Harper Lee

Por William Grimes



Harper Lee, cujo único romance, O sol é para todos, sobre a injustiça racial numa pequena cidade do Alabama, vendeu mais de 40 milhões de exemplares e se tornou uma das obras de ficção mais amadas e mais estudas das escritas por um estadunidense, morreu na sexta-feira, 19 de fevereiro, em Monroeville, Alabama, onde morava. Tinha 89 anos. Hank Conner, um dos sobrinhos de Lee, disse que ela morreu enquanto dormia em Meadows, um asilo para idosos onde vivia há alguns anos.

O sucesso instantâneo de O sol é para todos, que foi publicado em 1960 e ganhou o Prêmio Pulitzer de ficção no ano seguinte, tornou Lee uma celebridade das letras, um papel que para ela sempre foi opressivo e nunca aprendeu a conviver com ele. “Nunca esperei qualquer tipo de sucesso com O sol é para todos”, disse numa entrevista de rádio em 1964. “Eu esperava por uma morte rápida vinda pelas mãos dos leitores, embora, ao mesmo tempo eu meio que esperava que alguém poderia gostar dele o suficiente para me dar algum incentivo.”

A enorme popularidade da versão cinematográfica do romance, dois anos depois com Gregory Peck no papel principal de Atticus Finch, um advogado de uma pequena cidade do sul que defende um homem negro falsamente acusado de estuprar uma mulher branca, só contribuiu para que Lee tivesse fama e expectativas ventiladas em torno do seu próximo romance. Mas, por mais de meio século, um segundo romance não apareceu e logo ganhou a reputação de uma figura reclusa, que vinha a público apenas para a recepção de algum prêmio ou grau honorário; nessas ocasiões ela pouco falava ou apenas dizia um breve obrigado.

Mas, em fevereiro de 2015, muito depois de o público leitor desistir de ver alguma outra obra de Harper Lee, a editora que publicou O sol é para todos, anunciou uma bomba. Eram os planos de publicar um manuscrito que julgavam perdido e agora havia ressurgido em circunstâncias misteriosas; o texto havia sido apresentado pela escritora aos seus editores em 1957 com o título de Vá, coloque um vigia.

A advogada da escritora, Tonja B. Carter, não tinha atentado que este era, na verdade, o manuscrito com a versão original de O sol é para todos. Nele, a história de Atticus e sua filha, Jean Louise Finch, conhecida como Scout, era contada 20 anos mais tarde ao tempo da narrativa já conhecida, quando ela é uma jovem que vive em Nova York. O manuscrito incluía várias cenas em que Atticus expressa pontos de vista conservadores sobre as relações raciais aparentemente em desacordo com sua postura liberal no romance anterior.

Carregado de controvérsias e suspeitas de manipulação editorial, o livro foi publicado em julho com tiragem inicial de 2 milhões e com extensas quantidades de vendas antecipadas tornando-se, de imediato, um nome no topo das listas de Best-Sellers de ficção nos Estados Unidos. E quando o livro saiu viu-se que era realmente outra versão do único romance de Lee ou que O sol é para todos foi na verdade dois livros em um: um doce retrato, com tons bem-humorados, sobre a vida de uma pequena cidade do sul dos Estados Unidos na década de 1930 e um texto decepcionante sobre as relações raciais nesse mesmo sul durante a era Jim Crow.

Olhando para trás, de quando na sua infância, Scout, a narradora, evoca o mormaço dos verões e os prazeres simples da pequena cidade do Alabama. Numa altura em que a ficção dessa região dos Estados Unidos se inclinava para o gótico, Lee, com olhos e ouvidos afiados para o diálogo, apresentou “os aspectos mais engraçados” da vida no sul para tomar emprestada uma frase de William Dean Howells.

Ao mesmo tempo, sua narrativa sobre um advogado sulista justo e que se mantém firme contra o governo quando a opinião era o racismo serviu para acordar uma extensa quantidade de estadunidenses e tornar muitos deles, pela primeira vez, em figuras conscientes da importância sobre o movimento pelos direitos civis.

O romance teve suas críticas negativas. “É interessante que todas as pessoas que estão comprando o livro não sabem que estão lendo uma obra infantil”, escreveu Flannery O’Connor numa carta a um amigo logo após o aparecimento de O sol é para todos. Alguns críticos reclamaram que as percepções atribuídas a Scout eram complexas demais para uma menina da escola primária e rejeitaram Atticus como uma espécie de Southern Judge Hardy, dispensando suas lições de moral.  

Harper Lee no set de filmagens de O sol é para todos com Mary Badham, quem interpretou Scout.

