Maria Teresa Horta: as bodas de Eros e Psiquê

Por Márcio de Lima Dantas




Diferente de outras mulheres poetas que tematizaram o amor de uma maneira em que o erotismo apareceu mais ou menos explícito no conjunto de uma lírica, como Florbela Espanca, esquecida e difamada em seu tempo, a poeta portuguesa Maria Teresa Horta teve reconhecimento em vida, sendo considerada, hoje, como um do maiores expoentes, de todos os tempos da literatura escrita por mulheres.

Detentora de uma lírica erótica lastreada em um requintado pudor, pois não faz uso de palavras chulas ou que beirem a vulgaridade, a poeta porta-se em toda a sua vasta obra como possuidora de um politicamente sensato, que não busca escandalizar. Mesmo porque lhe parece natural o fato de tratar com detalhes os signos vinculados ao estrato do erótico no corpo ou ao ato sexual mais propriamente explícito, em suas inúmeras possibilidades, assim como nominar as partes que dizem respeito à consecução, quando dos corpos buscando um ao outro com o objetivo de sentir e dar prazer. Assim sendo, o registro vulgar seria inconsequente -, na medida em que insculpe a letra do corpo em linguagem, contemplando como algo que diz respeito desde sempre ao humano -, pois nada tão cotidiano quanto as relações vinculadas à dimensão não utilitária do corpo: procriação e trabalho.

Desse jeito. O corpo não como instituição histórica, aquele que a sociedade burguesa imprimiu a ferro e fogo numa TATUAGEM de demandas a cumprir, sobretudo a renunciar; o corpo que está além do princípio do prazer, com sua realidade plena de discursos, comarca bem delimitada onde se caminha quase sempre a esmo, onde o erro é punido e a transgressão severamente vigiada. Se não em voz alta, porém de modo silente e perverso, destruindo carreiras, talentos, projetos de vidas, lançando-os para CIDADELAS SUBMERSAS. Sendo que há coisa ainda pior, quando uma comunidade assina acordo tácito de vigilância mútua, amplo domínio de uma consciência social surda e opaca, no qual ninguém sabe de quem é a voz, tampouco de onde vem. Eis o olhar que mais imprime dor.

Quando a poeta proclama-se MINHA SENHORA DE MIM, faz saber do domínio, pois usa dois pronomes num mesmo sintagma, limitando iconicamente um substantivo que já conduz em sua semântica uma espécie de propriedade, de domínio, de dona de algo. Desde então, não há que esperar uma retórica calcada em subterfúgios, em fraseados metafóricos que arrodeiam o referente por um tanto de vergonha. Há, sim, um VERÃO COINCIDENTE, pois o claro, direto, escorreito do discurso coaduna-se com a maneira como se concebem, como se vivenciam sexualmente as locas, os nacos, os meandros de um corpo latejando por demandas.

Desse modo, eis o esplêndido nosso sol de cada dia, assim como se a poesia fosse um CANDELABRO, alumiando as coisas em seus contornos autênticos, as cores com seu brilho natural, as texturas com sua delicadeza ou o áspero inerente a alguns objetos. Enfim, a poesia de Maria Tereza Horta esplende o genuíno, o verdadeiro, sem falso acanhamento ou decoro inverossímil, o que se articula por meio de metáforas enganosas.

Em relação à poética de Maria Teresa Horta, falo da estruturação do discurso em signo poético, sobretudo no que concerne à disposição espacial dos versos no branco da página. Constata-se o não uso da pontuação gramatical em estrofes que são, quase sempre, dísticos e tercetos. Os versos são extremamente curtos, muitos só com um substantivo ou adjetivo isolados, apenas um conectivo efetuando a conexão com o verso anterior, o que configura um ritmo de pausas curtas, que, para o olhar, sobressai como uma sequência de vocábulos ou frases, criando uma mancha vertical, como se o fôlego, para cada verso, a pausa, fosse muito curto; Ou, quem sabe, o discurso fosse sendo pronunciado em síncopes, procedimento empregado para melhor chamar a atenção sobre o que se diz, numa atitude de deliberadamente soletrar os paradigmas, haja vista tratar-se de referente inusitado, digamos, não tão familiar, no âmbito da literatura.

