A história dentro da história: a filosofia, a poesia e os símbolos do fenômeno Guimarães Rosa

Por Neiva Dutra


Guimarães Rosa com um exemplar de Sagarana. Foto: Instituto Moreira Salles


O papel fundamental de Guimarães Rosa foi o de revolucionar a literatura, renovando a prosa regionalista e apresentando-a sobre uma ótica universal. Seus textos exigem um leitor atento e preparado para lidar com sua linguagem particular e sua narrativa cheia de digressões, fluxos de consciência e recursos poéticos.

A ortografia própria, divergente em muitos pontos da gramática oficial, a invenção linguística que abrange o nível semântico (significado), o sintático (combinação) e o fonológico (som), que descobre associações imprevistas entre as palavras e reproduz ruídos da natureza ainda não registrados revelam uma inventividade e uma genialidade que configuram um estilo sem precedentes na literatura brasileira.

João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, no interior de Minas Gerais, em 27 de junho de 1908; "para sermos exatos, devo dizer-lhe que nasci em Cordisburgo, uma cidadezinha não muito interessante, mas para mim sim, de muita importância. Além disso, em Minas Gerais; sou mineiro. E isto sim é o importante, pois quando escrevo, sempre me sinto transportado para esse mundo. Cordisburgo. Não acha que soa como algo muito distante? Sabe também que uma parte de minha família é, pelo sobrenome, de origem portuguesa, as na realidade é um sobrenome suevo que na época das migrações era Guimaraens, nome que também designava a capital de um estado suevo na Lusitânia? Portanto, pela minha origem, estou voltado para o remoto, o estranho. Você certamente conhece a história dos suevos. Foi um povo que, como os celtas, emigrou para todos os lugares sem poder lançar raízes em nenhum. Este destino, que foi tão intensamente transmitido a Portugal, talvez tenha sido o culpado por meus antepassados se apegarem com tanto desespero àquele pedaço de terra que se chama o sertão. E eu também estou apegado a ele..." (Entrevista concedida a Günter Lorenz no Congresso de Escritores Latino-Americanos, em janeiro de 1965 e publicada no livro Diálogo com a América Latina. São Paulo: EPU, 1973.)

Guimarães Rosa quando estava na Alemanha

Desde criança, demonstrou ser dotado de uma inteligência extraordinária e mudou-se para viver com os avós, em Belo Horizonte, para estudar. Iniciou seus estudos na Escola Mestre Candinho, recebendo as primeiras lições de francês do franciscano Frei Esteves. Aluno brilhante, com apenas seis anos leu seu primeiro livro nessa língua – Les femes qui aiment –, aperfeiçoando-se cada vez mais com a ajuda do Frei Canísio Zoetmulder, franciscano holandês que o iniciou também no estudo de seu idioma.

Sua mente era particularmente dotada para a linguagem. Aos sete anos começou a ensinar francês e afirmava saber falar ao menos oito idiomas (incluindo o esperanto e o alemão), além de ler em outros quatro (incluindo grego e latim). Estudou a gramática de outros dez diversos idiomas, que vão desde o Tupi até o sânscrito, do japonês ao hebraico, dentre outros.

As línguas foram uma grande paixão, assim como os esportes, as Ciências Naturais (entre os dez e os quatorze anos colecionou insetos e borboletas). Amou a linguagem como se ama a uma pessoa, de forma íntima e subjetiva:

"Aprendi algumas línguas estrangeiras apenas para enriquecer a minha própria e porque há demasiadas coisas intraduzíveis, pensadas em sonhos, intuitivas, cujo verdadeiro significado só pode ser encontrado no som original." (Entrevista concedida a Günter Lorenz, 1965)

Em 1918 se trasladou a Belo Horizonte para residir com os avós, onde concluiu o ensino primário no Grupo Escolar Afonso Pena, iniciando os estudos secundários no Colégio Santo Antônio, em São João Del Rey, onde permaneceu por pouco tempo, pois não se adaptou ao regime de internato. Regressando a Belo Horizonte, ingressou no Colégio Arnaldo, dos padres do Verbo Divino (onde também estudaram Carlos Drummond de Andrade e Gustavo Capanema), com quem aprendeu alemão.

