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Mostrando postagens de Novembro, 2016

Oscar Wilde, narrador

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Por José carlos Llop




Se Oscar Wilde é autor de um só romance, O retrato de Dorian Gray, também é verdade que há outro romance seu oculto em sua própria personagem. Não me refiro a Teley, essa novela homoerótica, nem a De profundis – que traria certas chaves sobre sua autobiografia ou não e logo seria um dos novos arranjos da narrativa moderna – nem tampouco aos contos, dos quais poderia citar O crime de Lorde Arthur, O fantasma de Canterville ou ainda O retrato de Mr. W.H. Neles não poderíamos rastrear gestos disso que os franceses chamam nouvelle e nós aprendemos a chamar como novela. Refiro-me à narrativa de uma vida, novela (ao invés de romance) da vida, novela escrita pelo próprio Wilde com tintas de sua vida e que foi ficcionada em tantas ocasiões, seja por outros romancistas, seja pelo cinema.
A vida de Wilde há aparecido nessa literatura geralmente marcada pelo mistério estético e o drama novelesco de sua personagem principal, dotado entre outras coisas de um talento extraordin…

Seul suja

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Por Pablo Augusto-Silva


Se tivéssemos como missão selecionar um trecho que resumisse o espírito do romance da coreana Bae Su-ah (1965-), Sukiyaki de Domingo (tradução Hyo-jeong Sung, Estação Liberdade, 2014), seria este diálogo entre uma exótica modelo de pelos púbicos e um jornalista:
“Daqui a dez anos? – repetiu a mulher a pergunta, como se tivesse sido pega de surpresa e logo ficou pensativa. – Acho que não estarei fazendo nada. Provavelmente não serei mais modelo de pelos púbicos daqui a dez anos. Eu não gosto de viajar e nem me dou bem com as pessoas. Realmente não sei o que será de mim daqui a dez anos. Não consigo pensar em nada concreto, questionada assim, de modo tão repentino. Mas sei que não quero ficar com a pele flácida. Pelo menos isso é certeza. Fora isso, nunca pensei no assunto. – Não consigo te imaginar com a pele flácida daqui a dez anos. – Ah, pode acontecer. Vou estar com mais de 30 – insistiu a mulher. – Eu conheço várias mulheres com mais de 30 anos e nenhuma de…

Distantes, mas próximos: sete romances que dizem a história da América espanhola

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Por Sergio Ramírez

Os romances do que poderíamos chamar cânone clássico da literatura de língua espanhola na América têm já uma idade provecta, segundo esse arcaico termo que se usava para sublinhar a idade avançada. Dona Bárbara, que deu a essa literatura uma de suas personagens verdadeiramente arquetípicas, aquelas que saem das páginas de um livro para andar pelo mundo por conta própria, vai já para os noventa anos de sua publicação; e seu autor, o venezuelano Rómulo Gallegos, nos recorda algo já quase esquecido, o dos escritores que equiparava a vida literária com a vida política.
Seu caso parece incomum e logo memorável. Era um reformista de coração, que aborrecia a sociedade selvagem, de intensas tintas rurais de seu país, e queria estabelecer o legal que décadas de ditaduras militares haviam convertido em um insulto. Reformar o campo onde reinava a lei do mais forte, substituir o arbítrio pelo pela ordem jurídica, é a tese de Dona Bárbara como romance. Santos Luzardo, em nome da…

Boletim Letras 360º #194

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Já se aproxima do nosso recesso de final de ano (brevíssimo, o leitor nem sente). Mas, estes boletins, avisamos, sempre estão mantidos, claro, com dimensão bem menor que a de costume e as redes sociais não deixam também de se movimentar nesse período. Estudamos o período entre o Natal e algumas semanas de janeira, como de praxe, para isso.



