60 anos do Grande Sertão: Veredas, contributo para uma reflexão

Por Antonia Marly Moura da Silva

Guimarães Rosa no Itamaraty, em Brasília, 1964. Foto: Drew Zingg. Acervo Instituto Moreira Salles


O romance Grande sertão: veredas (1956) de João Guimarães Rosa desde sua estreia tem suscitado no leitor - e também em Riobaldo, personagem central da história narrada - um emaranhado de questionamentos sem respostas, matéria exaustivamente comentada e analisada por estudiosos da área sob as mais variadas perspectivas epistemológicas. Neste ano de 2016, em que são celebrados os sessenta anos de lançamento do livro no cenário das letras nacionais, o mistério do “homem humano”, referido pelo narrador-protagonista em seu diálogo com um interlocutor mudo, ainda não esgotou a capacidade de fomentar discussões sobre questões inquietantes sobre a condição humana e temas de interesse geral.

Considerado uma obra representativa da literatura brasileira do século XX, Grande sertão: veredas continua a chamar a atenção de leitores e críticos em geral pela genialidade do autor, notadamente demonstrada em aspectos técnicos, estéticos e ficcionais, dentre os quais é oportuno ressaltar: a versatilidade da poesia rosiana que revela o trabalho cuidadoso com a língua e a linguagem, matéria potencializadora de  reflexões que projetam o leitor para além do narrado; o modo peculiar com que o narrador compõe o drama do homem simples do sertão, realçando vivências e andanças de jagunços para penetrar no mistério humano; a originalidade com que pintou um retrato dos gerais extrapolando os limites do local, o que resultou num regionalismo ímpar na tradição da historiografia literária brasileira. Frente a isso, critérios como inovação, originalidade e universalidade permitem situar o romance dentre obras primas ou canônicas - obras consideradas “clássicas”, "grandes", "geniais", perenes, que comunicam valores humanos essenciais e, por isso, são dignas de serem transmitidas de geração em geração. Esses e outros aspectos formais e temáticos fazem da narrativa um exemplo singular de prosa-poética que definem o importante lugar que a obra ocupa no cenário das letras brasileiras e estrangeiras.

Capa da primeira edição de Grande sertão: veredas

Um dado revelador do romance diz respeito às situações dramáticas que dignificam valores ditos perenes. Temas inquietantes como amor, morte, vida, solidão, saudade, dentre outros, incitam um debate que pode ser também uma maneira de ler e reler a obra, uma possível ferramenta na tentativa de avançar na compreensão de questões universais. O romance constitui leitura necessária na medida em que muitas das temáticas exploradas pelo escritor estão abertas a mais de uma interpretação, e por isso, continuam sem respostas. Seguindo esta linha de reflexão e parafraseando Calvino (1994) ao referir-se aos clássicos, podemos dizer que Grande sertão: veredas é um daqueles livros que nunca terminam de dizer aquilo que tinham para dizer, pois para apreendê-lo é fundamental não somente a leitura, mas, principalmente, a releitura. Por isso, consideramos a leitura da obra indispensável ao leitor desta e de outras gerações.

Se a leitura de um clássico implica sempre na ressonância de outro clássico, pois a leitura remonta sempre a uma releitura, tal como faz crer Calvino (1994), esse é mais um dos atributos em defesa da leitura do Grande sertão: veredas, obra em que ecoa um repositório de temas que instigam um diálogo intertextual com os mitos e outros textos, literários ou não. É quase lugar comum o reconhecimento de determinados traços da ficção do escritor que apresentam afinidades com a obra de Homero, Dante, Goethe, Joyce, dentre outros. O romance dialoga com textos do passado e do presente, com a tradição e a modernidade, exercitando a intertextualidade como recurso expressivo de sua poética.
Sob tal perspectiva. podemos dizer, de um modo sumário, que o romance é um exemplo raro de beleza poética, uma amostra de exemplos de valores universais que podem ser comprovados em fragmentos da obra, citados a seguir: Sobre o amor: “Só se pode viver perto do outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. (p. 234); sobre saudade: “toda saudade é uma espécie de velhice” (p. 34); sobre amor e morte:  “[...]morte e amor tem paragens demarcadas. (p. 122); “A morte de cada um já está em edital” (p. 444); sobre vida e viver: “Viver é negócio muito perigoso” (p. 11); “[...] A vida não é entendível (p. 109); “A vida é ingrata no macio de si, mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero”. (p. 169); “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. (p. 241)

Pelo que se observa nos fragmentos selecionados da obra - rico manancial de poesia, extraordinária experimentação filosófica em que Guimarães Rosa desce fundo à questões sobre a vida, sobre a morte e sobre o homem - podemos dizer que o Grande sertão: veredas suscita indagações que devem levar em conta a natureza das leis que regem os conceitos rosianos de língua e de linguagem, de poesia e de metafísica.

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Antonia Marly Moura da Silva é Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo, Professora da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, membro do corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL), da mesma instituição.


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