Matriculado na Faculdade de Medicina de Minas Gerais em 1925, começou a enviar alguns contos, publicados na revista O Cruzeiro, que lhe valeram quatro prêmios de cem mil réis cada um: eram "Caçador de Camurças", "Chronos Kai Anagke", "O mistério Highmore Hill" e "Makiné", e vieram a lume entre 1929 e 1930.


Guimarães Rosa com a mãe, Francisca, a filha, Wilma, e o pai, Flordualdo.


Em 1929 trabalhou no Departamento de Estatística da Secretaria de Finanças de Minas Gerais e no ano seguinte obteve o título de Licenciado em Medicina, sendo escolhido como orador da turma.

Como médico, em 1931, passou a trabalhar em Itaguara e em pouco tempo de esforço e dedicação alcançou o respeito da comunidade, mas no ano posterior voltou a Belo Horizonte para alistar-se como médico voluntario na Força Pública durante a Revolução Constitucionalista de São Paulo. Em 1933 entrou, por concurso, nessa corporação, como oficial-médico, no 9º Batalhão de Infantaria de Barbacena. Este posto lhe permite gozar de mais tempo livre para dedicar-se aos estudos linguísticos:

"Sim, fui médico, rebelde, soldado. Foram etapas importantes de minha vida, e, a rigor, esta sucessão constitui um paradoxo. Como médico conheci o valor místico do sofrimento; como rebelde, o valor da consciência; como soldado, o valor da proximidade da morte... […] Mas estas três experiências formaram até agora meu mundo interior; e, para que isto não pareça demasiadamente simples, queria acrescentar que também configuram meu mundo a diplomacia, o trato com cavalos, vacas, religiões e idiomas." (Entrevista a Günter Lorenz, 1965)

Nessa época também passou a questionar-se sobre a profissão, comentando: “não acredito que nasci para fazer isto”. Passou a preparar-se para o exame diplomático do Itamaraty, prestando concurso em 1934 e obtendo a segunda classificação. Iniciou a carreira diplomática, embora considerasse a política “desumana” e distinta do trabalho diplomático, mostrando-se interessado no humano e confiante em sua capacidade para “emendar os erros dos políticos”:

"Embora eu veja o escritor como um homem que assume uma grande responsabilidade, creio, entretanto, que não deveria se ocupar de política; não desta forma de política. Sua missão é muito mais importante: é o próprio homem. Por isso a política nos toma um tempo valioso. Quando os escritores levam a sério seu compromisso, a política se torna supérflua. Além disso, eu sou escritor, e se você quiser, também diplomata; político nunca fui". (Entrevista concedida a Günter Lorenz, 1965)

No ano de 1936, com o livro Magma, ganhou o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras. Na ocasião, não houve prêmio para o segundo lugar, por terem os jurados considerado que nenhum outro candidato poderia comparar-se, sequer de forma aproximada, ao ganhador. Contudo, Guimarães Rosa não voltaria a escrever poesia:

"E revisando meus exercícios líricos, não os achei totalmente maus, mas tampouco muito convincentes. Principalmente, descobri que a poesia profissional, tal como se deve manejá-la na elaboração de poemas, pode ser a morte da poesia verdadeira. Por isso, retornei à "saga", à lenda, ao conto simples, pois quem escreve estes assuntos é a vida e não a lei das regras chamadas poéticas. Então comecei a escrever Sagarana." (Entrevista concedida a Günter Lorenz, 1965)


Guimarães Rosa

Entre 1938 e 1942, na Alemanha, fornecia vistos aos judeus para ajudá-los a fugir do regime nazista indo, inclusive, além do estipulado pelo governo e ultrapassando as cotas permitidas oficialmente:

