Boletim Letras 360º #211

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Segunda-feira, 20/03
>>> Brasil: Um livro, dois inéditos: edição reúne textos de Friedrich Schlegel sobre a poesia
O autor foi uma voz determinant…

Péter Esterházy, riso e melancolia



“Há, na minha memória, pelo menos três escritores sorridentes, e entre eles está Péter Esterházy, o húngaro que sorria. Os outros são Jorge Luis Borges, que sorria e fazia sorrir, e Juan Carlos Onetti, que sorria por dentro. Mas, no caso do primeiro, o riso era muito especial: ria (e sorria) de sua sombra, que vinha de uma árvore plenamente aristocrática e da marca principal de seu país no século XX, o stalinismo e seu comunismo intrínseco, conforme descreve em Pequena pornografia húngara (tradução livre)”, diz Juan Cruz.

(Entre o trio dos sorrisos é válido constatar que o húngaro tinha predileção por Borges, sobre quem disse gostar pela maneira como “trata da incerteza da realidade”; “É como se ele tivesse vindo da lua”, disse)

O escritor foi descoberto pelo mundo muito tardiamente. Com a publicação de Harmonia caelestis. Aqui era o autor maduro, capaz de afrontar e confrontar o passado, tratar o século XVII, como se fosse hoje, enquanto em Pequena pornografia era já aquele que sorria, e se ria, ante o espetáculo incrível daquele comunismo de qualidade inferior que ainda não ainda não havia entregue a colher e que ele afrontou com o humor que despertavam seus disparates.

O livro que o fez reconhecido assinala o lugar de pertença de Esterházy nas letras de seu país; saído do terrível período da ditadura comunista, quando a literatura húngara, esteve submetida ao cânone realista que impunha uma concepção de romance diferente das inovações formais, o escritor preferiu a segunda linha, porque afinal, só pela reinvenção da narrativa seria capaz de refletir acerca das transformações e peculiaridades da sociedade centro-europeia.  

Harmonia caelestis, nome genérico de 55 cantatas que constituem o primeiro documento da música barroca húngara, narra os 150 anos de histórias da dinastia a qual pertenceu o escritor – a que durante o regime comunista perdeu bens e privilégios – a partir da perspectiva de uma personagem que chama de “meu pai”; a obra quando publicada acabou por ser toldada pelas descobertas nada favoráveis que escritor fez sobre o pai – ele havia trabalhado como informante da polícia secreta entre 1957 e 1980. A obra foi integralmente reescrita e em 2002 trouxe suas reflexões a partir das notícias sobre as atividades escusas do pai. Findou sendo um texto composto de 371 fragmentos que evocam o passado identificado com a figura do pai e 201 que recriam o declínio da família. A numeração não é casual; responde pela formação matemática do autor que sempre atribuiu aos números a capacidade de dar ordem ao que não tem não tem manejo objetivo, como os dados que dão forma ao romance.



Em Harmonia caelestis, Esterházy criou a figura de um pai atemporal que permitiu-lhe transcender o anedótico para construção de um espaço metafórico onde confluem sua própria experiência e a do povo húngaro. Isto é, o relatado é a história da família, mas o protagonismo não descansa apenas na trama de pais e filhos mas no devir de uma nação que sempre manteve uma existência subsidiária. É um processo de reflexão sobre o descobrimento da Hungria, de sua própria identidade, no qual o escritor descarta qualquer propósito mitificador. Também não há quaisquer admirações profundas ou traço da memória enganadora do passado.

Quando descreve, por exemplo, uma cena na qual seus antepassados oferecem um emprego a Haydn no Palácio de Elsenstadt, a narrativa trata de apresentar, de maneira crua, o modo como eles tratavam os empregados: os criados eram obrigados a comer numa pequena sala à parte. Haydn só é permitido sentar-se à mesa quando alguns admiradores ingleses manifestam o desejo de conhecê-lo. Posteriormente, Esterházy descreve como o regime comunista transformou essa arrogância da elite num agravo permanente. Descender de uma linhagem de exploradores já não é um motivo de orgulho no paraíso socialista. O escritor, que se inclui como um membro da saga, parodia o gênero de memórias, desordenando acontecimentos, ora derrapando para o realismo e descrevendo-os com traço reais determinadas situações, convertendo a leitura numa experiência de elaboração contínua.     

“Quando, em 2004, com Harmonia caelestis ainda quente, recebeu o Prêmio da Paz dos Livreiros alemães, na Feira do Livro de Frankfurt, riu da solenidade do tempo que vivíamos então, mas ficou sério ante uma só coisa: a guerra que havia acabado com toda sua tragédia e má-ventura, no Iraque, propulsionada, como agora ficou confirmado, pela ganância de dirigentes fanáticos que deram ao mundo motivos pessoais sem se preocupar com os desastres que provocariam e seus desdobramentos visíveis em Europa e no restante do mundo” – conta Cruz e acrescenta que, ante o auditório formado por intelectuais e políticos, Esterházy sublinhou: “Só uma linha: de longe admiro os Estados Unidos, estou contra a guerra. Ponto final”.