Mas o livro ultrapassou as críticas negativas. No final dos anos 1970, O sol é para todos já havia vendido quase 10 milhões de exemplares e em 1988 o Conselho Nacional de Professores de Língua Inglesa informou que era uma obra lida em 74% das escolas secundários do país. Uma década mais tarde o Library Journal declarou um dos melhores romances do século XX.

Nelle Harper Lee nasceu em 28 de abril de 1926, na pequena cidade de Monroeville, sul do Alabama; era a mais nova de quatro filhos. Nelle era uma versão ao contrário do primeiro nome de sua avó materna que ficou esquecida quando O sol é para todos foi publicado; tinha medo de que os leitores depois viessem pronunciá-lo Nellie, que ela detestava.

Seu pai, Amasa Coleman Lee, era um advogado proeminente e o modelo para o Atticus Finch do seu romance; compartilhava a mesma dicção empolada e o elevado dever cívico. Sua mãe, Frances Finch Lee, também conhecida como Miss Fanny, estava sempre acima do peso e emocionalmente fragilizada. Vizinhos lembram dela tocando piano durante horas, revirando suas caixas de flores e obsessivamente trabalhando no feitura de palavras cruzadas na varanda da frente de casa. Truman Capote, amigo de Lee desde a infância, disse mais tarde que a mãe de Nelle tentou afogá-la na banheira em duas ocasiões, uma afirmação que havia indignado a escritora.

A escritora, com seu alter ego Scout, foi uma menina difícil; gostava de bater nos meninos, subir em árvores, rolar pelo chão. “Um vestido sobre a jovem Nelle era tão fora de moda como um chapéu de seda num porco”, recorda Marie Rudisill, a tia de Capote, em seu livro Truman Capote: the story of his bizarre and exotic boyhood by an aunt who helped raise him (em tradução livre: Truman Capote: a história de sua infância bizarra e exótica por uma tia que ajudou a criá-lo).

Um dos meninos recebidos com as surras de Nelle era Truman (mais tarde Capote), que passou vários verões ao lado dela e com seus parentes. Os dois tornaram-se amigos, e após o pai de Nelle ter dado uma velha máquina de escrever Underwood, começaram a escrever suas primeiras histórias, muitas a quatro mãos.

Truman Capote e Harper Lee. 1966.


Capote tornou Nelle personagem de seu primeiro livro, Other voices, other rooms; aí ela aparece como Idabel Thompkins. Depois ela se repete como Ann Finchburg, apelidada de Jumbo, no conto “O convidado do Dia de Ação de Graças”. Ela retornou o favor, dando a Capote o papel do pequeno Dill em O sol é para todos.

Harper Lee fez parte do Huntingdon College, uma escola metodista local para mulheres, onde contribuiu com artigos de opinião para o jornal e dois breves textos ficcionais para uma revista literária da faculdade. Todos os textos já davam noção sobre os temas que iram dar forma mais tarde em seu romance. “Nightmare” descrevia um linchamento e “A Wink at Justice” contava a história de um juiz astuto que toma uma decisão a Salomão no caso de oito homens negros presos por jogos de azar.

Depois de um ano em Huntingdon, Lee foi transferida para Universidade do Alabama para estudar Direito, principalmente para agradar ao seu pai que esperava vê-la, como sua irmã Alice, à frente do escritório de advocacia da família. Seus próprios interesses, e talvez sua predisposição, a levaram para outro lugar. Na faculdade, escreveu uma coluna chamada “Caustic Comments for Crimson White” no jornal do campus e contribui com artigos para a revista de humor, também da universidade, Rammer Jammer, da qual foi editora-chefe em 1946. No seu último ano de curso, ela passou um verão na Universidade de Oxford como parte de um programa de intercâmbio para estudantes. Ao retornar da Inglaterra, decidiu ir morar em Nova York. Talvez já tivesse o intuito de se tornar uma escritora.

Lee chegou em Manhattan em 1949. Foi morar num pequeno apartamento na região Leste. Depois de trabalhar numa livraria, foi ser atendente na Companhia Eastern Airlines e mais tarde na British Overseas Airways Corporation. À noite, numa mesa feita a partir de uma porta, escrevia um livro conforme relatou Louise Sims, uma das suas vizinhas.

cópia do frontispício do contrato assinado por Harper Lee para a escrita de O sol é pra todos


Michael e Joy Brown, um casal que a conheceu através de Capote, acreditavam nela; tanto que Brown, depois de receber um gordo cheque por seu trabalho na revista Esquire, no Natal de 1956, conseguiu-lhe o salário de um ano na BOAC para apenas dedicar-se a escrever o que quisesse. Ela então começou a escrever uma pequena antologia de contos que depois de ser entregue a um editor, Maurice Craig, veio com a sugestão de que ela tentasse escrever um romance. Dois meses depois, ela voltou com as 50 primeiras páginas de um manuscrito que chamou de Vai, coloque um vigia. Era a história de um advogado numa cidade pequena que fica de guarda fora de uma prisão para proteger seu cliente contra uma multidão enfurecida, um incidente principal que seria peça de um romance e cuja personagem Mr. Crain evoluiria para Atticus assim como o manuscrito evoluiu para O sol é para todos. O título refere-se a uma cena do romance em que Atticus depois de presentear seus dois filhos com uma espingarda de ar diz para atirar apenas em latas, nunca em rouxinóis; Scout, intrigada com a recomendação, aprende de Miss Maudie, a viúva do outro lado rua, que há um provérbio que diz “o sol é para todos” e aí está a razão do apelo de Atticus; é que as aves não prejudicam a ninguém, só fazem bela música.

