Manifesto de uma poesia na pós-modernidade

Por Vivian de Moraes



A publicação recente do meu livro Desconstrução (Patuá, novembro de 2015), levou-me a um debate livre com os participantes dos lançamentos e os leitores desse livro.

Se hoje escrevo este manifesto, é porque sinto que há lacunas importantes na poesia atual, embora haja muito material de grande qualidade sendo produzido.

Entre os autores que admiro estão nomes como Eucanaã Ferraz, Frederico Barbosa, Augusto de Campos, Arnaldo Antunes, Guilherme Gontijo Flores e muitos outros. Não pretendo, aqui, esgotar uma lista.

No entanto, o mal da poesia atual é o grande narcisismo estético que se propaga na chamada “metapoesia”. Como tenho dito aos meus leitores, acredito que escrever versos sobre versos, prática hoje corrente em demasia, especialmente entre os autores jovens, leva a um espelhamento inócuo e fragmentário. Deve-se isto, talvez, ao fato de vivermos um tempo de conflitos.

A pós-modernidade, tão bem analisada pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman em seu livro O mal-estar na pós-modernidade, que atualiza aspectos da então modernidade da época de Freud (O mal-estar na civilização foi publicado em 1930), cria indivíduos sufocados, em busca de um ar ralo, que é a necessidade de um quinhão maior de liberdade, ainda que isso custe algo mais de insegurança.

Esse traço fragmentário do ser plural encontramos hoje em diversas manifestações: nas performances sexuais que adquirem status de obras artísticas e são enviadas do mundo inteiro por militantes queer à filósofa norte-americana Judith Butler; nos defensores das quedas das fronteiras em iminência, devido à globalização; e também nos defensores de uma vida mais natural, sejam vegetarianos, veganos ou simplesmente defensores de uma natureza mais bem-preservada. Esse traço, dizia eu, ainda está ausente da maioria da literatura poética nacional.

O azulejo torto que incomodou o filósofo francês Jacques Derrida, morto há dez anos, em sua infância, é o mesmo azulejo torto que tenho no banheiro da minha casa. É ele quem impulsionou o princípio de “desconstrução” do filósofo, e o mesmo que me levou a debater essas importantes questões nos encontros com meus leitores.

Ora, a desconstrução na arte se dá pelo menos de dois modos: uma crítica nunca é única, e sim plural, na visão de Derrida, e, além disso, um texto, seja ele literário ou filosófico, jamais deve ser confinado. Por isso, o autor é livre. Mas parece não estar usufruindo dessa liberdade.

Pensando nessas questões, proponho uma reflexão sobre a poesia hoje: em termos de forma, vemos um excesso visual, seja de reticências, parênteses (que não se fecham, como no caso de Fabiano Calixto), colchetes, barras. A poesia concreta se beneficia disso, mas, para além da poesia concreta, isso semelha um pouco o excesso das grandes metrópoles. E as grandes metrópoles continuam sendo tema de poesia, como em Ademir Assunção, a quem, aliás, admiro bastante por suas metáforas inteligentes e inusitadas.

Não há mal nisso tudo, mas devemos pensar: que tal desconstruir? Desconstruir para construir de novo, do mesmo jeito ou de outro?

Para quebrar o paradigma dos excessos na forma e da metapoesia no tema, devemos ter em mente que é preciso estar sintonizado com o mundo à nossa volta.

Já mencionei as teorias queer (e a questão da mulher está nelas) e acrescento as minorias em geral, sejam étnicas ou econômicas, religiosas ou políticas. A questão LGBT e as teorias queer nos remetem à questão do desejo, e este deve ser o grande tema: o desejo por si mesmo (propriedade do indivíduo); o desejo pelo outro (alteridade do desejo).

Recentemente o casamento gay foi aprovado em todos os Estados Unidos da América, o que gerou uma onda de aprovação nas redes sociais. Isso, além do repúdio à bancada evangélica e sua política contra a família plural manifestada nas mesmas redes demonstram que a questão do desejo é um grande tema. Outro autor da Patuá, que por sinal vive na mesma cidade que eu (Araraquara/SP), Paulo Andrade, publicou no ano passado o livro Corpo arquivo. Do ponto de vista do que proponho, ele está antenado com essa questão do desejo e da alteridade do desejo. Infelizmente, não se destacou em nenhum prêmio. Outra artista da Patuá fez um processo semelhante e foi mais bem-sucedida: Suzanna Busato, com seu livro Corpos em cena, também da Patuá, finalista do Jabuti 2014.

Um outro tema que não se deve deixar passar em branco é o da natureza. A nova onda de haicaísmo é um sinal de vitalidade dessa demanda. A natureza sempre foi tema da poesia, desde tempos imemoriais. Porém, a cada escola, a sua abordagem foi se modificando, e já chega o momento de mais uma virada: o planeta pede socorro! Escrever a natureza de maneira afinada com as novas demandas que urgem no nosso tempo é também urgente. Mas parece que pouco se percebeu isso na poesia. E me retrato aqui se esqueço de mencionar algum poeta que tenha feito esse trabalho, que pode ser lúdico e prazeroso.

Pode ser lúdico e prazeroso reconstruir o desconstruído porque jamais se fará panfleto na poesia, note-se isso! Esse é um risco de escrever uma poesia sem nenhum valor estético. O que proponho é que a sensibilidade individual crie formas e valores a serem poetizados sem a tentativa do convencimento. Isso é vital, e percebemos, na escola do Naturalismo, por exemplo, o quanto é complicado fazer uma poesia “engajada”.

Hoje em dia, o homem e a mulher têm pouco tempo para si, para seus filhos e seus animais. A exploração capitalista continua, e o espaço da arte está cada vez mais confinado. No caso da poesia, ela tem urgência em se reinventar, para não correr o risco de ter ainda menos leitores do que os que já tem. Por isso, celebro desde já o fim da metapoesia!

Sobre o meu livro, Desconstrução, não trato, ainda, de nenhum dos temas propostos. Ele é uma etapa. Nele, desconstruo sintaticamente o poema, levando-o ao grau zero, para depois reconstruí-lo. Mas como bem disseram leitores que participaram de um dos lançamentos, as reconstruções podem ser feitas de diversas formas, ad infinitum. É um jogo, mas é também a desconstrução de Derrida. É uma semente para uma poesia da pós-modernidade. A pós-modernidade é um desafio, mas é o tempo em que vivemos. Por isso, viva a pós-modernidade! Viva a desconstrução!


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