“Esterházy era delicado. O sorriso sempre prevaleceu sobre o seu silêncio. Dentre os escritores que conheci não foi apenas o mais sorridente (tal como Onetti e Borges), mas o mais solícito, o mais tranquilo; sua condição não era o ego, mas a piada, a amizade que partia de seus grandes olhos claros. Sua geografia humana esteve marcada por um despenteado belo que servia ao pente das mãos; é um gesto que o descreve”, sublinha Juan Cruz.



Uma de suas paixões foi o futebol, porque em sua família além de aristocratas houve também jogadores; da estirpe de László Kubala, que era um tema de conversão quando veio a Madri em 1992 e quando era visto várias vezes em Frankfurt, nos bares acanhados daqueles hotéis.

Esterházy tinha a preocupação do estilo no futebol e também na vida. Sempre elegante, conforme descreve Cruz, não se burlou do sério nem do solene. Aquele dia em que recolheu o prêmio dos livreiros alemães falou sobre a pena que sentia da Europa, o continente que não havia feito os deveres no século XX, cheio de sangue, e que inaugurava outro século (este que estamos), sem sentimento, sem energia. No Leste, dizia, os problemas haviam sido escondidos para debaixo do tapete – “e agora nem sequer temos tapete, roubaram-nos os comunistas”; e no resto do continente todos os outros problemas também estavam escondidos porque pareceu que o único problema que existiu era condenar a Alemanha por ter criado Hitler. De modo que, das contas com passado, destacava, não havia sido feita todas, fizeram apenas os alemães.

Parecia um pianista, um tipo que teria convivido com Beethoven... e com Kubala; havia nele uma harmonia – celestial, provavelmente – que se acentuou com o tempo, embora o tempo tenha pulado seu rosto, o fez livre das rugas, parece sempre ter-lhe deixado mais jovem, também mais adulto. Nesse contratempo que finalmente o venceu, pagou com o sorriso que chegava aos países como se tivesse de só usá-lo para se fazer entender.

Péter Esterházy era como uma igreja com um carrossel dentro: sério só por fora. O sorriso foi sua arma; a literatura, a alma de sua casa e de sua pátria. Seus livros são o contrário – só superficialmente humorísticos.



Em Nenhuma arte, por exemplo, onde conta a paixão pelo futebol e a morte de sua mãe durante a ditadura comunista, avista-se o tom irônico em contraste com a sobriedade do tema. Forma de distanciamento ou questão de caráter? “O humor”, responde o escritor, “não diminui o grau de dor, a comédia está sempre a um passo da tragédia. Em meus livros as duas vão juntas. Por isso, às vezes, o leitor chora quando deveria rir e vice-versa”.

Nesta obra, Nenhuma arte, a mãe de Péter aparece como uma erudita do futebol húngaro; amiga de Ferenc Puskás, jogador considerado o maior da história do futebol em seu país, a mãe de Péter é também uma obcecada em fazer do filho um jogador de bom proveito. O tempo a que se refere a narrativa é o dos anos gloriosos da “equipe de ouro”, a seleção que ganhou os Jogos Olímpicos de Helsinque em 1952 para cair dois anos depois ante a Alemanha na final do Mundial na Suíça. Péter não foi muito longe; seu irmão, Márton, sim. Cresceu como uma erva daninha, à margem da vigilância materna, e terminou jogando no México em 1986. “Minha mãe guardava num caderno as notícias sobre meu irmão. Nunca fez isso com as resenhas sobre meus livros, mas sobrevivi a afronta” – disse, certa vez, entre risos.

Nem se fez um à parte do universo da bola por isso; também deixou-se contaminar pelo chamava de ópio do povo, uma via de escape para o povo húngaro. “Numa ditadura todo mundo busca um caminho de fuga. Logo chega a liberdade e a gente não sabe muito o que fazer com ela: estamos sempre preparados para sobreviver, não para viver. O comunismo acabou com as incertezas e isso [o futebol] tornou-se asfixiante mas tranquilizador”.

Durante toda a vida, o escritor quis lembrar que sua relação com  o futebol nunca foi a de um intelectual e sim a de um jogador ainda que tenha sido um fracassado. “Os que não apreciam o futebol têm razão, sua degradação é objetiva, mas eu não vejo as coisas repugnantes que o cercam, só o que acontece em campo, e o jogo em si pode ser tão refinado como atender as exigências do intelectual mais pedante. Não me interessa a violência, a corrupção... Ou seja, sim, podem dizer que fracassei como intelectual: gosto do futebol”.



