A aura dos livros perdidos

Por Andrea Aguilar

Ernest Hemingway, o trauma da perda dos primeiros escritos foi impulsão para sua obra?


Os manuscritos perdidos tornaram-se um tema literário (ou metaliterário) recorrente, uma estrutura narrativa com a qual se tem construído um bom número de obras, e que escondem um número variado de escritores, como Cervantes. Como se um intricado jogo de espelhos que borra as fronteiras entre realidade e ficção ou como simples isca para impulsionar a trama de uma história, o capital criativo e as possibilidades de fabulação que se chama por desaparição (algo romântico, intuito desesperado, fruto do acaso, fato irremediável) de uma obra estão mais que provadas. Num plano mais terreno, encontra-se a erudita paixão acadêmica por incunábulos perdidos e demais peças impossíveis do grande puzzle literário. Também a ágil recuperação de livros “perdidos” em caixões ou sótãos empreendida por agentes, editores e parentes de insignes escritores tem se demonstrado como um excelente filão, neste caso comercial e midiático, da literatura perdida e recuperada.

Um pouco mais além das armas da ficção e dos impulsos românticos do mercado se situa a pesquisa de Giorgio Van Straten e relatada em Stori di libri perduti (em tradução livre,  História dos livros perdidos). Compêndio de desgraçados avatares literários, o ensaio resgata as histórias de oito lendários manuscritos desaparecidos. “Os livros perdidos são aqueles que existiram e já não existem. Não são livros esquecidos”, esclarece Van Straten nas primeiras páginas, antes de mergulhar na reconstrução das peripécias e angústias de Ernest Hemingway, Gógol, Sylvia Plath, Walter Benjamin, Malcolm Lowry, Lord Byron, Bruno Schulz e Belenchi. Os baús e as chamas são os protagonistas indiretos desta história situada num tempo anterior ao advento da internet e dos servidores de armazenamento de arquivos.

Aí está a bolsa preta que Walter Benjamin se agarrou até o último dia em Portbou e a qual não ficou rastro algum, como a bagagem que também se perdeu em Collioure (e outros escritos que se especula que aí continha) de Antonio Machado. Quando no tempo em que os livros viajavam em malas, o descuido num trem procedente de Paris com destino à Suíça resultou no roubo dos primeiros contos e o romance no qual trabalhava havia três anos do jovem cronista de Toronto star Ernest Hemingway. Sua primeira companheira, Hadley Richardson, foi quem sofreu o furto em 1922, quando tomada por um ataque de sede abandonou o vagão para comprar uma água em Evian. Só sobreviveram dois contos – aqueles cujas cópias haviam sido enviadas para uma revista no interesse de vê-los publicados. Papa tardaria várias décadas em reconhecer que talvez aquela perda traumática tenha sido para o bem como sugeriu Ezra Pound. E se aquela maleta do trem roubada da sedenta Hadley nunca apareceu, em 1956, o atento diretor do Ritz de Paris devolveu ao já então Prêmio Nobel de Literatura outras duas repletas de papéis que haviam sido deixadas esquecidas durante um par de décadas no hotel e que serviram de base para a escrita de Paris é uma festa.

O britânico Malcolm Lowry também sofreu furtos de maletas com manuscritos – Ultramarine foi subtraído do assento traseiro do conversível de seu editor, diante um bar onde estacionaram – mas as cópias em carbono salvaram À sombra do vulcão. O que não teve remédio foi o que se perdeu no incêndio de 1944 na casa no Canadá onde vivia com suas segunda companheira. Arderam quase mil páginas da versão melhor trabalhada de In the Ballast to the White Sea, uma obra que representaria o paraíso frente ao inferno de seu romance anterior no que havia sido proposto que fosse uma versão sui generis da Divina comédia.

Esta obra de Dante e um final entre chamas também estão no coração da história do russo Nikolai Gógol. O sucesso de Almas mortas – a primeira parte do inferno, purgatório e paraíso que pretendia escrever – serviu para aumentar sua neurose de perfeccionista e o desinteresse pela viagem de Gógol. Em 1852 ante seu criado, dez dias antes de sua morte, decide queimar as cerca de quinhentas páginas de sua nova obra. E parece ser que aquela fogueira marcou a estrela para muitas outras que chegaram à publicação – quase com os buracos deixados pelas pontas de cigarro – na literatura russa. Seja por dramático inconformismo com o que havia escrito, seja por medo da censura, Dostoiévski, Pasternak ou Anna Akhmátova queiram seus escritos, segundo Van Struten. Talvez os arquivos da KGB ainda revelem interessantes surpresas e textos inéditos de grandes autores perseguidos; ao menos é o que se especula sobre a aparição possível de novos textos de Varlam Chalámov, o autor de Contos de Kolimá.

Sylvia Plath, censurada por seu ex-companheiro.


Fogo e censura foram o final destinado às memórias do grande romântico Byron, mas não por decisão própria e sim pudor e medo que sentiram depois de sua morte seu editor, sua viúva e meia-irmã e ainda um par de amigos – poucos deles contrários à fogueira, como Thomas Moore – acerca da aberta confissão de sua homossexualidade. O poeta Ted Hughes também queimou os diários de sua companheira, Sylvia Plath, com a desculpa de proteger seus filhos. O romance Double Exposure, no qual trabalhava, também desapareceu, segundo Hughes levado pela sua sogra.

Um destino de igual incerteza foi o do romance O messias, de Bruno Schulz, e talvez por isso, esta obra tenha servido de inspiração para os textos de Cynthia Ozick e David Grossman. Fora do livro de Van Straten, na seção de objetos perdidos da literatura, se destacam o poema cômico de Homero Margites, a obra de Shakespeare, Cardênio, inspirada num episódio de Dom Quixote, de Cervantes, ou o manuscrito de um romance de Herman Melville, A ilha de Cross, escrito inspirado na história real de Agatha Hatch, a filha de faroleiro que resgatada de um náufrago findou por abandoná-la.

Entre as cópias, manuscritos, versões, cinzas, versos e maletas cresce a história do que poderia ser e não foi, pura carne para a lenda. Essas histórias significam o fim de outras versões desta atribulada história? Não. O roubo de um computador pode ser um bom começo para uma nova história do gênero.

* Este texto é uma versão livre para "El aura de los libros perdidos".


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