficantes, o horror vivido pelas famílias das vítimas e a repercussão desses acontecimentos na vida individual dos colombianos.

8. A luta, de Norman Mailer: o escritor dispensa apresentações, pela intensa criação e pela luta contra determinadas posturas assumidas pelo seu país natal como a Guerra do Vietnã em 1969, ação pela qual foi preso. E esse tema que o leva à construção desse livro. Muhammad Ali, que havia perdido o título mundial dos pesos pesados por se recusar a lutar no Vietnã, desafia o campeão George Foreman. A autonomia negra versus o establishment branco. Mailer apropria-se da história cuja gênese data de 1974 para construir os retratos mais magistrais sobre tensão política e ideológica da época. O livro, celebrado no mundo todo, foi adaptado para o cinema com depoimentos do próprio Mailer em Quando éramos reis, título que levou o Oscar de Melhor Documentário em 1996.

Antônio Callado. Quando o jornalismo é memória e juntos são literatura.

9. Esqueleto na lagoa verde, de Antônio Callado: em várias situações nosso escritor empregou a experiência do mundo jornalístico para compor sua obra; a mais conhecida talvez seja a do romance Memórias de Aldenham House, livro que recupera uma série de acontecimentos com um grupo de jornalistas da América Latina em exílio na Inglaterra e a luta por escapar e derrubar alguns dos regimes ditatoriais mais dramáticos da história frio – livro que foi escrito graças às vivências de Callado como funcionário na BBC no serviço de Rádio Difusão da emissora na França. Para a escrita desse relato, o escritor recorre ao episódio de desaparecimento do coronel britânico Harrison Fawcett e seus companheiros numa expedição realizada em 1925 pelo interior do Brasil em busca de uma fabulosa Atlântida tropical. Vinte e sente anos depois, Callado esteve na região do Xingu, numa viagem organizada pelos Diários Associados e, graças ao sertanista Orlando Villas-Bôas e aos índios calapalo chegaram ao local onde presumivelmente se encontrava a cova com os ossos do coronel desaparecido. O relato serviu depois para a escrita do romance Quarup, considerado uma das obras fundamentais da literatura de língua portuguesa. Antonio Callado reconstrói os passos do explorador britânico e os dos que procuraram decifrar o sentido de sua obsessão.

10. O teste do ácido do refresco elétrico, de Tom Wolfe: o escritor é um dos precursores de um exercício de escrita que chamou de Novo Jornalismo; ensaístas e jornalistas experimentaram uma diversidade de técnicas literárias, misturando-as com as tradicionais ideias da imparcialidade jornalística.  O livro de Wolfe é um exemplo dessa natureza. Publicado pela primeira vez no final da década de 1960, aí é narrado a história de um famoso escritor que, sob sua liderança, cria um grupo extravagante autodenominado Festivos Gozadores; a missão, difundir o uso do LSD, ainda pouco conhecido, como instrumento para abrir novas portas da mente. Psicodelismo, rebeldia e o idealismo da revolução cultural que marca a segunda metade do nosso século são recriados por Wolfe num texto de linguagem alucinógena marcada pelo uso excessivo da onomatopeia, das livres associações e uma quebra da ortodoxia da pontuação gráfica. O livro foi escrito logo depois que Ken Kesey, o autor de Um estranho no ninho, se torna um fugitivo da justiça e parte para o México com o seu grupo visionário; Wolfe, repórter, na época, sai à cata de sua história e finda por revelar a aventura e a derrocada de um grupo de jovens já incapazes de seguir a rotina do padrão social.

11. Berlim, de Joseph Roth: o escritor testemunhou duas Europas, a de antes da Primeira Guerra e o império austro-húngaro, e a de depois da guerra. Desde sempre um observador atento à sua realidade, a extensa amizade que desenvolveu com Stefan Zweig, então um dos maiores escritores do seu tempo, contribuiu e muito o aperfeiçoamento dessa sua qualidade. Em Berlim ele registra o espetáculo múltiplo e ambíguo da velha capital prussiana, tomada de assalto por refugiados, bondes e arranha-céus e sua transformação de uma para a outra em epicentro da República de Weimar e da cruel história nas décadas seguintes. Aí está o outro lado da cidade, os asilos de refugiados, os banhos noturnos, os primeiros guetos, o crime, o desencanto e cena mais cinzenta da cidade.

12. O fim do homem soviético, de Svetlana Aleksiévitch (em tradução portuguesa): a edição brasileira chega às livrarias possivelmente em 2016, mas não deixaríamos de incluir um título da personagem motivadora dessa lista. Essa é uma obra marcada por uma série de reviravoltas da história recente do continente europeu, sobretudo da Rússia. O depois de duas décadas de desagregação da União Soviética, a Guerra Fria, as catástrofes da Era Gorbatchov e Stálin, tudo cabe num livro que é designado pela crítica como um réquiem de forma polifônica e singular por reunir a voz de centenas de testemunhas desse ir e vir da história; os humilhados, ofendidos, desiludidos, homem pós-soviético ou a memória de uma tragédia, aquilo que se encobre pelos raios da glória de uma grande utopia.


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