10 destaques em projetos editoriais de 2016


- Teatro completo, de William Shakespeare.
Este deve ser o maior projeto editorial deste ano no Brasil. Numa maneira de assinalar os 400 anos da morte do dramaturgo inglês, a Nova Aguilar, no âmbito das reedições das obras completas preparou uma caixa com três volumes reunindo as 38 peças traduzidas por Barbara Heliodora, uma das mais respeitadas especialistas na obra de Shakespeare no Brasil. Dividida em três volumes, a edição inclui inclusive traduções inéditas deixadas pela tradutora, como a da peça “Eduardo III”. A revisão da edição permitiu incluir novas notas e comentários.

- Todos os contos, de Clarice Lispector.
Foi o sucesso internacional da edição que chamou a atenção dos editores no Brasil para trazer essa obra para cá. Apesar de alguns deslizes acadêmicos cometidos pelo organizador – como bem observou Nádia Batella Gotlib, primeira a, entre outros projetos, escrever uma biografia sobre a autor de A paixão segundo G.H. num texto publicado na Revista cult – Benjamin Moser, quem parece mover-se por um sentimento mais aceso que falta a pesquisadores ligados ao meio universitário, paixão, acertou na edição; encontrar toda a narrativa curta de Clarice numa só edição é uma maneira muito interessante de descobrir a obra da escritora ou fazer um balanço sobre o seu projeto criativo.



- Os sertões, de Euclides da Cunha.
O trabalho inaugura uma editora interessada na apresentação diferenciada de algumas obras da literatura no Brasil. Apesar das livrarias ainda dispor de uma edição publicada em 2009 por ocasião do centenário do livro, com igual riqueza de trabalho como esta apresentada pela Ubu, a edição sempre conceituada organizada por Walnice Nogueira Galvão, passou por uma ampla revisão, além da compilação de vários textos da crítica literária sobre a obra. Isso só agrega importância a uma das obras necessárias da nossa literatura. Além disso, os desse projeto editorial pensaram no alcance do leitor de gosto diverso – o acadêmico e o comum – num arrojado projeto gráfico. Entre os textos da crítica literária estão autores como José Veríssimo, Sílvio Romero, Gilberto Freyre, Antonio Candido, Antônio Houaiss e Luiz Costa Lima. A edição apresenta ainda fotografias de Flávio Barros realizadas quando Euclides foi em cobertura da perseguição e massacre ao povoado de Canudos e algumas páginas dos cadernos de notas e desenhos do escritor. São dois volumes acondicionados numa caixa. Leia mais sobre aqui

- Ensaios, de Michel de Montaigne.
Publicados entre 1580 e 1588, esta é uma obra que se tornou reconhecida ainda em vida, inspirando os filósofos do Iluminismo e lançando as bases de um novo gênero literário. Segundo o crítico Erich Auerbach, um de seus mais agudos leitores, ao falar de si, Montaigne falava da condição humana. A edição agora reapresentada pela Editora 34 foi publicada originalmente em 1961; trata-se de uma tradução integral realizada por Sérgio Milliet, um dos grandes intelectuais brasileiros do século XX. O volume conta ainda com revisão e notas adicionais de Edson Querubini, um dos principais especialistas em Montaigne no Brasil, e uma esclarecedora apresentação de Andre Scoralick.



Dom Casmurro, de Machado de Assis
A escolha dessa obra para esta lista obedece uma triagem entre tantas edições de elevado primor projetadas pela Carambaia. Especializada no segmento dos livros entre padrão luxo e semi-luxo várias foram as edições apresentadas durante 2016. Esta de Bruxo de Cosme Velho ganhou duas versões: uma tiragem de 100 exemplares para o primeiro grupo com trabalho gráfico diferenciado – cada capa, por exemplo, foi confeccionada unicamente para cada edição; e outra tiragem para o segundo grupo com 900 exemplares. Todos são em capa dura e com luva. O formato homenageia a edição original da obra, de 1899, publicada pela Livraria Garnier. Há também a referência a uma antiga técnica de decoração de livros, na qual imagens ficam dissimuladas na lateral do volume, revelando-se ao leitor conforme ele manuseia o exemplar.