"Foi alguma coisa assim, mas havia também algo diferente: um diplomata é um sonhador e por isso pude exercer bem essa profissão. O diplomata acredita que pode remediar o que os políticos arruinaram. Por isso agi daquela forma e não de outra. E também por isso mesmo gosto muito de ser diplomata. E agora o que houve em Hamburgo é preciso acrescentar mais alguma coisa. Eu, o homem do sertão, não posso presenciar- injustiças. No sertão, num caso desses imediatamente a gente saca o revólver, e lá isso não era possível. Precisamente por isso idealizei um estratagema diplomático, e não foi assim tão perigoso. E agora me ocupo de problemas de limites de fronteiras e por isso vivo muito mais limitado". (Entrevista concedida a Günter Lorenz, 1973)

Enquanto exercia suas funções como diplomata, começou a escrever, a partir das experiências que vivera como médico, sua primeira obra em prosa, Sagarana, publicada oficialmente em 1946, ainda que anteriormente tivesse escrito diversas poesias, em 1936, as quais somente foram publicadas após sua morte.

Sagarana traz doze histórias curtas em sua edição original e nove nas edições seguintes. Algumas superam as cinquenta páginas, compartilhando temas e estilos similares. De fato, o próprio título combina as palavras “saga” (radical de origem germânica que significa história ou canto heroico) e “rana” (palavra de origem indígena que significa algo como “à maneira de” ou “espécie de”).

Esse jogo de palavras, baseado em palavras de naturezas tão diversas, foi o presságio da natureza essencialmente brasileira, dos neologismos e da originalidade que distingue a obra de Guimarães Rosa no tempo em que foi escrita e no conjunto da literatura brasileira.

Quanto às histórias, Sagarana traz o entorno do sertão, que quase se converte em um personagem em si, inclusive porque as histórias mostram um grau notável de metáforas fabulosas e recursos retóricos, como o anacoluto (quebra da estrutura sintática, com continuidade alternativa em sentido diverso, mas complementar) e a silepse (concordância ideológica e não gramatical). Esse método inovador da narração marcou um estilo quase coloquial.

Dez anos após a publicação de Sagarana foi publicado Corpo de Baile, sete novelas que, da mesma forma, descrevem o sertão como uma força da natureza, um pseudo-personagem de contos nos quais os personagens, sertanejos pobres, lutam pela sobrevivência. A obra, evitando qualquer declaração de natureza política, confia apenas na metáfora e na ficção para proporcionar uma narrativa muito mais complexa e pessoal da vida (fictícia) de pessoas reais.

Tão impressionante como Corpo de Baile, mas mais completa e excepcional é Grande Sertão: Veredas, uma as obra mais incríveis já publicadas em qualquer idioma do mundo no século vinte.

Estruturalmente, é uma história extremamente sofisticada, narrada em primeira pessoa através de seiscentas e oito páginas sem capítulos ou, inclusive, com saltos na narração. Em termos linguísticos, levou a língua portuguesa a “lugares onde jamais havia estado”, empregando uma linguagem altamente coloquial e localizada (e, em muitos sentidos, “imaginada”), empregando um dialeto regional que torna o livro difícil, inclusive, para leitores brasileiros.


Guimarães Rosa com o então diretor da Escola Superior de Agricultura e Veterinária de Viçosa


Este engenho se revela já na primeira palavra da obra: Nonada, posta para ser lida como a versão escrita de alguém, de forma rápida, dizendo Não é nada.

Grande Sertão: Veredas é um trabalho incrível na estrutura e na linguagem, mas também uma história de peso excepcional e notavelmente controvertida. Relata a história de Riobaldo, um velho olhando para o passado, que se dirige diretamente a um ouvinte anônimo/leitor. Repassa o tempo em que lutou com diferentes grupos aliados a vários fazendeiros, as lutas de poder lobal e as batalhas pela vida no sertão. No processo, surgem amigos muito próximos, como Diadorim, com quem compartilha um vínculo altamente emocional, de certa forma homoerótico (embora não físico). Converte-se em líder de um bando e, em um ponto decisivo do livro, se dirige a uma encruzilhada para fazer um pacto com o diabo, apesar de estar claro, no restante da obra, que nunca esteve seguro de ter completado o acordo.