Sobre a estreita relação entre o escrito e o vivido, sempre que questionado, Esterházy disse não trabalhar com uma separação entre uma e outra coisa; admirador do escritor Imre Kertész, escritor que fez uso da experiência pessoal sem subterfúgios, para ele, não é a razão entre o vivido o ficcionado o que está em questão na feitura do texto, mas a maneira como quem escreve engendra os acontecidos.  “Costuma-se dizer que o escritor deve manter uma distância entre ele e o seu objeto. Eu anulo essa distância, o que é o mesmo que infinito. Se não existe uma distância, então essa distância pode ser de qualquer tamanho”.

Nesse ínterim, uma de suas obras mais delicadas é Os verbos auxiliares do coração – texto que escreveu sobre a perda mãe. Quando o livro foi publicado, disse não conseguia falar sobre sentimentos, o que talvez justifique a reação nem sempre positiva dos leitores brasileiros com esse livro. Mas, é essa incapacidade que dá outra tônica, ainda mais sincera, ao tratar sobre a dor da perda. “Na língua húngara, não existem verbos auxiliares, então, no título eu me referi a algo que não existe, porque é algo de que não se fala. Por mais que se fale da perda, do luto, nada irá melhorar essa dor. Nada, nem se esse livro tiver sucesso. Quando se obtém sucesso, a vontade primeira é contar para a mãe. Como a mãe não está viva, isso perde o valor”.

Este e Uma mulher são dois títulos de Esterházy disponíveis ao alcance do leitor brasileiro. No segundo, o escritor húngaro parte do ponto em que, nos anos 1970, os estruturalistas haviam anunciado a morte do homem – o eu, afirmava-se, é só uma ficção, um pronome incapaz de explicar a diversidade do humano. A partir disso, Esterházy busca mostrar as múltiplas facetas que compõem o universo feminino. Concebida como um poliedro, o romance explora todas as variantes do amor heterossexual sem renunciar a pequenas incursões na penumbra do “amor que não se atreve a dizer seu nome”.

O relato se articula em capítulos descontínuos que podem ser lidos desordenadamente; cada fragmento forma parte do que, afinal é uma galeria composta pelos diferentes tipos do feminino. A descrição de cada tipo, entretanto, produzirá no leitor a sensação de que está diante da mesma mulher, desdobrada pelo tempo ou pelas circunstâncias. Ao lembrar da relação com Borges, disposta no início do texto, essa imagem sobre a figura feminina de Uma mulher evoca o que o escritor argentino advertiu: “ser todos é uma forma de ser nenhum”. É, por isso, e porque é um romance que desconstrói a ideia de um fio condutor e de personagem, um dos pontos para a história do romanesco, na altura em que alguns círculos creem absolutamente que o romance tem levado, do fim do século XIX a ao atual, uma longa estadia no leito de morte.



O autor que assimilou a lição de escritores como Broch, Düblin e Cortázar – outro latino-americano pelo qual nutria predileção – não podia deixar de ser um dos expoentes do pós-modernismo húngaro. Esterházy elaborou uma obra complexa e nada condizente com os postulados pelas teorias da forma e da estrutura literária. Sua formação em Matemática permitiu ver a literatura pelo viés oposto da lógica. “A matemática trabalha com as formas e eu penso no livro como um espaço, um território. Nesse espaço, há várias formas, várias relações que interagem entre si. Conclui-se que a literatura e a matemática são parecidas porque são como um jogo, com as suas regras”. Ao que parece, o que mais buscou fazer foi jogar fora dessas regras a fim de reinventar o jogo – tal como experimenta-se em possibilidades o leitor de O jogo da amarelinha, livro mais conhecido do Julio Cortázar.

Gostava da história. E o que a literatura poderia fazer com seu material. Em Olhar da condessa Hahn-Hahn, uma viagem pelo curso do rio Danúbio lhe permite explorar as veias da cultura que oscila entre o refinamento e a barbárie. 

Transitando por vários gêneros; não foi apenas o romance seu território de predileção – foi também o teatro, a poesia e o ensaio –, a obra de Esterházy encontra-se traduzida para mais de vinte países e é foi reconhecida com diversos prêmios e distinções ao redor do mundo. Trata-se de uma obra que caracteriza pelo jogo linguístico, pela intertextualidade e textos compostos tal como um mosaico. Sua morte foi prematura, pode-se dizer, apesar de já avisada: em 2015, no livro Diário de pâncreas havia recolhido sua relação com a enfermidade da qual sofria: câncer de pâncreas. Foi assim, como um riso, um escritor aberto aos leitores. Ou não: haverá os que se escondem quando melhor se mostram. Será este o Esterházy que nos falta conhecer? Começa, pois, uma nova jornada.


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