Boletim Letras 360º #211

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Segunda-feira, 20/03
>>> Brasil: Um livro, dois inéditos: edição reúne textos de Friedrich Schlegel sobre a poesia
O autor foi uma voz determinant…

O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde

Por Élida Karla Alves de Brito



Considerado como o nome do século XIX, vivenciando uma época em que a Inglaterra é marcada pelo desenvolvimento econômico e industrial, um momento de conquistas para o país, acarretadas principalmente pela segunda revolução industrial, atrelando-se a isso um período de expansão e conquistas coloniais, nesse contexto, o escritor Irlandês Oscar Wilde experimenta os dilemas e os conflitos próprios do homem de seu tempo ao se deparar com os costumes, a cultura, as crenças, a repressão e a rigidez dos valores morais típicos da chamada “Era Vitoriana”. Essa conjuntura de transformações e desenvolvimento econômico também se reflete nas artes como um período de expansão em todos os seus campos, sobretudo, na literatura, destacando-se nesse setor, a obra do escritor como um dos marcos da época. Tal reconhecimento é atribuído, sobretudo pela visão que o escritor tinha de seu tempo, sendo possível dizer que “[...] De diversas formas foi ele quem melhor o encarou” – conforme bem lembra Marcelo Rollemberg no seu Sempre seu, Oscar: Uma biografia epistolar, apontando assim que foi Oscar Wilde quem melhor compreendeu, absorveu e demonstrou legitimamente muito de seu tempo.

A obra de Wilde é extensa, uma vez que ele não deteve seus escritos a apenas uma esfera da arte, mas mostrou-se eclético escrevendo poesias, contos e se consolidando como dramaturgo com peças como "Salomé" (1891), "O leque de Lady Windermere" (1892) entre tantas outras. Sendo possível, desse modo, observar em toda a extensão de sua obra o empenho e a preocupação em dar conta de expressar a realidade própria do século XIX, alçando críticas à sociedade vigente que pela dureza dos valores morais muitas das vezes intimidava o homem a manter-se preso numa vida de aparências que satisfizesse as exigências sociais. Visto que era extremamente importante para as pessoas da época manter um bom nome perante a sociedade, não se envolver em escândalos. O indivíduo deveria preocupar-se com o seu status social.

Oscar Wilde, por manter uma posição contrária a esses padrões, pode ser caracterizado pelos estudiosos de sua obra como Rolemberg (2011) e Mariani (2008), por exemplo, como sendo uma figura polêmica, possuidor de uma opinião forte e um aguçado senso crítico e estético que se diferenciava dos parâmetros estabelecidos na sociedade. As divergências podem ser evidenciadas tanto na sua obra como na sua vida pessoal. Wilde teve um sucesso efêmero no que diz respeito a sua vida social, pois se envolveu em escândalos chegando até mesmo a ser preso em 1895. Porém, deixa para a literatura um legado que se apresenta, sobretudo, na obra intitulada O retrato de Dorian Gray, que teve sua versão final publicada em 1891 e é considerada como o primeiro grande sucesso literário de Wilde, sendo reconhecida como a única obra do escritor que se apresenta como um romance.

Trata-se de um romance composto por vinte capítulos nos quais se pode perceber a presença clara de um narrador contando os fatos, bem como se pode observar o uso das formas dialogais permeando toda a trama. A narrativa se passa na Inglaterra do século XIX, mesma época em que vivia Wilde, e vai de encontro a questões comportamentais como, por exemplo, as que dão conta das vidas duplas dos homens, da hipocrisia nas ações e na moral puritana, da busca pela beleza física como fonte de felicidade numa época mantida pelas aparências, do egoísmo das ações pautadas no Eu que acabam por tornar o outro como objeto, entre outras. Os personagens retratados no romance em sua maioria pertencem ao mesmo ciclo social, a burguesia, e partilham gostos como a admiração pelo conhecimento, pela estética e pela arte. Podendo assim ser revelada uma admiração pelo luxo, o apego ao intelecto, ao status social, mas que permite de acordo com Mariani (2008, p.1-2) expor uma reflexão sobre o decadentismo vigente na época, marcado pelo jogo entre paradoxos, e, com isso expondo um pouco sobre as injustiças sociais existentes naquele período.

A narrativa conta a história do jovem burguês Dorian Gray, um rapaz que pertence à alta sociedade e vivia num cenário típico da era vitoriana. Possuidor de uma encantadora beleza e de uma aparência angelical que transmitia toda a doçura, gentileza e inocência de uma criança, Dorian é de início, um jovem que aparenta estar distante de toda maldade e sordidez de que o ser humano no ápice de seu egoísmo pode ser capaz. Desse modo, o jovem Gray se torna a principal fonte de inspiração para o famoso pintor Basil Hallward que em retribuição a essa inspiração decide pintar um majestoso quadro do rapaz.