Em última instância, a história termina com uma batalha entre o bando de Riobaldo e o de Hermógenes. Ainda que Hermógenes morra ao final, também morre Diadorim e Riobaldo se sente devastado. Nas últimas dez páginas, quando os homens de Riobaldo lavam o corpo de Diadorim para o enterro, o grande segredo é finalmente revelado: Diadorim era uma mulher.

Essa revelação, contudo, não desfaz a relação homoerótica entre Diadorim e Riobaldo presente nas páginas anteriores e o fato de Diadorim ter-se disfarçado como homem para entrar no mundo dos jagunços, aliado à construção da história e de suas impressões durante todo o livro teve um forte impacto na década de cinquenta.

Genialidade é uma palavra que, apesar de ter-se banalizado, é a única apta a definir o que é Grande Sertão: Veredas e para a habilidade narrativa, linguística e estrutural de Guimarães Rosa, que levou ao extremo a definição de Barthes para a validade do signo literário, que vale mais por seus contornos e suas vizinhanças e que é simultaneamente ícone e símbolo. Pertence invariavelmente a dois ou mais sistemas semióticos superpostos, sendo uma expansão do signo linguístico. No plano do significante, essa expansão se faz pela exploração das possibilidades iconizantes da língua. No plano do significado, pela exploração das associações metafóricas. Através destes recursos, a linguagem literária empresta novos sentidos à representação do mundo.

Nesse sentido, Guimarães Rosa confirmou magistralmente esse pressuposto, pois o grau de literalidade narrativa que perpassa sua obra, bem como a unidade de seu estilo, são capazes de apresentar todos os processos de “iconização, estranhamento, presentificação, singularização e universalização” propostos por Barthes para ressignificar a representação do mundo do leitor.

As descrições são literais, não relacionadas à precisão visual, mas sim às lembranças que o narrador (que também é personagem e o próprio escritor) desenha em relação a lugares e que são permeadas de sentimentos ou, talvez, em sentido contrário, sejam lembranças de sentimentos evocadas por lugares. Ressignificando língua, fala e linguagem, Guimarães Rosa consegue preservar e, ao mesmo tempo, renovar as tradições linguísticas, unificando todas as variantes para esse fim.

 A ideia é mais importante do que a forma, justificando o emprego de expressões incomuns, de um estilo com criatividade linguística e riqueza vocabular sem precedentes na literatura brasileira. O resultado é um discurso repleto de construções em que convivem harmoniosamente formas tradicionais e termos recém criados, rompimentos e associações, com uma técnica experimental que transfigura a língua e a literatura.

Guimarães Rosa revelou, através da literatura, que a expressão através da linguagem está além das formulas prontas e dos padrões fixos. A plena manifestação da realidade no que escreve ocorre por meio da observação do conflito que ocorre entre a mensagem linguística explícita, contraposta ao sistema predefinido que até então orientava essa observação. O “desvio” linguístico que apresenta é a expressão máxima da arte literária.

Seu êxito lhe valeu, em 1963, a unanimidade na eleição à Academia Brasileira de Letras um ano após a publicação dos contos de Primeiras Estórias. Não assumiu pessoalmente o cargo até 1967, ano em que Noites do Sertão foi lançado. No discurso de posse na ABL, Guimarães Rosa disse: “A gente morre é para provar que viveu”.

Três dias mais tarde, em 19 de novembro de 1967 Guimarães Rosa faleceu repentinamente, aos cinquenta e nove anos, deixando um trabalho que representa a ficção mais incrível já escrita em língua portuguesa, a mais desafiadora e gratificante da literatura brasileira.

Ligações a esta post:
>>> Em junho de 2008 dedicamos um dossiê a Guimarães Rosa
>>> A arte de ilustrar Guimarães Rosa por Poty
>>> Em 2012 cumpriu-se 60 anos da viagem que deu a Guimarães Rosa a escrita de Grande sertão

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Neiva Dutra é licenciada em Letras / Língua e Literaturas de Língua Portuguesa, profissional em revisão de textos e copydesker, autora do blog De Anima Verbum, leitora voraz, apaixonada pela arte e a cultura em todas as suas manifestações e em toda sua profundidade.

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