sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Um estranho no lago, de Alain Guiraudie



Trata-se de um título recente (2013) que não deverá se inscrever em qualquer lista menor de cinema cult, mas deve, certamente, servir a listas sobre a temática gay. Não que o filme de Alain Guiraudie se reduza a isso; olhando bem, a temática é apenas um adendo para se tratar sobre uma extensa diversidade de outros temas caros à comunidade humana na contemporaneidade. Alguns desses temas poderão ser mencionados no desenvolvimento desse texto que cumpre não o propósito de listá-los e discuti-los de maneira aprofundada. Sua demarcação visa, entre outras funções, justificar porque este é um filme que, numa lista maior de cinema cult pessoal, merecia estar presente.

Como é comum da cinematografia francesa, se há algo que não há nas produções é certo malabarismo de efeitos para simplesmente fazer o que um filme deve fazer: contar uma história. Gostos à parte, mas já, entre a leva de títulos que comentei mesmo por aqui, falei da capacidade de sobra que os franceses têm de produzir narrativas filmadas; não só produzir, mas criar situações e levá-las à reflexão bem elaborada sobre o que quer que seja.

Em Um estranho no lago nada passa do registro de movimentação da população frequentadora de um lago. Por vezes, temos mesmo a sensação de que o cineasta distribuiu câmeras pelo cenário natural, deixou que os atores agissem e depois de largo tempo de filmagem fez o tratamento de edição porque passa toda produção do gênero, claro, não fosse, escolher não apenas um ângulo externo por diversos locais ao redor do plano principal, mas acompanhar essa rotina também pela entrada e saída de alguns dos frequentadores.

Essa rotina é interrompida quando acontece o afogamento de um deles, sem que o espectador possa, no fim de tudo, desenvolver quaisquer certezas absolutas para quem provocou a morte; ficará com muitas evidências, mas não passará disso. Desconstrói-se, assim, a ideia de que estamos diante de um filme policial ou mesmo de um thriller de suspense, embora elementos dos dois gêneros se mesclem na composição da narrativa.

Considerado, além de um espaço público para presença da família, Guiraudie atenta, justamente para o movimento de construção do point gay no intuito não de mapeá-lo, mas abordar com melhor proximidade e clareza aspectos sobre a convivência humana, sobre o desejo, a manifestação da natureza erótica e sexual do corpo masculino, a efemeridade das relações, o sexo pelo sexo, a implicância sexo e amor no mesmo gênero, o esvaziamento das relações humanas, a bestialização da beleza, o naturismo, a diluição das fronteiras entre o público e o privado, a desvalorização da vida ou sua liberação como se num retorno dos tempos do viver perigosamente.  

Tudo isso é focado em basicamente três figuras: Frank, um jovem gay que passa a ir ao lago com maior frequência a fim de encontrar um relacionamento duradouro; Henri, que recém-separado da mulher, e mesmo afirmando ter vivido experiências sexuais com outros homens, não se considera gay e vai ao lugar para espairecer; e Michel, por quem, Henri se apaixona, e que se mostra como alguém dado a “caçar” homens, mas, possivelmente, não apenas no sentido figurado.

Entre banhos de sol, braçadas na água, masturbação e sexo explícito em diversa forma, o filme produz o lago como uma heterotopia, onde todas as possibilidades tidas como estranhas, vistas como anormais ou mesmo o regramento do mundo cotidiano aí se ausenta. Ao menos é com essa noção que Frank visita o local – quer o envolvimento a qualquer hora sem se ater a qualquer normatização do sexo, quer uma renaturalização dos sentidos, da posse do corpo, da liberdade de estar com o outro. Não é isso um enaltecimento da promiscuidade, tampouco um trabalho de rebaixamento da ordem social, mas uma possibilidade de retirar o homem das quatro linhas que, por toda parte o sufoca e o faz criatura presa à neurose da morte, do medo de existir ou das maneiras ideias de bem se portar. Tanto que, mesmo tendo quase certeza de que Michel é o responsável pelo afogamento de um dos frequentadores do lago, não mede esforços para se envolver até o último limite com alguém que possivelmente lhe tiraria a vida futuramente.

Michel passa a significar, portanto, nesse contexto, o elemento externo que vem baldear o que para ele não tem ordem, é só promiscuidade; daí sua cobrança pelo sexo com camisinha, em não permitir servir de imaginação ao voyeur, em não se envolver a valer com Frank e em servir de força para a desnaturalização do ambiente. Até mesmo o perfil que encarna se mostra dessa maneira: é o homem viril, de formas bem desenhadas, o palatável à primeira vista de quem o vê.

Mais que esse jogo de forças, ou a não-valorização do corpo sintético e dos relacionamentos de mesma natureza com que são pintados outros filmes com a temática gay, Guiraudie pensa, a partir do limiar – pode-se mesmo dizer que Um estranho no lago é limiar, a começar por essa palavra do título, ‘estranho’ que aponta na direção de toda e qualquer personagem que vier a compor o espaço onde se constrói a narrativa e para as palavras que servem de condensação daquela leva de questões propostas numa passagem deste texto acima: o amor, o desconhecido, a morte. Concluo dizendo que é sobre essas três palavras que Guiraudie pensou, de fato, problematizar com esse filme.