Segunda-feira, 21/11

>>> Portugal: Obra com desenhos e textos inéditos intitulada Eça de Queiroz em Casa — Desenhos e Textos Inéditos, com organização e transcrição Irene Fialho ganha edição

Os textos e desenhos são, na sua maioria, inéditos, provenientes de álbuns que estiveram mais de cem anos escondidos do público. Mesmo nos poucos casos em que os textos e as imagens já se encontravam publicados, nunca foram coligidos numa edição que restituísse a sua forma original. A edição não só revela uma faceta quase desconhecida de Eça de Queiroz, a de desenhista, como permite uma visão única do círculo familiar e de amigos em que o grande escrit…

Dez filmes cujo enredo é baseado em poemas

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Enquanto elaborávamos uma lista com filmes cuja trama davam conta de obras poéticas e seus mentores, o site Flavorwire divulgou outra com expressões cinematográficas cujo enredo recorrem a alguns importantes poemas da literatura de língua inglesa. É a lista que agora é apresentada no blog; mas, ampliamos em conteúdo e não seguimos a sequência aí proposta uma vez que as escolhas então apresentadas não estão submetidas a um ranking ou coisa do gênero.
A lista tem sua diferença, visto que – e o leitor não nos deixará mentir – é bastante comum as adaptações de obras de ficção, narrativas históricas e mesmo de livros de autoajuda, mas de poemas é coisa bastante rara, apesar de mais comum do que se pensa. Como sempre é útil lembrar a sequência apresentada aqui não responde pelo conjunto integral das produções cinematográficas cujo enredo são adaptações de poemas. Se os critérios fossem expandidos para uma compreensão de outras produções do gênero, há releituras da Odisseia, da Ilíada, de …

Todo naufrágio é também lugar de chegada, de Marco Severo

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Por Pedro Fernandes



Estamos há muito distantes das primeiras formulações sobre o conto enquanto forma literária. Edgar Allan Poe, nas resenhas críticas para a obra de Nathaniel Hawthorne, seu contemporâneo, apresentou a teoria da unidade de efeito juntamente com a ideia de que o conto poderia ser a forma apropriada para a expressão máxima dos talentos de um artista. Em parte, esta afirmação está presa ao contexto no qual se apresenta: o de desvalorização do conto pelos escritores que viam no romance a forma melhor acabada da narrativa – claro, estamos no auge do romance. Embora a história das formas literárias reivindique o lugar do conto muito anterior ao romanesco, este, por sua vez construiu seu grande reino cujas bases só agora, no princípio do auge de uma sorte de parafernálias de entretenimento que reivindicam a brevidade, tem sua legitimidade colocada à prova. 
Mas, o conto, assim como a crônica, apesar de praticado por todos os grandes escritores ainda se apresenta, para muito…

André Gide

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Nasceu em Paris, em 1869. A primeira memória de André Gide é a de uma mesa de jantar coberta com uma toalha que chegava até o chão. Com o filho da porteira, da mesma idade que a sua, que ia todos os dias lhe buscar, deslizava entre aqueles panos e ambos agitavam ruidosamente alguns brinquedos, num jogo de esconde-esconde e outras brincadeiras infantis, que segundo soube depois eram maus costumes. Tinha então cinco anos e foi seu primeiro simulacro. Era um menino mimado, muito tímido, filho único de um renomado professor de Direito, que morreu quando André tinha 11 anos. Nessa idade veio abaixo a obsessiva proteção de sua afortunada mãe, Juliette Rondeaux, que, apesar de tudo, o educou numa elegante austeridade, como uma forma de querer seduzi-lo eternamente, visto que até o fim de seus dias cercou o escritor de mimos e conselhos ininterruptos com atitudes, pensamentos, certos gostos, livros e roupas como se nunca tivesse crescido.
A babá o levava aos jardins de Luxemburgo, muito próx…

Gabriel García Márquez, o romance do poder

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Por Enrique Krauze



Os funerais de Gabriel García Márquez no México pareceram saídos de um de seus contos mais famosos: "Os funerais da Mamãe Grande". Ao longo de várias horas, debaixo de chuva, milhares de pessoas passaram ante a urna que continha as cinzas do mais famoso, lido e querido de seus escritores. Do Palácio de Belas Artes ouviam-se de danças de Béla Bartók até alegres cumbias e vallenatos. Fora, nuvem de trezentas e oitenta mil mariposas amarelas de papel da China trazidas da Colômbia revoavam nos ares. Gritos, cantigas, cantos. Um ancião carregava um letreiro: “Gabo, te verei no céu”. Um menino comentou: “Venho ver o rei de Macondo”.
É verdade. Era o rei de Macondo. Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1982, seus principais romances foram justamente celebrados em seu momento por V. S. Pritchett, John Leonard e Thomas Pynchon, entre muitos outros. No longo e largo do mundo circulam profusamente suas ficções, com seu extraordinário poder fabulador, seu encanto…