quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Os laivos de metafísica na obra de Nuno Júdice

Por Maria Vaz



Nuno Júdice é um dos poetas contemporâneos que constam da minha lista de preferências: aquela lista de poetas a que se recorre em dias de reflexão. Quem disse que as palavras alinhadas em verso não podem ser uma espécie de religião? É que, de facto, miscigenam-se com o culto ao à beleza e com aquilo que aquela, tantas vezes, esconde, na sua forma ponderada de sublimação do real.

Repetidas vezes damos por nós a questionarmos filosoficamente o sentido dos ‘pequenos nadas’ que a vida quotidiana nos trás ou as grandes questões a que apenas a imaginação, ancorada na crença ou na medida da consciência que possuímos, permite conjecturar. E não será o pensamento mais racional uma mera conjectura falaciosamente assente em certezas falsificáveis? Nestes domínios a tolerância carrega consigo a aversão a dogmatismos, a restrições de uma moral que perecerá, na medida em que o bem e o mal acarretam, necessariamente, uma construção a partir de um referencial subjectivo. Enfim. Voltando-nos para a obra de Nuno Júdice, encontramos facilmente a vida como um dos cernes temáticos: como um mistério; uma mera parte de um todo maior; um ponto de encontro entre o passado e o futuro; como um campo de possibilidades em que a intuição aflora e traz percepções que a razão negaria. Vejamos um excerto do seu poema “A vida”, da sua obra Teoria geral do sentimento:

“a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória”.

A obra de Nuno Júdice flui em um sentido etéreo, procurando expor as experiências do espírito em deterimento dos normais pensamentos que a concreticidade mental faz resvalar para o plano material da existência que desvaloriza uma qualquer essência que a possa preceder. A leitura da obra deste poeta constitui uma espécie de viagem a um mundo de sentidos e pensamentos imaterializáveis, em que ganham lugar as recordações e a criação de profecias ante percepções inominadas. Talvez seja por esse motivo que os seus poemas versem, sobretudo, sobre o amor: esse ‘quid’ inexplicável que faz morrer, ainda que por momentos, uma razão pretensamente imortal. No fundo, a percepção com que fico, é que a obra de Júdice deambula entre várias transformações ontológicas geradas pelo ‘sentir’: a transformação imposta por algo que suplanta o ‘eu’ e qualquer vontade racionalizada que daí advenha. Sobre isto, vejamos esta passagem do seu poema “Arte Poética”:

“Colhi esse poema. Meti-o dentro de água,
como a rosa, para que flutuasse ao longo de um rio
de versos. O seu corpo, nu como o dessa mulher
que amei num sonho obscuro, bebeu a seiva
dos lagos, os veios subterrâneos das humidades
ancestrais, e abriu-se como o ventre da
própria flor. Levou atrás de si os meus olhos,
num barco tão fundo como a sua própria
morte.

Abracei esse poema. Estendi-o na areia
das margens, tapando a sua nudez com os ramos
de arbustos fluviais. Arranquei os botões
que nasciam dos seus seios, bebendo a sua cor
verde como os charcos coalhados do outono. Pedi-lhe
que me falasse, como se ele só ainda soubesse
as últimas palavras do amor.”

E, dito isto, parece-nos que a poesia funciona, aqui, como um mecanismo escapista a uma realidade cinzenta, preferindo o poeta entregar-se ao devaneio de um amor, talvez idealizado, que, muito embora não atinja os seus elevados ideais, vá perpetuando o ciclo evolutivo de transformações do ‘eu’, trazendo consigo a esperança de uma espécie de transcendência do ‘conhecido’. Daí que tenha escrito o seguinte, no seu poema “o amor, um dever de passagem”:

(…) “Vou partir pelo teu rosto para mais longe. 

A minha fome é ter-te olhado 
e estar cego. Agora eu sei que te abres para o fogo 
do relâmpago. 
Tenho a convicção dos temporais. 
já não sei nem o que digo nem o que isso importa.”

Foi esse ‘amor’, que tanto percorre a sua escrita e inunda o seu pensamento, que fez com que o poeta não descurasse de uma reflexão poético-filosófica acerca da sua fenomenologia: uma resposta que encontra em pequenas coisas, que vão da imperceptibilidade à compulsão de querer ter por perto, de querer estar junto, ainda que não se racionalize o que, em um plano supra-racional, se torna evidente. E esta sua visão de que o amor se inicia antes sequer de percebermos, em uma dimensão anímico compulsiva, faz-nos vislumbrar o sentimento como uma espécie de magia que inunda o coração. Fica a sensação de que o poeta nos faz tocar a questão existencial de ‘um pasmo essencial’, em que se dá um desfasamento entre a percepção e uma realidade que já existia, à priori, e independentemente dessa ‘descoberta’, que poderia passar ao largo de uma vida. Nas palavras de Nuno Júdice:

“Nunca são as coisas mais simples que aparecem

quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.”