De acordo com Basil em conversa com seu amigo Lord Henry – um aristocrata de fala dura que demonstra demasiada afeição pela vida regada aos prazeres e expressa grande desejo em conhecer o belo jovem que Basil está pintando – o seu encontro com Dorian Gray é “[...] uma razão para a arte.” (p.18). Desse modo, através da beleza de Dorian, o pintor parece encontrar uma nova motivação para pintar, descobrindo um novo significado para sua arte. Os dois se conhecem na sessão em que Basil está finalizando o quadro que pintava do jovem rapaz e logo Dorian se encanta com Henry. A pintura é perfeita, pois consegue mimeticamente resgatar toda beleza e majestade do belo jovem, retratando todo fulgor de sua juventude como se a pintura fosse um reflexo de sua alma. Mas ao se deparar com tamanha beleza e sob a forte influência das palavras de Lord Henry que afirmava para ele avidamente sobre a importância da juventude e sua brevidade, sobre como a beleza externa, isto é, a boa aparência é essencial para a vida, parece então surgir no moço uma espécie de temor pela velhice causado pelo esplendor da imagem do quadro:

"Como é triste! Eu vou ficar velho e horrendo e medonho. Ele jamais envelhecerá além deste dia de junho... Se eu pudesse ser diferente! Se eu permanecesse sempre jovem e o retrato envelhecesse! Por isso – por isso – eu daria tudo! Sim, não há nada em todo o mundo que eu não daria! Daria a minha alma por isso!" (p.35).

O Dorian exposto conservaria sua beleza, seria para sempre belo, o mundo, as maldades humanas não iriam tocá-lo, enquanto que o Dorian de carne e osso estava fadado à velhice e a perda daquilo que lhe parecia essencial, a sua beleza.  Assim, a partir de tais ações a trama passa a se desenrolar por meio de um estranho laço que é mantido entre Dorian e o seu retrato e com isso o desejo do jovem parece ter sido atendido. Desse modo, o retrato passaria a sentir o peso do tempo e a se modificar diante das ações inconsequentes e impensadas do rapaz ao passo que Dorian estaria livre para viver uma vida de prazeres, de experimentações diversas sem restrições, sem limites, pois ainda assim preservaria a sua aparência juvenil e pura.

Os anos passam e Dorian sob a influência de Henry e de suas práticas desmedidas, passa a transformar-se em um homem muito diferente do jovem inocente que foi um dia.  Tornando-se frio, egoísta e sem qualquer empatia para com os que com ele se relacionava. Dorian parece sofrer marcantes modificações internas, no seu caráter, no seu ser. Porém a boa aparência era mantida sem que houvesse qualquer mácula. A quem lhe via seria impossível imaginar que houvesse naquele rapaz de rosto ameno, olhos azuis e aparência angelical qualquer pesar, qualquer sentimento ou ação negativa.

Contudo, o retrato “[...] seria para ele um símbolo visível da consciência.” (p.105), um reflexo da verdadeira alma de Dorian. A pintura passa então a se modificar diante de cada ato, tornando-se uma imagem horrenda que fazia transparecer todas as culpas de seu dono. Gray pretende então esconder a todo custo o seu segredo e com o objetivo de manter-se intacto perante todos, ele não poupa esforços sendo capaz de cometer as maiores atrocidades contra qualquer um que possa ameaçar chegar perto do quadro de tem o poder de mostrar quem ele é de verdade.

A trama expõe críticas que permitem uma profunda reflexão sobre importantes questões de uma sociedade que se mostrava pautada numa ideia padronizada de beleza, uma época que era marcada pelo rigor de um puritanismo moral e é nessa sociedade moralista que Dorian Gray está inserido. Uma sociedade onde o cumprimento das leis morais era fundamental para formar o bom homem, o homem de bem, típico cidadão inglês. Mas era uma sociedade que escondia em sua essência relações sociais baseadas na falsidade, casamentos de fachada, traições, delitos e impunidades em nome da manutenção dessa ordem. De tal modo, na produção literária de Wilde reflexão a respeito de uma sociedade que tem como fundamento a aparência é visível.



