A gênese de Truman Capote



Tem dois anos. Sua mãe vai a uma festa e o deixa trancado num quarto de hotel com a única companhia do próprio choro. Aí está; essa parece ser a semente da qual germinará o Truman Capote literário que aprenderá a ver o que está na escuridão. É o primeiro de um rosário de abandonos e desencantos: o divórcio de sua mãe, Lilie Mae Faulk, quem o envia com quatro anos para morar numa fazenda no Alabama com umas tias. Para sobreviver, aflora no menino o prodígio de aprender a escrever e a ler sozinho e, já desde os nove ou dez anos, muda o pranto por uma voz com a qual começa a produzir em segredo sobre os labirintos da solidão, a marginalidade, a temporalidade e os sentimentos impregnados de orfandade e desconsolo amoroso.

Entre os anos 1970 e 1980 estiveram guardados esses primeiros gritos da voz de Truman Capote cuja edição foi publicada com o título de The early stories. São vinte contos e uma dezena de poemas escritos entre 1953 e 1943, com os quais o autor tentava apagar suas feridas da infância, provava as máscaras que haveria de colocar para toda sua vida; muitos com nuances do estilo que lhe dariam a glória literária com obras como Outras vozes, outros lugares, Bonequinha de luxo, Música para camaleões ou A sangue frio, seu romance mais conhecido que revolucionaria as formas do jornalismo e da relação entre essa forma de comunicação e a literatura.

No total, catorze textos são integralmente inéditos; dormiam, até 2014, na escuridão de alguma das trinta e nove caixas que o autor legou depois de sua morte à Biblioteca Pública de Nova York. A edição foi publicada nos Estados Unidos no final de 2015 com textos de Hilton Asl, crítico do The New Yorker e de Anuschka Roshani, editora alemã que junto com Peter Haag descobriu as peças aí reunidas. Outra parte do material, proveniente do mesmo arquivo, chegou a circular em mídias muito restritas, como a revista da escola onde o escritor estudou.  

Não é a perda o que aparece em relevo nessas narrativas precoces. São as sequelas, os estragos do abandono, o desejo e a luta por encontrar a quem amar e ser correspondido. É a escuridão daquele quarto de hotel que não o abandona. Para sair daí, o menino Truman Strekfus Persons, seu nome verdadeiro, aprende a ver na escuridão. Desenvolve um olhar diferente sobre o mundo. Sente-se à beira da vida. Torna-se um observador atento, incisivo, crítico, por vezes divertido, outras, pérfido. Essa será a arma com a qual se defenderá ao mesmo tempo em que é admirado por uns e recusado por outros.

Esse ecossistema íntimo pode ser apreciado em contos como “Miss Belle Rankin”, “Hilda”, “If I Forget You” ou “Traffic West”; vigoram, sem recorrer ao traço psicanalítico perfeitamente ajustável à situação, seu desejo de uma mãe ideal, ou sobre a fé e a lei, com cenas breves, nítidas e detalhes que antecipam seu futuro estilo. Os contos transcorrem em mundos limitados pelo machismo e a pobreza, pela confusão e a vergonha por eles gerado". Estes contos são precursores de Outras vozes, outros lugares cuja melhor leitura seria a de uma reportagem sobre o território emocional e social que contribuiu na sua formação”, escreve Als.

“O que achei mais interessante nestes contos, apesar das limitações de Capote, foi que sempre brilhou apesar de sua condição e que desejou expressar sua forma de ser numa época que não era segura para os gays porque eram condenados nos Estados Unidos” – acrescenta. “Capote concebia a verdade como uma metáfora depois de ocultar-se, a melhor forma de mostrar-se ante o mundo não precisamente como um marica nascido no Sul e com uma voz afeminada”.

Nesses contos se destaca o olhar do jornalista com descrições minuciosas e os primeiros acordes da tensão triangular, entre as pessoas, os sentimentos e lugar que dariam o tom de seu estilo. Sua letra pequena como se formasse um caminho de formigas e suas folhas batidas na máquina com revisões aqui e ali “mostram que Capote entendia a escrita como uma arte na qual era necessário trabalhar com auto-exigência”, sublinha Peter Haag quando anunciou ao público a descoberta dos textos em 2014.

Capote sempre disse que começou a escrever aos oito ou nove anos. Nunca, entretanto, chegou a falar sobre esses contos e, talvez por isso tenham passado despercebido durante todo esse tempo, até Haag ter a curiosidade de revirar as caixas desse arquivo na BNY e investigar de perto o que era aquela pasta com o título de “High School Writings”. Meses de pesquisa depois e se deu conta de que poucos textos encontrados aí haviam sido publicados. Comprovou ainda que tinham um valor próprio, não era rascunhos de outros textos, nem eram escritos de um menino ou um adolescente. Eram trabalhos que provavam uma certa maturidade. Trabalhos que precederam textos como “Miriam”, até então sua estreia literária oficial, quando publicou esse conto, em 1945, na revista Mademoiselle. Eram textos que precisavam ser compartilhados com o seu público leitor.

Os textos descobertos em 2014 têm, para os pesquisadores da obra do estadunidense, maior importância do que os inéditos encontrados dez anos antes, quando se descobriu o que passaria a ser seu primeiro romance, Travessia de verão, uma história que Capote começou a escrever aos 19 anos, justamente depois dos escritos agora revelados.

Parafraseando Anuschka Roshani, quem também assina um texto na edição ora publicada, estes são textos maduros desde o ponto de vista narrativo e linguístico, mas também sentimental; com graça e tons próprios, além de, se é que existe tal coisa, repletos de inteligência emocional. Capote deixa entrever um acesso natural à verdade do narrador, tem força poética; sua elegante maneira de construção da polifonia é respaldo para compreensão de muitas peças importantes na compreensão sobre o conjunto de sua obra.

É a busca de um paraíso materno e familiar que nunca teve. Foi um filho indesejado. É a nostalgia enigmática pela negação, pelo desconhecido, pelo que ansiava. Em todas as vertentes repousa as fagulhas do amor – seu maior desejo.

Em “If I Forget You”, a história de uma jovem cujo noivo foge do povoado, mas uma vez que ele não vai se despedir dela, ela decide ir à sua casa. Quando está à caminho, se detém e aqui é possível ouvir a voz do adolescente Truman Capote como seu credo de vida:

“Enquanto não tivessem de fato se despedido, ele ainda era dela. Então sentou-se na macia relva da noite à beira da estrada para esperá-lo.

– Só o que eu quero – disse, contemplando o céu escuro banhado pelo luar – é que ele não me esqueça, acho que é a única coisa que tenho o direito de querer”.



* Este texto é escrito com peças de "Truman Capote sin máscaras", de Winston Manrique Sabogal, publicado no El País e de "The shadows in Truman Capote's Early Stories" de Hilton Als, publicado no The New Yorker.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dez mulheres da literatura brasileira contemporânea

Onze livros para ler na estrada

Dostoiévski, um romântico desgarrado entre a revolução e Deus

Onze obras do teatro moderno e contemporâneo fundamentais a todo leitor

Baudelaire & Poe, Ltda.

O manuscrito em que Virginia Woolf anuncia o seu suicídio

Escritores narcisistas

A arquitetura da cidade como mediadora de leitura

Obras-primas perdidas e felizmente recuperadas

Os melhores de 2016: poesia