O Bairro, de Gonçalo M. Tavares


É possível que a crítica já tenha se cansado de repetir a mesma constatação – que mesmo óbvia é necessário sublinhar quando o assunto é a literatura de Gonçalo M. Tavares: sua obra é possivelmente o projeto literário mais ambicioso e singular da atual literatura de língua portuguesa. Com um estilo que conjuga densidade e sobriedade expressiva, a capacidade de síntese e a ambiguidade, o escritor é dono de uma prosa afiada como um aforismo e certeira como um verso. Fora de seu país, outros escritores – não só a crítica – assim o compreende: Enrique Vila-Matas, por exemplo, em Espanha, já disse que Tavares é um dos seus mais valiosos nomes da literatura. Além da quase unanimidade da crítica e dos seus contemporâneos – há quem torça o nariz para certas experimentações estéticas suas – há outro fator que colabora na construção de seu nome dentro e fora de Portugal: sua obra está traduzida em mais de quatro dezenas de países.

Um dos elementos que chama atenção é a capacidade arquitetônica – diriam uns – de construção de uma forja literária de ousada envergadura e diversa. Uma delas chama-se O reino e é formada por cinco obras – Um homem: Klaus Klump, A máquina de Joseph Walser, Jerusalém e Aprender a rezar na Era da Técnica – nas quais predomina o tema do mal e da dor. Outra, é a que concilia a compilação de breves notas a Walter Benjamin, e se chama Enciclopédia, do qual existem até o momento três títulos – Breves notas sobre Ciência, Breves notas sobre o medo e Breves notas sobre as ligações.

E há O Bairro, talvez a mais conhecida do leitor brasileiro, porque publicada integralmente por aqui; nesse projeto, que começou a escrever em 2002 e publicou o último título em 2010, concilia as vidas de diferentes senhores homônimos de grandes figuras da literatura moderna. É o mais extenso projeto criativo até agora: conta com dez títulos – cada um deles indicados por um nome: O senhor Valéry e a lógica, O senhor Henri e a enciclopédia, O senhor Brecht e o sucesso, O senhor Juarroz e o pensamento, O senhor Krauss e a política, O senhor Calvino e o passeio, O senhor Walser e a floresta, O senhor Breton e a entrevista, O senhor Swedenborg e as investigações e O senhor Eliot e as conferências.

As obras assim apresentadas constituem obrigatoriamente em duas maneiras distintas de serem lidas: uma, se o leitor for levado a ler uma a uma; outra se ler em conjunto. Em Portugal, a editora acertadamente ousou seguir essa possibilidade publicando, primeiro volume a volume e depois reunindo-os numa caixa, oferecendo ao leitor, primeiro um estranhamento comum a todo aquele iniciado na obra de Tavares, e, depois, uma chance de tentar compreendê-lo por uma linha mais racional, digamos assim. Todos esses projetos têm esse efeito de unidade e de multiplicidade. São, no caso de O bairro, histórias curtas – como se dez novelas – que constituem, no fim, um mosaico singular, fluido e em permanente diálogo interno, como se as obras existissem mesmo sem a presença do leitor para animá-la. 



As personagens se relacionam neste bairro, o que permite aos leitores participar, com um sorriso de canto da boca, dos discursos, conferências e reflexões de seus habitantes, com um papel fundamental para o paradoxo e sua extrema relação com a lógica e também com a ironia. Dessa perspectiva, o leitor percorre cada um dos lugares como se o próprio Tavares o levasse pela mão a conhecer casas, ruas e pessoas, uma com suas reflexões filosóficas como Valéry, outra com seus sonhos como Calvino, outra pelo seu próprio olhar, como se uma selfie como na autoentrevista de Breton ou as conferências de Eliot. Tudo, habilmente e sutilmente mesclado com alguns copos de absinto (em brindes com Henri Michaux) ou com as fantásticas ideias dos assessores políticos que encontramos em Senhor Kraus.

Outra coisa que sobressai nesse projeto de Gonçalo M. Tavares é a capacidade – um gesto que, aliás, se reflete na obsessão pela forma breve e pela objetividade citada no início deste texto – da fusão entre a natureza verbal e imagética da narrativa. Cada um dos livros que integram O bairro está marcado pelo desenho que expressa graficamente o manancial de ideias que dão sustentação à narrativa. Uma sensação que se renovará no leitor dessa obra é o deleite que desperta toda vez que somos colocados ante a inteligência e a sensibilidade da experiência criativa do escritor, aqui, multiplicada por dez.

O escritor português tem sido mestre em reeducar os sentidos dos leitores para, numa época em que todos estão condenados à dispersão pelo excesso de informação, confrontar com a necessidade de um retorno ao tempo quando era viável esforçar-se pelo desenvolvimento do espírito reflexivo. Se isso, por um lado, produz nos interessados na verborragia em grande parte da literatura comercial, uma deserção, por outro, inquire-os a parar e perguntar-se: por que isso é dessa forma? Isto é, tal como nota o próprio Tavares, há que se lê O bairro, ainda que tenhamos toda a série em mãos, deixando espaços para reflexão entre cada uma de suas partes.

No mais, Gonçalo M. Tavares recria a narrativa; hospeda o texto fora do chamado gênero – faz isso em grande parte de sua obra. Apesar do distanciamento que cada parte da obra veio a lume, que pode se confundir com diferentes tempos de escrita, o leitor encontrará a incomum forma textual mas nada dessa natureza entre esses habitantes, claro, além da peculiaridade pela qual cada um aparece designado; todos compartilham certo ar familiar e o leitor os percebe como se criados num mesmo momento vital. Esse é o motivo de que habitem um bairro, o lugar a partir do qual escreve Tavares e a partir do qual enxerga o mundo de cada um deles. Cria-se, a partir de uma sólida base filosófica e literária, um espaço próprio, baseado numa concepção poética da realidade e numa evidente sensibilidade das formas. É talvez sua estratégia de chegar facilmente ao leitor, apesar de depois tragá-lo pela correnteza da complexidade que constitui a raiz do pensamento do escritor.

No fundo, Gonçalo M. Tavares, recupera, conforme sustenta Ascención Rivas – de quem este texto se apropria de parte das ideias aqui apresentadas – apesar de toda parafernália que nos envolve, verifiac que é o que verdadeiramente nos interessa (ou nos deve interessar) são as coisas mais simples, a maneira como sentimos o mundo, como temos querido existir ou saber que o que nos falta é compreender o outro a fim de compreender melhor nós mesmos. “Para expressar estas verdades inescapáveis, Tavares constrói seu universo colocando a realidade de revés ao modelo que julgamos comodamente instalados. Só assim podemos parar, observar o absurdo que é o mundo que vimos construindo e refletir, possivelmente, sobre se queremos que nossa vida continue dessa maneira ou mude”.

É por isso, que as personagens de O bairro dão a volta em torno de simples acontecimentos – raras vezes grandes – da vida cotidiana; em grande parte o que vigora é a irracionalidade ou a forma paradoxal de ser aquilo que fica em evidência. E isso se consegue por meio da ruptura do sentido comum, de piruetas lúdicas ou dos desenhos que aí são expostos. Tavares desautomatiza essa realidade através do absurdo, do olhar poético, da ironia sutil e do humor. Desdiríamos, por fim que estes dez textos seja pequenas novelas – são também isso, mas são contos, minicontos, aforismos e, à medida que o leitor avança suas páginas, encontra-se com outros elementos que associados a esses gêneros servem de suporte para compreensão das histórias aí contadas.   


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