O reino, de Emmanuel Carrère

Por José Luís



Autor de obras que seus editores denominam “romances de não ficção”, Emmanuel Carrère parece haver optado por escrever livros entre o jornalismo “íntimo” e a investigação sobre um “tema” geral ou particular. São obras escritas em primeira pessoa e cujo protagonista é o autor; ainda que as vezes não pareça, como é o caso de O adversário, crônica indagadora sobre o insólito assassino Jean-Claud Romand, e de Limonov, biografia de uma personagem cuja peripécia, tão exagerada como real, Carrère chega a se identificar com o protagonista como se tratasse de um romance sobre o autor.

Para a presente narrativa, ele, nascido em Paris em 1957, que fez uma carreira como roteirista na França, mesclou dois elementos narrativos: um biográfico, seu período de fervoroso religioso e leitor do Evangelho de São João; e outro hagiográfico, as figuras do convertido Paulo e de seu discípulo Lucas. Se na primeira parte da obra contém a memória de três anos de fervor cristão e narra as circunstâncias vitais de Carrère em Paris com certo detalhe, o grosso de O reino está dedicado a glosar e, em grande parte, imaginar as vidas do apóstolo que inventou o cristianismo, assim como do médico que lhe seguiu desde o encontro na Macedônia às andanças posteriores até converter-se no que o autor considera um verdadeiro “romancista” com seu elegante relato sobre a vida de Jesus.

Cabe perguntar-se, em primeiro lugar, se este plano tem suficiente consistência para um livro desta envergadura e se, talvez, o mais importante, a promessa de narrador que Carrère oferece no prólogo se cumpre ao longo do livro. Aí diz que não escreve textos de ficção há quinze anos, o que confirmara suspeita de Borges de que qualquer texto de mais de cem páginas é necessariamente autobiográfico. Mas este não é mais que a pequena parte, a não ser que a interiorização que o autor faz de seus heróis do cristianismo primitivo possa considerar-se consubstancial à vida de Emmanuel Carrère. De fato: tal identificação poderia haver sido, através talvez do estilo, o verdadeiro leitmotiv do livro que seu autor sonhava escrever e que não conseguiu de um todo, como é natural. 

Mas, suas manhas de roteirista para televisão não falham. O parisiense alcança em suas primeiras cem páginas o interesse do leitor, seja crente ou agnóstico, na peripécia de sua fé, do encanto ao desencanto religioso (este último, por certo, se dá supostamente, como se fosse o estado natural de um escritor do pedigree de Carrère).  Os detalhes biográficos lhe dão credibilidade: sua crise de escritor, a carga da família e seu casamento infeliz são verdadeiros, embora as vezes não deixemos de ouvir longe os sinos do escritor condenando a sua cansativa tarefa.  

Algumas intimidades nos fazem torcer o nariz, como seu gosto pela pornografia, como os símiles do cristianismo do século I com o comunismo soviético, mas esses agravos estilísticos confirma o gênero “histórico”, da crônica de “feitos” (os de Carrère, os dos apóstolos), pois a vida é assim, uma vergonha para o estilo. De vez em quando pensamos que a ficção deste livro de não ficção é precisamente seu esqueleto: ou o roteiro, a estrutura. E o resto, a carne, é documentação retirada de outros textos (escolhida e dosificada, sem dúvida, com elegância), os quais bem poderiam ser ficção em alguns aspectos, ou história exagerada ou concatenada, se se quer, como a crônica Flavio Josefo sobre a guerra dos judeus, as cartas apostólicas ou mesmo os evangelhos.

O que poderia ser uma indagação pura e dura das origens de sua fé, com toda honestidade e a arqueologia do que foi capaz, se converte num acúmulo de notas que vão perdendo o fio narrativo condutor inicial, notas e comentários a cavalo entre a história e a filologia, sem esquecer a crítica literária, sobre a pré-história do cristianismo.

A ficção é aqui, portanto, estrutural: primeiro se dá muito relevância aos comentários que em cada dia de fé o autor escreveu sobre os versículos do Evangelho de João. Se nos dá conta de como foi desenterrar os cadernos que continham suas leituras e traz partes dela para ilustrar o livro que o compassivo autor quer escrever sobre São Paulo e que, desde então, não quer que caia esquecido nas livrarias católicas (daí a necessidade de uma rápida salpicada de pornografia e de estalinismo).