A palavra necessita de uma enunciação pedagógica, não apenas para se fazer melhor compreender, mas também para se impor, fincar seus marcos, chantar piquetes para além do que foi instituído pelos hábitos ditos normais, alargando os espaços da moral no domínio da literatura. A literatura cumprindo seu atávico papel de crítica à sociedade, território de transgressão e de festa, lugar onde o desejo não pede licença, somente as poéticas. Eis o JARDIM DE INVERNO dessa mulher, onde são cultivadas flores na permanente estação de vicissitudes e intempéries, no qual o social impõe seu julgo silente e cruel num amplexo que sufoca, não permitindo as liberdades requeridas por um corpo.

E se o ritmo circunscreve uma cadência de pausas curtas, para melhor ser ouvido e compreendido, de outra parte pode ser que seja para melhor ser apreciado. Delicadeza de dísticos que entornam uma imagem só, uma só metáfora, na brevidade da parelha de versos. Há que não esquecer a longa tradição ocidental, começada na antiga Grécia, que imprime ao dístico uma aura de cunho sentencioso, um dito assertivo, preciso na descrição/discrição de um denotatum. Máxima semântica, máxima síntese estética, povoando-nos da poesia mais lídima, extraindo do anonimato o que ninguém tinha coragem de dizer, elevando um topos à categoria de um entre outros: a morte, o amor, o nascimento, a natureza. Maria Teresa Horta inaugura, e comemora, as saudáveis e tão aguardadas bodas entre Eros e Psiquê. Sua poesia é um bem areado ESPELHO INICIAL, um conluio entre Héstia (óikos: casa, individual) e Hermes (polis; cidade, coletivo).

O lirismo amoroso, de Maria Teresa Horta, quando se manifesta mais explicitamente sexual, é um divisor de águas de uma mulher que teve a coragem de expor o que todo mundo já sabia. Sim, uma casa edificada aos poucos, para que o AMOR HABITADO obtivesse guarida.

A bem da verdade, todo mundo é senhor de si, de seu corpo. Compreende os passos de uma via dolorosa, por mais que haja todo um aparato para driblar o encontro com sua compleição física. Sucede a necessidade de uma nova EDUCAÇÃO SENTIMENTAL. Atitudes, ou erguer a cabeça nas veredas da vida, tomar posse do próprio corpo, são limites que só mesmo o indivíduo pode resolver. Enfim, a poeta é portadora de si e de nós todos.

As mulheres devem muito a essa poeta portuguesa, não apenas as MULHERES DE ABRIL, não apenas o gênero feminino, mas todos os comprometidos com uma sociedade edificada em valores alicerçados no bom-senso e na defesa incondicional dos direitos civis, para que mais e mais possamos vivenciar nosso quinhão de liberdade corporal, de todas as coisas que mulheres e homens desejam e os tabus sociais interditam.

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Márcio de Lima Dantas é Professor Adjunto II da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. É autor de xerófilo e Rol da feira, encartado nas edições 3 e 5 do caderno-revista 7faces, respectivamente; no 5º número publicou também uma edição de artes plásticas caderno de desenhos. Além disso, escreveu os seguintes livros de poesia Metáfrase (1999), O sétimo livro de elegias (2006), Para sair do dia (2006) e os de ensaio Mestiçagem e ensaísmo em João Cabral de Melo Neto (2005) e Imaginário e poesia em Orides Fontela (2011). Também traduziu para o francês, com o prof. Emmanuel Jaffelin, quatro livros da poeta Orides Fontela, organizados em dois tomos: Rosace. Paris: L’Harmattan, 1999 (Transposição Helianto) e Trèfle: L’Harmattan, 1998 (Alba Rosácea). Ganhou o prêmio Othoniel Menezes (2006), com o livro Para sair do dia, outorgado pela Capitania das Artes; foi contemplado com o I Prêmio Literário Canon de Poesia 2008.



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