Dez filmes que têm na poesia e na vida dos poetas seu sustento

Entre as artes contempladas por este espaço – pode não parecer, uma vez que desde há pelo menos três anos as resenhas sobre filmes caíram significativamente – está o cinema. Desde 2008 quando começamos a copiar os textos referentes a uma lista de 100 filmes publicada ainda pela extinta revista BRAVO! que publicamos alguns conjuntos de indicações de obras cujo tema nasce numa obra literária ou é sobre a biografia de um escritor. Em grande parte, as indicações não respeitam a qualidade exigida pela crítica para um bom filme, sobretudo, no caso das listas citadas. Mas, o intuito nosso não é mesmo o de destacar produções do tipo porque a competência para dizer, pelo menos nesse caso, se uma obra é ou não merecida de ser vista, está no espectador. 

Agora, de novo voltamos a esse interesse para preencher uma lacuna, listar alguns filmes cujo enredo nutre-se da vida ou da obra de um poeta. Alguns títulos que mereciam fazer parte dessa lista, como é o caso do filme sobre Rimbaud e Paul Verlaine (Eclipse de uma paixão) e ou sobre Silvia Plath (Sylvia Plath: paixão além das palavras) ou Uivo, mas esses já foram citados em outras listas aqui publicadas e daí não repetimos. Fomos buscar outros que ainda não figuraram em espaços como estes. É possível que boa parte dos trabalhos aqui listados já seja de amplo conhecimento, como é o caso de O carteiro e o poeta ou do documentário sobre Manuel de Barros Só dez por cento é mentira. Mas não temos o propósito de ineditismo e sim agregar conteúdo e informação que agrade aos interessados. Por fim, nunca é muito lembrar que esta lista não é e nem tem interesse de ser um ranking.

cena de Tom & Viv

Tom & Viv, 1994. O filme de Brian Gilbert teve uma recepção desastrosa por grande parte da crítica que considerou o enredo muito cruel com a figura do poeta T. S. Eliot, aqui apresentado como um pateta que, para ser aceito socialmente, acaba a relação com a primeira mulher, uma contestadora da hipocrisia anglo-saxã. Ao explorar a condição pessoal do poeta, a obra deixa de se preocupar com a relação entre autor e obra para se dedicar a alguns aspectos mais pejorativos da sua personalidade. Agora, não é nenhum pecado isso, visto que se sabe que o autor de “The Waste Land” trabalhou arduamente para manter a pose do homem centrado. Se a crítica não o recebeu bem por essa razão, o que dizer então da maneira como Vivienne é aí retratada? Fica a critério do espectador ver e saber melhor sobre a obra.

Bukowski: born into this, 2003. Para muitos, o escritor estadunidense é uma daquelas figuras louvadas em excesso por leitores e parte da crítica. Sua estreita relação com a bebida e a maneira como tratou as mulheres combinada com uma literatura simples e eivada da trivialidade do dia a dia do escritor divide a opinião entre os que amam e odeiam Bukowski. Este filme de John Dullaghan é documentário – até agora o mais abrangente sobre a vida do Velho Buk. A biografia do escritor é revista desde os abusos sofridos numa infância pobre já então marcada pelo alcoolismo, o permanente desejo de ser escritor, as complicadas relações, o trabalho nos correios, até os primeiros momentos de seu reconhecimento ainda em vida como um dos ícones da chamada Geração Beat e do movimento underground. O título do filme remete a um poema de Bukowski em que reflete sobre seu lugar no mundo em relação com os lugares diversos do outro.

Tar, 2012. Não dá para nomear um a um os diretores que trabalharam na construção desse filme. São doze (!) estudantes da Universidade de Nova York. Mas dá para lembrar que foi um trabalho que envolveu atores como James Franco, sempre citado quando a relação é a adaptação de obras literárias para o cinema, Mila Kunis e Jessica Chastain. O filme é conta a vida do poeta C. K. Williams, vencedor do Prêmio Pulitzer, da infância à idade adulta através de 11 poemas escolhidos da antologia que responde pelo mesmo título do filme. Aí está a relação entre Williams, sua companheira e o filho, o esforço para a composição de uma obra de elevada importância, o diálogo com a memória e as crises criativas.

cena de Filme do desassossego

Filme do desassossego, 2010. Como se adapta o inadaptável? O livro de Bernardo Soares, heterônimo do Fernando Pessoa é um dos projetos literários mais caros à compreensão dos pesquisadores: não é a linguagem, não é o tema, isto é, a maneira como este foi construído, mas a natureza da obra. Situada no interregno da poesia com a prosa, O livro do desassossego é um extenso catálogo organizado mais tarde por estudiosos na obra de Fernando Pessoa (assim existem vários livros do desassossego) em que se reflete sobre tudo a partir da perspectiva de um eu reflexivo, contemplativo e desligado do mundo que lhe rodeia. Pese o exercício de organização desses papéis soltos, a obra continua sendo um convite à dispersão, espécie de livro que se lê por dia, como se fosse consulta a um oráculo, de modo que, cada leitor também terá, no fim, construído seu livro do desassossego próprio. Pois bem,  o diretor João Botelho resolveu tornar pública sua leitura com esse filme.