Agora, logo este motor narrativo se desenvolve, e fica por revelar, talvez não deva ser algo que nos merece ser explicado, como acaba toda essa beatitude do autor. Exerce desse ponto de concentração a perplexidade, a proeza incrível de que a obscura lenda de um guru judeu do reinado de Tibério se converteu na crença religiosa majoritária no mundo e tenha durado sem diminuir seu poder durante vinte séculos. O autor escreve o fim do primeiro capítulo sobre essa surpresa de sua conversão no início dos anos noventa. Essa “observação” passa do plano próprio do autor ao plano de sua “projeção”: Paulo, esse pecador judeu inimigo acérrimo dos cristãos a quem num belo dia lhe aparece Cristo e lhe muda a vida. Se a enfermidade de Carrère necessitou uma convalescença de três anos, a do judeu durou o resto da vida. Tampouco se parece esse longo sarampo cristão o que contraiu no fim da sua vida Philip K. Dick, um dos escritores preferidos de nosso autor.



Três partes das quatro que tem o livro são dedicadas à crônica da “enfermidade” em seus primeiros quarenta anos, desde a pregação de Paulo na Macedônia no ano 50 até quando, no ano 90, Lucas se põe a escrever em Roma sua versão dos feitos de Jesus com a ajuda das narrativas de Mateus e Marcos. As vezes as construções frasais de O reino são brilhantes, as associações sugestivas, as conclusões engenhosas; outras, nem tanto. Estas últimas aparecem sobretudo quando vem à superfície da narrativa o escritor, o fervoroso agnóstico que ainda não se explica como pôde escrever aqueles comentários sobre João, do mesmo modo que não se explica como João pôde escrever o Apocalipse e mais tarde sua alegação anti-judaica no quarto evangelho.  Não sai de sua perplexidade, e teve quase quinhentas páginas para encontrar uma saída. 

A maior descoberta de O reino é a personagem de Lucas, o romance que há neste livro, sua vida mais ou menos inventada. Graças a Lucas vemos Carrère, não, certamente, quando olha o vídeo de uma mulher que se masturba ou quando compra uma casa em Patmos ou bate no peito que é um homem inteligente, rico, de posição. Vemos Carrère no Lucas escrupuloso e alto, o que duvida, o que corrige a realidade para causar um efeito ou não danificar, no célebre estoico que Carrère não pode ser graças a todas as Hélène de sua vida.

Enfim, podemos recomendar este livro? Sim e não. Kafka, um judeu, queria que a literatura fosse implacável, uma punhalada nas costas, redigo. Mas todos estamos tão longe dele. Carrère se reconhece um fraco, alguém que não entrará no reino dos céus: “O reino – escreve – é para os bons samaritanos”, e acrescenta “não para os mestres do pensamento nem para os homens que acreditam estar acima dos demais”, isto é, os escritores, sem ir mais longe. O que me atrai em Carrère é que, como Lucas, como muitos de nós, pensa que “a verdade sempre existe e está no campo do adversário”. Gosto desse Jesus original que nos colhe a contragosto e que, no dizer de Carrère, assim culmina: “Amai vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, prefere ser pequeno a grande, pobre a rico, enfermo a são”. Gosto que Carrère prefira Ernest Renan a Léon Bloy, ainda que não esteja de acordo. Gosto que aquela inoportuna “enfermidade” não tenha sido curada de um todo, que seja como essa malária contraída em qualquer lugar insalubre do Oriente e que volta de vez em quando. Gosto que, por trás daquela cruzada de Paulo em seus prodigiosos anos de beato, o autor deste livro volte ao final num cenário parecido, mas que no riso de alegria de uma criança com down vislumbre “o que é o Reino”. Isso não. O reino, isto é, o legado daquele rebelde que se chamou rei dos judeus, parece mais, como num instante do final da narrativa Carrère insinua, a um enigma irritante, semelhante mas mais severo e indecifrável que um koan de um mestre zen.


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