A construção do indivíduo, sua relação com o outro e o peso das escolhas são outros temas recorrentes nesta obra de Wilde, uma vez que a personagem dona do retrato opta por viver a vida regada aos prazeres, de acordo com o queria, fazendo tudo a sua maneira sem pesar suas ações e as consequências destas nos sujeitos que a rodeava. Dorian, que um dia se viu vislumbrado pelas artimanhas e palavras de Lord Henry, passa a induzir pessoas, a levá-las ao erro sem demonstrar qualquer arrependimento por isso. Por um tempo ele parece sentir certo prazer em cometer crimes e até mesmo assassinatos dos quais sempre saía impune graças a sua boa aparência. No entanto, a cada escolha feita um peso lhe era imputado e isso era nitidamente refletido no retrato que passava a se modificar mais e mais, mostrando a verdadeira essência das atitudes do seu dono e gerando nele certo sentimento de arrependimento.

"Ah! Em que momento monstruoso de orgulho e paixão ele tinha rezado para que o retrato carregasse o peso de seus dias e que ele conservasse o esplendor límpido da juventude eterna! Todo o seu fracasso se devera àquilo. Teria sido melhor para ele se cada pecado da vida trouxesse consigo a punição certa, imediata".  (p.256).

O arrependimento demonstrado por Dorian diz respeito não apenas aos pecados cometidos e ao mundo sombrio no qual ele estava envolvido, mas recaiam principalmente sobre sua obsessão por uma beleza e juventude eternas pelas quais ele não mediu esforços, não ponderou consequências para conseguir e que no fim das contas o fez afastar-se das pessoas, retirou dele a possibilidade de amar verdadeiramente e o afastou até mesmo de sua consciência, do seu Eu.

Dentro dessa perspectiva, é possível conjecturar uma possível relação entre a obra de Oscar Wilde e alguns aspectos de outros campos dos saberes como a psicanálise e a filosofia.  A liberdade plena sem limites vivida por Dorian, a questão do fazer-se do modo como ele construiu o seu ser baseado em ilusões e prazeres efêmeros e a própria construção da consciência de si que lhe é revelada no retrato que se transforma a cada escolha feita por ele, são temas que podem interagir com o conceito de liberdade e de responsabilidade frente às escolhas que fora empregado mais a frente no século XX pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre.

Sartre mostra em O existencialismo é um humanismo que o homem livre constrói o seu ser e sua consciência em concordância com cada ação praticada, pois “[...] toda a ação implica um meio e uma subjetividade humana [...]” (SARTRE, 1973, p. 10) a ação diz muito de quem a praticou. Assim sendo, o homem livre vive o dilema de escolher e nesta escolha desvelar para outro e a si mesmo o seu ser. Dilema este que se centra entre escolher aquilo que é importante para ele em sua individualidade e aquilo que as suas escolhas individuais refletem perante sociedade.

Dorian escolheu o que lhe apetecia, fez seu caminho buscando unicamente a satisfação de seus desejos sem importar-se com os outros e com isso ele construiu uma imagem de si mesmo como um reflexo de suas ações.  E o acúmulo dos seus pecados era externado através do retrato. O retrato mostrava para Dorian Gray quem ele era em sua essência.

O retrato de Dorian Gray é, portanto, um romance que marca sua época e embora, escrito há mais de dois séculos, os temas que aborda continuam atuais. Visto que ainda nos dia da contemporaneidade o homem ainda se depara na constante luta para fugir do peso do tempo, empenhando-se na negação dos seus defeitos que o tornam humano e optam pela busca de um ideal de belo que beire a perfeição física e estética. Wilde permite através de O retrato de Dorian Gray que se reflita no quanto o homem em sua busca pela felicidade, por completar-se, pode se entregar as mais variadas paixões, aos prazeres sem limites e nem mesmo assim se sentir completo e feliz.

Referências

MARIANI, Sérgio Luis Soares. Dorian Gray: um retrato do narcisismo sob a ótica de Alexander Lowen. In: ENCONTRO PARANAENSE, CONGRESSO BRASILEIRO, CONVENÇÃO BRASIL/LATINO-AMÉRICA, XIII, VIII, II, 2008. Anais. Curitiba: Centro Reichiano, 2008. CD-ROM. [ISBN – 978-85-87691-13-2].
ROLLEMBERG, Marcelo. Sempre seu, Oscar: Uma biografia epistolar. São Paulo: Iluminuras, 2001. 
SARTRE, Jean Paul. O Existencialismo é um humanismo. Trad. de Virgílio Ferreira. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Coleções Os Pensadores).
WILDE, Oscar. O retrato de Dorian Gray. Trad. Paulo Schiller. São Paulo: Penguin / Companhia das Letras, 2012.

Comentários

Éllison Bruno disse…
Parabéns, texto muito bom!

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