Crônicas (caixa Rubem Braga).
A obra do escritor brasileiro é monumental: em 62 anos de atividades terá escrito mais de 15 mil textos. Se editar tudo isso pode ser um desafio para qualquer editor, selecionar entre essa leva de escritos o mais importante é ainda maior. André Seffri, Bernardo Buarque de Hollanda e Carlos Didier lançaram-se a esse desafio. São eles os organizadores dos três volumes que cobrem parte do trabalho cronístico de Braga. Cada título traz 100 textos e posfácios escritos pelos organizadores mais textos de Miguel Sanches Neto, Milton Hatoum e Aldir Blanc. O primeiro volume, “Os moços cantam” reúne textos sobre música; o segundo, “Os segredos de Djanira”, sobre arte e artistas; e o terceiro, “Bilhete a um candidato, textos sobre política. Ao todo, 736 páginas que cumprem a tarefa de ser uma excelente introdução à obra do cronista.

- Aniki Bóbó, de João Cabral de Melo Neto.
O aparecimento desse livro no mercado editorial brasileiro foi algo já raro: foi publicado em 1958, numa tiragem limitadíssima de apenas 30 exemplares, pela editora artesanal O Gráfico Amador, e nunca mais foi reproduzido ou coligido em coletâneas do poeta. A obra de apenas 12 páginas trazia um poema e ilustrações do designer gráfico Aloisio Magalhães. Quase 60 anos depois, a Editora Verso Brasil relançou a obra com reprodução das características artesanais da edição original (papel canson, técnicas como serigrafia), numa edição também limitada.


- Macunaíma, de Mario de Andrade.
São 350 exemplares artesanais. O projeto é de Gustavo Piqueira, da Casa Rex, um dos mais premiados designers gráficos do país. A obra reúne 16 ilustrações impressas em serigrafia e coladas manualmente no livro. O texto da presente edição foi estabelecido pelo Prof. José de Paula Ramos Jr., tomando como base o da última edição em vida do autor (Martins, 1944), mas confrontado com o da segunda (José Olympio, 1937) e beneficiado pelas sistemáticas consultas aos textos da referida edição crítica (ALLCA XX, 1997) e da fidedigna (Agir, 2007). O texto aqui apresentado, no entanto, caracteriza-se, principalmente, pela atualização ortográfica, conforme o Acordo de 1990.

Antologia Postal (vários poetas).
É uma coleção em parceria da Azougue Editorial com a Cozinha Experimental formada por livros mensais com tiragem limitada por assinatura que reúne o trabalho de grandes poetas brasileiros contemporâneos. Cada livro é antologia do poeta seguida por uma entrevista inédita. O acabamento do livro é artesanal e em capa dura com tecido. São 12 títulos incluindo um inédito de Roberto Piva. Estão, além de Piva, nomes como  Alberto Pucheu, Carlito Azevedo, Claudia Roquette-Pinto, Claudio Willer, Eucanaã Ferraz, Francisco Alvim, Frederico Barbosa, Glauco Mattoso, Guilherme Zarvos, Josely Vianna Baptista, Leonardo Fróes, Lu Menezes, Paulo Henriques Britto, Renato Rezende, Ricardo Aleixo e Torquato Neto.

Obra completa, de Raduan Nassar.
Para celebrar os trinta anos da Companhia das Letras, a editora utilizou a oportunidade de marcar a prata da casa com uma edição diferenciada – sabe-se que Nassar, apesar de não publicar há anos é um dos autores mais quistos dos leitores. Soma-se a isso o caso de haver ganhado o Prêmio Camões, galardão mais importante para a literatura de língua portuguesa e a projeção que sua obra alcançou este ano entre os de língua inglesa. A edição juntou os três únicos livros de Raduan Nassar mais três textos ainda inéditos no Brasil; o livro em capa dura, com acabamento em tecido, pelo perfil da editora, é de figurar entre os trabalhos de qualidade de 2016. Leia mais aqui.

- Bernice corta o cabelo, de F. Scott Fitzgerald.
Traduzido por Juliana Cunha e aqui apresentado em versão integral, com ilustrações de Mika Takahashi, o conto bem ao estilo da Era do Jazz, escancara o jogo das relações sociais de um grupo de adolescentes ricos: o ambiente em que cada um se encontra, onde são vistos, notados, e avaliados. Roupas, festas, cortes de cabelo e, enfim, palavras. A edição, cujo projeto gráfico é de Daniel Justi, tem ainda tipografia e cortes diferenciados e marca texto que imita uma mecha de cabelos.

Ligações a esta post:

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A religiosidade clandestina de Hermann Hesse

Água viva, de Clarice Lispector

Pablo Neruda: o que não dá mais para ocultar

Apontamentos sobre alguns textos curtos de Tolstói

Boletim Letras 360º #231

Quando Borges era Giorgie

Salinger, um grupo de psicopatas e os do MKUltra

A filha perdida, de Elena Ferrante

Gostamos de causar danos (com o grande romance estadunidense)

Jane Austen: casamento e dinheiro