Mas a temática do amor encontra uma complexidade antagónica, que se encontra na necessidade ansiosa de viver algo em um agora sem fim: algo puramente material, na fruição dos sentidos mais densos, em jeito de uma espécie de expansão existencial desprovida de sentido, em que a mente se inunda de ideais que suplantam a realidade, em que se abraçam vazios e em que olhares reflectem outros, interiormente queridos, longínquos. Leia-se uma parte do seu poema “Carpe Diem”:

(…)” nos lábios dessa que amaste

morre um fim de frase, deixando a dúvida
definitiva. Um nome inútil persegue a tua memória,
para que o roubes ao sono dos sentidos. Porém,
nenhum rosto lhe dá a forma que desejarias;
e abraças a própria figura do vazio.”

(…)”Louco, ignora que o destino, por vezes,
Se confunde com a brevidade do verso”.

É a esses vazios existenciais que parece dirigir o poema “Requiem por muitos Maios”, também da sua obra Teoria geral do sentimento, que podemos ler abaixo:

“Conheci tipos que viveram muito. Estão
mortos, quase todos: de suicídio, de cansaço.
de álcool, da obrigação de viver
que os consumia. Que ficou das suas vidas? Que
mulheres os lembram com a nostalgia
de um abraço? Que amigos falam ainda, por vezes,
para o lado, como se eles estivessem à sua
beira?

No entanto, invejo-os. Acompanhei-os
em noites de bares e insónia até ao fundo
da madrugada; despejei o fundo dos seus copos,
onde só os restos de vinho manchavam
o vidro; respirei o fumo dessas salas onde as suas
vozes se amontoavam como cadeiras num fim
de festa. Vi-os partir, um a um, na secura
das despedidas.

E ouvi os queixumes dessas a quem
roubaram a vida. Recolhi as suas palavras em versos
feitos de lágrimas e silêncios. Encostei-me
à palidez dos seus rostos, perguntando por eles - os
amantes luminosos da noite. O sol limpava-lhes
as olheiras; uma saudade marítima caía-lhes
dos ombros nus. Amei-as sem nada lhes dizer - nem do amor,
nem do destino desses que elas amaram.

Conheci tipos que viveram muito - os
que nunca souberam nada da própria vida.”

E para terminar, não poderíamos deixar de abordar a temática do destino: esse vislumbre metafísico que perpassa a sua obra, em nuances que superam qualquer razão vincada, libertando-nos, uma vez mais, de um mundo de empirismos: uma espécie de destino desencadeado pela essência que a precede, mas que podemos transformar. Nuno Júdice parece aludir ao destino como se de uma ordem do universo se tratasse: algo que vem do ‘eu’, mas que existe independentemente dele:  algo gravado na alma, que existe independentemente do corpo, de que nos falava Descartes no seu Discurso do Método;  como se a evolução da consciência permitisse compreender os mecanismos que ligam o ‘eu’ ao ‘outro’, sem dependência de um qualquer cruzamento de olhares; como se miscigenássemos princípios herméticos com as teorias budistas que suplantam os ‘véus de Maya’.

Em jeito de conclusão, deixo-vos um passagem carregada de misticismo, que me fez perder em pensamentos – embebida em uma qualquer tentativa de apreender a ‘eternidade’ –,  da sua obra Meditação sobre Ruinas:

“Os olhos não sabem, ainda, que a visão profunda
os dispensa. Por dentro, o olhar implica a noite;
e é da fusão das formas no negro último do céu,
para além da superfície das estrelas e das nebulosas
que essa verdade brilha com a sua exacta eternidade.”

 ***

Maria Vaz nasceu em Mirandela a 19 de Setembro de 1990, muito embora tenha vivido toda a infância e início da adolescência em Vila Flor. Aos 11 anos, apaixonou-se pela poesia ao encontrar, por mero acaso, um livro de Alberto Caeiro. A par da poesia e da literatura, é uma apaixonada pelas artes em geral, de entre as quais ressalta a música, dado que tocou clarinete entre os 11 e os 21 anos. Publicou o seu primeiro poema em Março de 2015, numa antologia de poetas portugueses contemporâneos e escreve regularmente no seu blog (“The philosophy of little nothings”). É agora colunista do ‘Letras in.verso re.verso”. Além da escrita, é doutoranda em ciências jurídico-criminais, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, desde finais de 2014.