Nostalgia, 1983. A filmografia de Andrei Tarkovsky é, por si só, um contínuo diálogo com o poético. Nessa produção, o diretor russo, elabora uma visita à vida de um poeta, talvez num exercício de autodescoberta sobre o ofício; não havemos de esquecer que cineasta também foi poeta. Andrei Gorchakov realiza uma viagem realizada pela Itália em busca de um novo modo de vida; nesse percurso Tarkovsky reconstrói com toda força dramática o árduo processo de aproximação entre o poeta e o fio da existência. A narrativa acompanha os três meses da viagem de Gorchakov em companhia de Eugenia, uma atriz italiana, e a estadia a um pequeno vilarejo ao norte da Itália; é aí que o poeta mergulha em seu passado, isolando-se em impenetrável silêncio.

Pasolini, 2015. Este é um título que se adéqua a várias listas. Poderíamos colocá-lo numa lista de filmes sobre a vida de importantes cineastas; ou de importantes romancistas. Isso só reflete a diversidade artística de Pier Paolo Pasolini. Aqui, a biografia do italiano é reduzida das principais passagens da sua vida a um exercício de metonímica: isto é, Abel Ferrara, concentra-se nos últimos dias de vida de Pasolini, com destaque para sua morte violenta. Isto é, uma pequena parte de uma vida intensa é tornada em ponto para que o espectador reflita sobre a vida do biografado. Apesar das ressalvas levantadas pela crítica, o filme não cai em conceitos como enredo – porque foge das cinebiografias convencionais – e atuação. Willhem Dafoe, no papel principal, não apenas rememora traços do real-Pasolini como perfaz seu lugar de figura criativa em meio a catatau de controvérsias que o cercavam.

Camila Morgado recita poema de Vinicius de Moraes em Vinicius.

Vinicius, 2005. O filme de Miguel Faria Jr. é uma dessas pérolas raras do cinema brasileiro. Não apenas pelo rico elenco que envolve – Chico Buarque, Ferreira Gullar, Caetano Veloso, Adriana Calcanhoto, Maria Bethânia – para explorar a vida e a obra de um dos mestres da nossa poesia. Mas, pela maneira como essa constelação se organiza para numa falsa linearidade biográfica – a obra refaz a vida do poeta por cadeias temáticas da sua poesia – capaz de produzir no espectador uma vista ampla e suficientemente acabada sobre a vida de Vinicius. É uma obra de deleite.

Anos loucos, 2000. O filme de Gary Walkow explora um dos acontecimentos mais trágicos da vida de William S. Burroughs, poeta da louca geração Beat: o assassinato de Joan pelo poeta num jogo de tiro no México. O casamento entre os dois atravessa a melhor fase, contando, inclusive com a desvairada aventura pelo submundo das drogas, motivo, aliás, que leva o casal a fugir de Nova York para o país vizinho. Para dar vida a estudante de jornalismo Vollmer, prenda e presa de Burroughs, ninguém menos que uma figura conhecida da cena underground, Courtney Love. Sim, não é a biografia de Burroughs, mas uma parte fundamental que marca um antes e um depois na sua vida e no seu trabalho literário.

João Cabral de Melo Neto. Recife-Sevilha, 2003. “Só duas coisas conseguiram (des)feri-lo até a poesia: / O Pernambuco de onde veio / E o onde foi, a Andaluzia / Um, o vacinou do falar rico / Deu-lhe a outra fêmea e viva, / Desafio demente: em verso / Dar a ver Sertão e Sevilha”. Os versos de João Cabral de Melo Neto em “Autocrítica” são o norte para o documentário de Bebeto Abrantes. O filme tem a presença de Tàpies, José Castello, Lêdo Ivo, Inês Cabral, filha do poeta, que perfazem os afetos de João Cabral e, claro, esclarece uma série de elementos de sua biografia indispensáveis para a compreensão de sua obra, afinal, foi em Recife onde nasceu e passou toda a juventude que se moldou o olhar do poeta e foi em Sevilha que alcançou sua maturidade poética e existencial.

O poeta Manoel de Barros numa das gravações de Só dez por cento é mentira

Só dez por cento é mentira, 2010. O filme de Pedro Cezar é um mergulho numa invenção biográfica – à maneira do próprio poeta-centro do documentário – que combina obra e vida, espreitados por olhares diversos. “Noventa por cento do que eu escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira”. A partir dessa frase de Manoel de Barros formou-se a linha para um filme cujo interesse esteve marcado também por rever as fronteiras do gênero que dá forma a ideia, ao tornar o documental um misto entre o depoimento (não do especialista, mas do leitor comum da obra do poeta) e a linguagem visual inventiva marcada pelos recursos ficcionais. Além disso, é uma oportunidade rara de ver o poeta da desimportância entregue à sua própria obra.

O carteiro e o poeta, 1994. O filme de Michael Radford é já peça fixa, certamente, toda vez que se pensar uma lista dessa natureza. Isso porque numa condição poética é uma obra sobre a extremidade da poesia. Mario é um carteiro que, ao fazer amizade com o grande poeta Pablo Neruda então exilado político, torna-se seu corresponde particular. A aproximação se dá porque Mario quer conquistar o coração de um amor. O resultado é um processo de descoberta que envolve a compreensão sobre a poesia nas instâncias mais simples de sua própria existência.

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Há também um filme chamado Howl baseado em poema homônimo!

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