Pronto o manuscrito, os editores da Lippincott enxergaram na obra apenas uma narrativa com um amontoado de anedotas, não um romance. Não publicariam, mas encorajaram-na a revisar o texto. Talvez porque acreditassem no empenho da principiante escritora, anteciparam uma pequena parte do valor de contrato e distinguiu Tay Hohoff como novo editor – um sujeito experiente com quem Lee desenvolveu o trabalho de reescrita do manuscrito e um estreito relacionamento pessoal.

Enquanto o romance está a caminho de ser publicado, o amigo Capote é chamado para uma proposta: ir ao Kansas participar das investigações de um chocante assassinato de uma família de agricultores. O convite feito a Capote foi por ele estendido a ela e Lee aproveitou a oferta. “Seria um trabalho árduo e por isso viável apenas se para duas pessoas”, disse a escritora mais tarde a Newsweek. “Os crimes intrigavam, e estou intrigado com o crime – disse, e ele queria ir. Foi um chamado profundo.”

Durante meses Harper Lee esteve envolvida com Capote nas entrevistas aos investigadores e aos populares locais; de postura sempre aberta, Lee foi quem conseguiu as oportunidades para que o amigo pudesse levar adiante seu trabalho; sem ela, tudo teria sido um desastre. A figura de flamboyant afeminado o afastava das pessoas que o tinham como um sujeito estranho. Mais que isso: Lee leu um a um os relatórios que Capote escrevia sobre as investigações e sobre o andamento do texto deu-lhe suas impressões. Mais tarde ainda leu o manuscrito do que seria A sangue frio e fez considerações minuciosas sobre o texto.  

Quando o livro foi publicado em 1966, Capote resumiu todo o trabalho de Lee num breve agradecimento na página de dedicatória e minimizou seu papel na criação do livro. A amizade que já havia esfriado entrou num profundo colapso depois que O sol é para todos se tornou um Best-Seller. O sucesso foi visível quase imediatamente à publicação da obra em julho de 1960. Seções como Book-of-the-Month Club e o Literary Guide o colocaram entre as seleções do leitor. Sete dias após a publicação, o romance foi para o topo das listas e aí permaneceu por 88 semanas seguidas.



A revista Life acompanhou Lee em retorno a Monroeville, fotografou-a com seu pai na varanda de frente da casa da família, na varanda do cartório, olhando pela janela da casa velha que serviu de modelo para a casa de Boo Radley o gentil vizinho que faz amizade com Scout (veja galeria no Tumblr). Uma fotografia trazia a pungente legenda: “No escritório de advocacia do pai, onde ela escreveu O sol é para todos, Mss Lee trabalha em seu próximo romance.”

O próximo romance, como dissemos, não veio. “O sucesso tem tido um efeito muito ruim em mim”, disse Lee a Associated Press. Nos meses depois de o romance ser publicado, ela contribuiu com dois artigos para McCall e Vogue. Para os repórteres que sempre perguntavam sobre a continuação da escrita ou mesmo de O sol é para todos ela sempre respondeu ter horror a ideia de continuá-lo mas com pistas tentadoras sobre um segundo romance em andamento, mas meses e anos se passaram e nada mais foi dito na imprensa; as entrevistas foram diminuindo até quase deixar de existir. Uma das últimas foi para um programa de rádio de Chicago em 1964 quando ela expõe algum detalhe sobre sua ambição literária: descrever, numa série de romances, o mundo onde ela cresceu e agora viu desaparecer.

“Esta é uma pequena cidade de classe média do sul em oposição ao gótico, ao contrário de Tobacco Road, em oposição à vida no campo”, diz ao entrevistado referindo-se ao romance de Erskine Caldwell, e acrescentando que estava fascinada pelo “rico padrão social” em certos lugares. “Eu simplesmente gostaria de colocar tudo o que sei sobre isso porque eu acredito que há algo universal neste pequeno mundo, algo decente para ser dito sobre ele, e algo a lamentar no seu fim”, continuou. “Em outras palavras, tudo o que quero ser é uma Jane Austen do Sul do Alabama.”

O mundo esperou e cresceu acostumado com a espera. Numa outra ocasião a irmã disse a um jornalista que o manuscrito dessa obra já quase completa havia sido roubado do apartamento de Lee durante um arrombamento. Em meados dos anos 1980, Lee ficou fascinada com a história de um assassino em série cuja história ela pretendeu transformar em peça, tal como A sangue frio; era um livro que fora provisoriamente intitulado de O reverendo. Ela chegou mesmo a desenvolver pesquisas de campo de quase um ano em Alexander City, no Alabama, local dos assassinos, a fim de absorver também a atmosfera do lugar. Mas, novamente, nada se materializou.

Lee voltou para sua vida solitária em Monroeville, mantendo público e imprensa à espera. Ao escrever Mockingbird: a portrait of Harper Lee (2006), Charles J. Shields afirmou que havia realizado 600 entrevistas com amigos, conhecidos e ex-colegas de Lee, mas ela sempre fugiu dos pedidos com certa sagacidade.

Teve uma vida tranquila e relativamente normal em Monroeville, onde amigos e vizinhos se tornaram muros em torno dela a fim de afastar a atenção indesejada de turistas e jornalistas. Viveu com Alice, que foi advogada em seus 90 anos até morrer em 2014 aos 103. Participou da construção da Igreja Metodista de sua cidade e ocasionalmente frequentou aulas de inglês na escola secundária local quando O sol é para todos tornou-se de leitura obrigatória. Dividiu parte do tempo em Monroeville com Manhattan onde manteve um pequeno apartamento durante muitos anos.

Ocasionalmente era vista. Em 2001 começou a frequentar as cerimônias anuais de premiação na Universidade do Alabama onde conversava com os vencedores de um concurso para melhor ensaio por um estudante do ensino médio sobre O sol é para todos. Mas sempre se recusou a falar sobre sua própria vida e sobre o seu trabalho que se tornou uma questão de intensa curiosidade jornalística quando do lançamento de dois filmes que lidavam com a escrita de A sangue frio. Num deles, Capote (2005), Lee foi interpretada por Catherine Keener e no outro, Infamous (2006), por Sandra Bullock. Ela, no entanto, chegou a enviar uma carta para a revista Oprah em 2006 descrevendo seu amor pela leitura durante a infância.

Em maio de 2013, integrou os noticiários por uma ação acusando seu agente literário Samuel Pinkus de enganá-la para atribuição de direitos do autor sobre o romance para a editora tão logo ela sofreu um acidente vascular cerebral em 2007 que lhe deixou sequelas na audição e na vista. Quando se descobriu Vá, coloque um vigia também. O mundo questionou-se se Lee era mentalmente competente para aprovar a publicação.

A questão ficou em aberto (ver o final desta post). Para muitos críticos, Vá, coloque um vigia era nada mais que um projeto inicial de O sol é para todos, a partir do qual, a mando de seus editores, Lee tinha retirado as cenas da infância de Scout e escrito um livro em separado. “Eu era uma escritora de primeira viagem e fiz o que foi feito”, escreveu num comunicado divulgado pela editora em 2015.

Muitos leitores, que haviam crescido idolatrando Atticus, foram esmagados por sua reaparição 20 anos mais tarde como um acérrimo defensor da segregação. “A representação de Atticus em Vá, coloque um vigia, é uma leitura preocupante para os fãs de O sol é para todos e é especialmente desorientadora”, escreveu Michiko Kakutani numa resenha sobre o livro para o The New York Times. “Scout se vê em choque ao descobrir, durante sua viagem de retorno para casa, que seu amado pai, que lhe ensinou tudo sobre justiça e compaixão, foi se filiar ao delirante grupo dos anti-integracionistas, doidos anti-pretos e o leitor compartilha seu horror e confusão.”

Na mesma declaração divulgada pela editora, Lee assume o manuscrito perdido. E “depois de muito pensar e hesitar eu compartilhei com um grupo de pessoas em que confio e fiquei satisfeita em ouvir que eles consideravam o texto digno de publicação.”

Este mês, o produtor Socott Rudin anunciou que planeja levar O sol é para todos para a Broadway na temporada 2017-18 com o roteirista Aaron Sorkin. 

Ligações a esta post:

* Este texto é a versão livre de "Harper Lee, author of To kill a Monckinbird, dies at 89".


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Alguns dos melhores começos de romances

Uma entrevista inédita com Liev Tolstói

Água viva, de Clarice Lispector

Potnia, de Leonardo Chioda

Onze filmes que tratam sobre a vida de pintores

Avenida Niévski, de Nikolai Gógol

A lista de leituras de Liev Tolstói

De Mário Peixoto, é preciso virar a página

O romance perdido de Sylvia Plath

A ignorância, de Milan Kundera